Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 24.11.2009 24.11.2009

Nosso homem flauta

Por Bruno Dorigatti
Fotos de Tomás Rangel

 

O senhor desce vagarosamente a escada na entrada do prédio,em uma pacata rua arborizada de Copacabana, Rio de Janeiro. Depois de seishoras de exames na véspera, ele justifica a voz rouca e a saúde delicada porconta do martírio do dia anterior. O humor, porém, segue imbatível. Ri, fazpiadas, brinca com os presentes, pula de um assunto para outro, volta, perguntaquando enfim poderemos falar da caixa que está sendo lançada, com quatro DVDs eum livreto de 80 páginas, A fala daflauta.   

A caixa, aliás, um trabalho primoroso lançado pelagravadora Biscoito Fino, reúne o show realizado especialmente para celebrar avida e obra deste que é apontado como um dos maiores flautistas de todos ostempos, sem exagero. Além da apresentação no Teatro Municipal deNiterói (Rio de Janeiro), com a participação de vários amigos e colegas músicos,os DVDs registram aparições na TV, parcerias com gente como Roberto Carlose Chico Buarque, entrevistas e momentos raros deste flautista, que, apesar dasaúde debilitada, segue na ativa, tocando sua flauta como ninguém. Já a caixacom os CDs, intitulada A poesia do sopro elançada em 2008, além de trazer o áudio dos shows em Niterói, inclui um terceiro discocom apresentações históricas, onde o mestre toca sucessos seus e de outros,como K-Ximbinho (“Sonoroso”), Bonfliglio de Oliveira (“Flamengo””) e Zequinha deAbreu (“Tico-tico no fubá”).

Estamos, claro, falando de Altamiro Carrilho, que completa85 anos em dezembro, dos quais 70 dedicados à flauta. Essa relação começou muitocedo e o flautista recorda o primeiro contato com o instrumento, ouvindoPatápio Silva quando tinha cinco anos, no hoje distante ano de 1929. “Fui àcasa de um amigo do meu pai que tinha um gramofone, eram gravações mecânicas. Láouvi um disco e fiquei encantado com a música, tocada pelo Patápio Silva. Daí,a história é bem longa, mas bem longa mesmo. Comecei a estudar [flauta], a meinscrever em programas de calouros. Comecei gravando logo com um artista famosoda época, Moreira da Silva”, sintetiza Carrilho o início da carreira ementrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo

Nos programas de calouros onde aparecia Altamiro levava oprêmio principal. “Fui um papa-prêmio. Em um dos últimos que ganhei, o dono do conjuntoque acompanhava os calouros disse: ‘Você já está em condições delevantar vôo. Já está com muita firmeza no sopro, ritmo sensacional. Sequiser, começa pelo meu conjunto’. Era o Rogério Guimarães, que muita gente nãoconheceu. Foi um dos melhores violonistas do Brasil, tocou com Pixinguinha, comvários músicos famosos. E fui, finalmente, trabalhar no conjunto dele comosolista de flauta”, relembra o músico a primeira oportunidade profissional queteve. 

Altamirotambém teve o privilégio de aprender e tocar com alguns dos mais importantesmestres de nossa música, como Donga, Pixinguinha e Benedito Lacerda: “Eu tiveuns dez ídolos, uma miscelânea tremenda, era um com o estilo diferente dooutro. Daí a facilidade que tenho para tocar qualquer ritmo musical. Fuicaptando um pouquinho do talento de cada um. Meu primeiro professor, naverdade, foi Patápio Silva, que conheci através do disco. Depois veio DanteSantoro, músico muito bom, que também marcou a minha carreira. Principalmente,porque ganhei um prêmio gigantesco, acumulado há oito semanas. Toquei umamúsica do Dante, considerada um desafio, e ganhei oito prêmios acumulados. Logodepois foi Pixinguinha”. 

Altamiro conheceu o mestre em sua própria casa, em umafesta. “Ele me deu uma força incrível. Não sabia que ia encontrar uma pessoatão competente, tão simples e tão humilde. Ele era a própria humildade empessoa. Fui levado por amigos à festa na casa dele. Chegando lá, ele fezquestão que eu tocasse, quando meu amigo me apresentou como flautista. E eledisse assim: ‘Então, peraí, pede ao pessoal mais antigo para parar umpouquinho, vamos ouvir o garoto’. Toquei e os chorões aplaudiram muito, meabraçaram. Aí o Pixinguinha ficou sabendo da minha forma de tocar, que agradavaa gregos e troianos”, rememora.

“Tudo o que era cantor desucesso me chamava para tocar”, diz Altamiro, que emenda os grandes nomes danossa música no final da primeira metade do século passado: “Orlando Silva,Francisco Alves, Augusto Calheiros, Carlos Galhardo, Trio de Ouro, Dalva deOliveira, Dircinha Batista, Isaurinha Garcia… Isso me deu uma experiênciamuito grande em termos de acompanhamento. Poucos sabem solar e acompanhar”. 

 

A falada flauta 

“Agora,podemos entrar numa parte comercial?”, sugere, para tratarmos da caixaque está sendo lançada, A fala da flauta (BiscoitoFino). O responsável pela iniciativa é o alemão Andreas Pavel, admiradorincondicional do músico, que teve a idéia há cinco anos e, depois de muitos percalços,conseguiu realizar o trabalho, com patrocínio da Petrobras e do Sesi, além decolocar dinheiro do próprio bolso. “Ele achava meu sopro diferente. A minhapronúncia das notas na flauta são diferentes de quase todo mundo. Ele disse queparece que estou falando através da flauta. ‘Não, eu pronuncio mesmo aspalavras, dou voz à flauta’, eu disse. E expliquei: No ‘Um a zero’, porexemplo, eu falo uma palavra indígena: ‘taiara, taiara, taratuntan, tantarantan’”, cantarola o clássico choro de Pixinguinha. A pronúncia acentuada,que os outros não fazem, é a vantagem de Altamiro Carrilho sobre os demais,apesar de termos muitos flautistas bons, aqui e lá fora. Talvez esteja aí aexplicação para a frase de outro grande mestre do instrumento, o francês Jean-PierreRampal, falecido em 2000: “Existem flautistas. E existe Altamiro Carrilho”. 

A idéia era fazer algo daaltura de Altamiro. Reuniu-se 17 convidados em dois dias no Teatro Municipal deNiterói, em 2006, para reverenciar e acompanhar o mestre, o fio condutor dos quatro DVDs,bem como o making of deste registro.Além disso, foi feita uma pesquisa no acervo das emissoras, trechos deprogramas onde ele participou, números musicais, registros históricos comRoberto Carlos, Abel Ferreira, Waldir Azevedo, Raul de Barros, entrevistas, oencontro com o palhaço Carequinha, que teve álbuns produzidos por Carrilho, alémde composições exclusivas como a hoje clássica “O bom menino”. 

Na conversa, Altamiro intercala as lembranças remotas de seucomeço ainda na adolescência com as incontáveis viagens que realizou mundoafora, pelos cinco continentes, sempre tocando sua flauta, a serviço da músicabrasileira, entre choros e sambas, e da música erudita de Bach e Mozart.Excursionou dentro do projeto Humberto Teixeira, que levou dezenas de artistas à Europa e outros países. Comisso, conheceu uma vasta cultura musical, além de ter tido a oportunidade degravar discos no México, na França, na Itália, além de participar de umprograma de televisão dedicado à música instrumental, em Los Angeles, EstadoUnidos.

“Tudo isso foi uma bagagem boa, de conhecimento do meio musical. Porqueesse meio é muito estranho. Quando você pensa que já conhece alguma coisa, vocênão conhece nada. Aparece uma coisa nova, desagradável, mas que você tem que convivercom ela”, completa. Entre as estranhezas que presenciou em sua longa carreiramusical, Altamiro cita o caso que aconteceu com um músico mexicano. Naquele país existeuma cota de defesa do mercado interno, digamos assim, onde se contrata músicoslocais reservas para o acaso de um imprevisto impedir os músicos estrangeirosde se apresentarem. Eles recebem igualmente, mas tocam quando os músicosinicialmente convidados não podem se apresentar. Certa feita, o flautistamexicano reserva queria entrar fazendo o show, e teve que ouvir do diretormusical que não era bem assim. Em apenas uma hora, mesmo que quisesse, elenão teria condições de passar o repertório, os pout-pourris e os arranjos. Eraensaio para, no mínimo, 15 dias. “Mostramos um choro brabo nosso, e ele reconheceuque não era algo simples de fazer”, lembra. Todos eles ganharam, porém, o mesmoque o conjunto de Altamiro, para ficar esquentando o banco nos bastidores dasapresentações.

Voltar a esses momentos, reveressa trajetória, segundo o músico, foi muito bom, e lhe trouxe uma saudademuito grande. “Se eu tivesse sido um sortudo, de ter tido uma gravadora rica…Porque estive em gravadoras boas, mas só por pouco tempo. Porque eles sabemtudo, a gente não sabe nada”, ironiza e continua: “Você quer mexer em umdetalhe, para melhorar a sua execução, eles não deixam. Quer dizer, a gente quetem uma trajetória longa como eu tive, uma bagagem, e já fui diretor artísticode gravadora, ceder a um bicão não dá, né? Bicão é aquele produtor que não sabede música, mas produz discos por aí”, explica.

Se faltou sorte com asgravadoras, sobrou com o dom para improvisar. Foi um privilégio? “Isso me deuuma vantagem muito grande sobre os outros. Radamés Gnatalli, o grande maestro eorquestrador, quando tinha que gravar com piccolo ou flauta em sibemol, mais aguda, próxima do saxofone soprano, me chamava, poisdizia que os meus colegas não afinavam com a orquestra”, fala, sobre o menorinstrumento de uma orquestra sinfônica, e o que fala mais alto.

Voltando aos DVDs, segundoAltamiro, “é um emaranhado de coisas, mas só coisa boa, de tudo um pouco. Temmúsica para rir, música para chorar, música para escovar os dentes, música paraalmoçar. Temos os grandes nomes da nossa música popular, como Ernesto Nazareth,Jacob do Bandolim, Villa-Lobos, Moreira da Silva, Pixinguinha, BeneditoLacerda. Todos os gêneros que você possa imaginar, temos ali, até uma schutzalemã de Patápio Silva, uma coisa linda, e partitas de Bach, aquela com o fundode um bando de andorinhas voando. Fica muito bonito, toquei 16 compassos só coma flauta, sem acompanhamento, e no 17º compasso entra a orquestra, com violino,violão, cavaquinho, tocando uma sonata de Bach em ritmo de chorinho”. 

Os detalhes das explicações deAltamiro podem ser dirigidos aos iniciados em teoria musical, mas estão longe deser uma demonstração de soberba, pelo contrário. Ele tenta explicar aquilo queconsegue imaginar e criar. “Essa coisa toda causa espanto à maioria do pessoal,porque ninguém entende essas idéias. E o negócio é você executar. Tem uma idéiaboa, põe pra funcionar, senão ninguém vai saber, né?””, resume.

Na história da músicabrasileira dos anos 1930 para cá, Altamiro Carrilho esteve presente e tocou com nossos mais importantes músicos e cantores, sem falar nos seus mais de 100 discos gravados e cerca de 200 composições, o que não épouco. Essa homenagem, como ele mesmo diz, dá “um gostinho de queromais”. 

 

> Confira o site de AltamiroCarrilho e do projeto A fala da flauta

> Altamiro Carrilho na Saraiva.com.br 

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# Mais Altamiro Carrilho


> Assista trechos da caixa
A fala da flauta, que reverencia o mestre Altamiro Carrilho 

 

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