Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 17.08.2011 17.08.2011

Nos labirintos na cidade

Por Andréia Silva
 
Ruas, vielas, becos e condomínios. É por esses caminhos estreitos, muitas vezes verdadeiros labirintos que as vidas de dois garotos de rua (um viciado em drogas e o outro ladrão de carros), uma garota de programa e uma vendedora ambulante de DVDs piratas vão se cruzar.
 
Não é coincidência que todos eles sejam tipos à margem da sociedade. O autor, o ilustrador Marcelo D’Salete, aprendeu há muito tempo a observar essas pessoas, desde pequeno, nos cantos e esquinas do bairro Artur Alvim, na zona lesta de São Paulo. Agora, D’Salete faz deles seus protagonistas em Encruzilhadas (Editora LeYa), seu mais novo trabalho.
 
“Minhas histórias são fruto da observação de fatos, conversas e cenas que vejo por São Paulo. No álbum Encruzilhada trabalhei com esse mesmo método. Um camelô na rua em busca de troco, um caso de discriminação no supermercado, um garoto de rua a procura de agasalho”, diz D’Salete.
 
Ao autor questiona o que é estar à margem, e compara essa classificação como algo que é uma exceção à regra. Nesse caso, alguns milhões de exceções.
 
“Considero que essa é uma realidade muito presente para pessoas de várias condições sociais numa grande cidade. De certo modo, a cidade aproxima essas distâncias e disparidades. Esse não é um tema muito frequente nos quadrinhos. Procurei evidenciar esse universo, explorando também as possibilidades narrativas próprias dos quadrinhos”, conta.
 
 
O trabalho foi longo. O álbum levou três anos para ficar pronto. Além das histórias de cada um dos personagens, a cidade de São Paulo tem papel central na trama, com suas vielas, sombras bem marcadas no traço de D’Salete.
 
“O tema principal é a cidade, mas dentro disso, procuro abordar elementos que são próprios de nossa sociedade moderna de consumo: carro, celulares, marcas etc. Assim como no primeiro livro, em Encruzilhada enfatizo especial atenção à imagem. Ela fornece as chaves para compreensão dos fatos e da história”, diz.
 
Dos cindo personagens, apenas um foi adaptado. A inspiração veio de um conto do músico Kiko Dinucci, Cama Morta, que mostra a relação entre uma garota de programa e seu vizinho. Outra “participação especial” no álbum é a de Marcelo Yuka, que assina o prefácio.
Curiosamente, o traço de D’Salete é leve e contrasta com o caos urbano, o ritmo da cidade. Já ele, diz que ainda está no caminho do traço que pretende alcançar.
 
 
”O meu traço é a concretização de uma experiência pessoal de desenho. Além de fazer quadrinhos, sempre apreciei desenhos de observação. Fiz muito disso observando locais de São Paulo. Em Encruzilhada pude cruzar esse prazer de desenhar com narrativas sobre a própria cidade. Acho que estou chegando perto do que mais gosto de fazer”. 
 
Comparado ao trabalho anterior, Noite Luz, D’Salete diz que o primeiro foi feito de histórias trabalhadas pouco a pouco, enquanto que em Encruzilhadas, “as histórias têm mais unidade” O que ambas têm em comum é a necessidade de D’Salete contar histórias, como um cronista atento às cenas que poucos vêem pelos cantos da cidade.
 
 
Recomendamos para você