Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 24.02.2012 24.02.2012

Nos bastidores de Hollywood

Por André Bernardo
Na foto, Rubens Ewald Filho
 
No próximo domingo, cinéfilos do mundo inteiro vão assistir à 84ª cerimônia de entrega do Oscar.
 
Pelo tapete vermelho do Teatro Kodak, em Los Angeles, vão desfilar alguns dos mais famosos astros e estrelas de Hollywood, como o diretor Martin Scorsese, o ator Brad Pitt e a atriz Meryl Streep, todos eles fortes candidatos a voltar para casa com a cobiçada estatueta debaixo do braço.
 
Para a grande maioria dos mortais, vê-los de perto, cara a cara, é um sonho distante, quase impossível.
 
Mas, para um seleto grupo de jornalistas brasileiros, que trabalha em Los Angeles, a Meca do cinema mundial, bater um papo com George Clooney, Julia Roberts e Bruce Willis, mesmo que por alguns minutos, não é algo tão incomum.
 
 
Afinal, eles vivem de frequentar mostras e festivais, assistir a avant-premières e entrevistar astros e estrelas de Hollywood.
 
O jornalista, crítico de cinema e comentarista oficial da TNT nas transmissões do Oscar, Rubens Ewald Filho, é o mais experiente deles.
 
Ao longo de mais de 40 anos, conta que Victoria Abril já fumou maconha na sua frente, Sharon Stone interrompeu a entrevista para fazer xixi e Russell Crowe, de tão nervoso que fica, costuma suar em bicas.
 
Mas nada que se compare a entrevistar alguns de seus ídolos de infância, como as atrizes Debbie Reynolds, Jean Simmons e Janet Leigh, em suas casas. “Quanto mais íntimo e pessoal, melhor”, brinca.
 
Até hoje, Rubens não se esquece do dia em que sabatinou Liv Ullmann, a musa de Ingmar Bergman. Como tinha acabado de entrevistá-la no Brasil, pediu desculpas caso repetisse alguma pergunta. Na mesma hora, ela abriu um sorriso e brincou: “Imagina, a gente fica flertando durante a entrevista”. “Por pouco, não desmaiei…”, exagera.
 
Todo jornalista que cobre cinema tem uma entrevista que considera a sua favorita. A de Ana Maria Bahiana, por exemplo, é a do cineasta Robert Altman, falecido em 2006. “Além de ser um diretor que admiro muitíssimo, ele sempre foi avesso a entrevistas. Comigo, ele foi maravilhoso”, derrama-se.
 
Já Mariane Morisawa cita uma que fez com Angelina Jolie. “Por duas vezes, ela chorou ao se lembrar da mãe (a atriz Marcheline Bertrand, que morreu de câncer em 2007, aos 56 anos), mostrando que é uma pessoa de verdade, coisa que boa parte dos astros de Hollywood se recusa a admitir”, explica.
 
Para Maria Cândida, nenhuma outra supera a exclusiva que fez com Christopher Reeve, já tetraplégico após sofrer um acidente de cavalo, para o SBT.
 
“Quando perguntei do que mais sentia saudade, ele respondeu que era de dar um abraço no filho, Will. Fiquei comovida”, recorda.
 
A jornalista Maria Candida e a atriz Emma Watson
 
Repórter do Cineview, do Telecine, por quase 10 anos, Renata Boldrini também tem bastante história para contar. Uma das mais divertidas é a do dia em que entrevistou parte do elenco masculino de Onze Homens e Um Segredo, de Steven Soderbergh.
 
Lá pelas tantas, ela não resistiu e contou a George Clooney e Brad Pitt que fazia aniversário naquele dia. Na mesma hora, os dois começaram a cantar “Parabéns pra Você”.
 
“O pessoal mexe comigo dizendo que o Clooney me passou uma cantada só porque perguntou a minha idade”, encabula-se. Bem, encabulada mesmo Renata ficou ao entrevistar Billy Bob Thornton.
 
Num raro momento de ingenuidade, caiu na besteira de perguntar ao ex de Angelina Jolie o que ele mais gosta de fazer quando não está filmando. Sem papas na língua, o ator disparou: “Sexo!”. “Puxa, você não imagina o quanto fiquei sem graça”, admite.
 
Manual de sobrevivência
Mas a vida de setorista de cinema em Los Angeles não é tão glamourosa quanto parece. Na maioria das vezes, os jornalistas dispõem de apenas quatro minutos para entrevistar um astro ou estrela de Hollywood.
 
Alguns deles, como o diretor Quentin Tarantino, até ajudam. “Ele respondeu depressa a todas as minhas perguntas para que a entrevista rendesse bastante”, elogia Renata. Mas nem todos são assim. Alguns deles, como Keanu Reeves, Colin Farrell e Mel Gibson, não colaboram tanto.
 
Para Moisés Liporage, atual repórter do Telecine, nenhuma entrevista foi tão decepcionante quanto a do ator Adam Sandler. “Ele não olha nos olhos quando fala e, pior de tudo, é monossilábico em suas respostas. Sei que comediantes costumam ser pessoas retraídas, mal humoradas até, mas confesso que esperava um pouco mais dele”, desabafa.
 
Para evitar contratempos como os descritos acima, Renata Boldrini lança mão, sempre que necessário, de um artifício que considera infalível: dizer que é do Brasil… “Sempre notei uma receptividade muito legal ao fato de eu ser brasileira. De modo geral, o pessoal lá fora guarda referências positivas do nosso país, como o jogador Ronaldo, o Fenômeno, da Seleção Brasileira, e o filme Cidade de Deus, do Fernando Meirelles”, exemplifica.
 
Renata Boldrini com Jim Carrey após entrevista
 
Foi assim que ela conseguiu uma exclusiva com a atriz Monica Bellucci, no Festival de Cannes. Alegando mal-estar, a atriz francesa já tinha dado por encerrada uma série de entrevistas quando Renata, uma das próximas da fila, pediu que ela reconsiderasse a decisão. “Quando Monica soube que eu era brasileira, topou conceder a entrevista”, respira Renata, aliviada.
 
A entrevista dos sonhos
Sim, entrevistar astros e estrelas de Hollywood é bom. Mas bater papo com os homens por trás da câmera é ainda melhor. Essa é a conclusão a que chegamos após perguntar sobre qual seria a entrevista dos sonhos dos correspondentes estrangeiros.
 
Maria Cândida escolhe os diretores Martin Scorsese, Woody Allen e Oliver Stone. Mariane Morisawa sonha com o dia em que vai estar frente a frente com Martin Scorsese, Clint Eastwood e Pedro Almodovar.
 
Já Fábio Barreto elege George Lucas, Martin Scorsese e Steven Spielberg. “Bem, digamos que esses três tenham mudado a minha vida com os seus filmes. Por isso, não posso pensar numa razão melhor para querer entrevistá-los”, explica o editor da revista “Sci-Fi News”. Ao que parece, Martin Scorsese, que concorre este ano à estatueta de melhor filme e diretor por A Invenção de Hugo Cabret, é uma unanimidade.
 
Ex-editor da revista SET, Roberto Sadovski já teve a oportunidade de entrevistar o diretor de Taxi Driver, Cabo do Medo e Os Infiltrados, entre outros. E pode garantir: foi inesquecível.
 
“O bom de trabalhar em Hollywood é conversar com gente que faz. No caso do Scorsese, a entrevista rendeu um papo delicioso sobre paixão”, recorda.
 
Mas tão difícil quanto saber quem será o ganhador do Oscar neste domingo é prever como será uma entrevista com alguma celebridade de Hollywood. Na dúvida, Rubens Ewald Filho dá algumas dicas: entrevistar diretores é uma delas.
 
“Em geral, atores são superficiais e vaidosos. Os diretores, ao contrário, têm o que dizer”, compara.
 
Outra sugestão: dar preferência aos europeus. “Salvo raríssimas exceções, os americanos só concedem entrevista por exigência contratual. Se pudessem, estariam em outro lugar, bem longe dali”, entrega.
 
E cita como exemplo mais que perfeito a francesa Emmanuelle Béart. “Ela é tudo o que se espera de uma grande estrela: linda, inteligente e culta”, enaltece. Palavra de quem entende do assunto.
 
 
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