Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.06.2013 17.06.2013

Nem só de encantos vivem as princesas

Por Marcelo Rafael
 
“E viveram felizes para sempre” costuma encerrar a maioria dos contos de fadas envolvendo princesas. Na vida real, no entanto, com a decadência das grandes monarquias no final do século XIX, nem tudo foi felicidade para a realeza.
Ideais de riqueza e vida fácil, histórias românticas de amor e os contos infantis ajudaram a criar uma aura mágica em torno das filhas dos soberanos. E essa imagem sedutora se propaga século XXI adentro por meio de produtos como a linha Princesas, da Disney, ou obras como O Livro das Princesas, escrito pelas badaladas autoras juvenis (nacionais e estrangeiras) Paula Pimenta, Patrícia Barboza, Lauren Kate e Meg Cabot.
“Acho que desde cedo [as crianças], sobretudo as meninas, continuam a ouvir muitos contos de fadas e crescem acreditando que vai mesmo aparecer um príncipe num cavalo branco para resgatá-las”, conta escritora e jornalista anglo-portuguesa Isabel Stilwell.
Autora de cinco livros sobre monarcas europeias, Isabel teve a versão brasileira de Maria da Glória publicada em 2012 no Brasil pela editora Octavo.
A perfeição e quase sacralidade da ficção parecem se transferir, em alguns casos, para a vida real, como os casos das modernas Lady Di e Kate Middleton.
Por enquanto, Kate sequer leva o título real. De origem plebeia, ela apenas se converterá em princesa quando (e se) o Príncipe Charles assumir o trono. Por ora, ela é "apenas" Sua Alteza Real Duquesa de Cambridge, Condessa Strathearn e Lady Carrickfergus.
 
                                        Crédito/O Castelo de Papel
Os jovens noivos: Princesa Isabel e Conde D’Eu
 
Isabel lembra que o fascínio da realeza sobre o público também é exercido, atualmente, pelas celebridades. “Contribui para isso o fato de essas pessoas aparecerem sempre tão bonitas, tão bem vestidas, tão sorridentes, como se, ao contrário dos ‘mortais comuns’, não tivessem papos nos olhos, rugas, desgostos e as ingratas tarefas de levar sacolas do supermercado para casa ou aturar o chefe”, diz.
O COMEÇO DO FIM
Para muitas princesas, o casamento era apenas o início do sofrimento. No caso da imperatriz D. Teresa Cristina, conta-se que D. Pedro II caiu aos prantos ao vê-la no desembarque na Baía de Guanabara: a pintura idealizada recebida pelo imperador nada tinha a ver com a mulher coxa e acima do peso que se apresentava.
Já Leopoldina, arquiduquesa da Áustria e irmã da esposa de Napoleão Bonaparte, havia deixado a Europa e sido recepcionada na mesma Baía de Guanabara, décadas antes, em 1817, para casar com D. Pedro I.
A pompa e a circunstância da recepção que nosso pobre Império podia dar estampam a capa de Coroadas em Terras Distantes, da Ambientes & Costumes Editora.
O livro traz imagens e detalhes de outras sete soberanas além de Leopoldina. A obra é escrita por ninguém menos que outra princesa, Sua Alteza Real Marie-Christine, esposa do príncipe inglês Michael de Kent.
CARIOCA DA GEMA
D. Maria da Glória, filha de D. Pedro I, foi a primeira princesa nascida em terras tupiniquins. A obra de peso de Stilwell (683 páginas) romanceia a vida pessoal e as tramas políticas da princesa nascida no Rio de Janeiro com retratos, iconografias da época. Fotos pessoais da autora mostram o Palácio São Cristóvão e a Igreja de Nossa Senhora da Glória, que originou o nome da soberana.
Pouco conhecida entre nós, D. Maria da Glória tornou-se D. Maria II, rainha de Portugal. “Ela nos trouxe do Brasil as plantas, os costumes, a afabilidade e a proximidade com os filhos, tornando muito mais rica não só a nossa paisagem, como as nossas vidas. Os portugueses ficam muito gratos que tenha sido a única rainha europeia a nascer e crescer fora da Europa. E, melhor ainda, no Brasil”, afirma Isabel.
D. Maria deixou nossas terras ainda criança e também teve um casamento desafortunado com o tio, D. Miguel. “Ela foi um pouco joguete (político) entre os irmãos D. Pedro I e D. Miguel", conta a escritora e historiadora Mary del Priore.
“Ela era uma menina muito bonita, misturando os traços da mãe Leopoldina com a fisionomia do pai”, diz. “Mas ela se casa, tem muitos filhos – uma família enorme – e se torna uma mulher imensa, mas adorada pelos portugueses. Ela assegurou um prolongamento dos Bragança no trono”, completa.
A PRINCESA POBRE
Recentemente, Mary lançou O Castelo de Papel, em que narra a vida particular daquela que entrou para a História como a redentora dos escravos ao assinar a Lei Áurea, há exatos 125 anos: Isabel, nossa princesa mais famosa.
“Achei por bem fazer uma biografia dela entrelaçada ao marido, que, aliás, é uma figura bem mais interessante, embora ambos tenham tido educação de príncipes pobres”, conta. Ele era o “filho do filho pobre do rei”, e ela era a princesa de um império pobre com o terrível estigma de “grande fazenda escravista”, segundo a autora.
“Quando Isabel vai para a Europa, ela tem que conviver com palácios decorados, pinturas renascentistas, baixelas de ouro, pajens à maneira do Antigo Regime. Nada disso era possível no orçamento familiar deles”, conta.
 
                      Crédito/O Castelo de Papel
Isabel e aquele que seria o herdeiro do trono: o Príncipe do Grão-Pará
Enquanto a aristocracia criava e ditava as regras de novos modos de lazer – os esportes, o banho de mar, o turismo de luxo –, a nossa monarquia precisava fechar as contas, de acordo com Mary. “Era uma monarquia sem charme. Viviam isolados entre Petrópolis e o Palácio das Laranjeiras (na cidade do Rio de Janeiro)”.
Independente da fortuna, as princesas continuam a encantar. Além de todo o fascínio, Mary acrescenta outra virtude inerente e que as envolve até hoje: a estabilidade. Em um mundo em permanente alteração e lutas sociais, a monarquia torna-se mais atraente.
“Desde o séc. XIX, as mudanças se aceleraram barbaramente. A começar pela queda das monarquias e suas substituições por repúblicas em toda a Europa e, depois, no Brasil”, afirma Mary, finalizando: “Chovesse ou fizesse sol, o rei estava ali”.
 
 
 
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