Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.01.2010 21.01.2010

Nelson Motta volta à ficção depois da biografia de Tim Maia

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva com Nelson Motta no SaraivaConteúdo 


“Seu Nelson Motta deu a nota que hoje o som é rock and roll”  João Nogueira 

Jornalista, produtor, escritor,compositor, apresentado de programa de rádio, colunista na TV. Nelson Mottaestá háalgumas décadas no cenário cultural brasileiro, sempre presenciando ouparticipando ativamente de momentos importantes desde a segunda metade do séculopassado. Esteve nas rodas de violão onde a bossa nova era gestada, no hojeclássico apartamento de Nara e Danuza Leão, produziu Elis Regina, foi grandeamigo de Tim Maia, criou As Frenéticas, descobriu Marisa Monte cantando em umbarzinho em Roma, produziu Fernanda Takai, figura que compara a Nara Leão,mantém o programa radiofônico “Sintonia Fina”, transmitido em oito estados paísafora. Escreveu e escreve colunas para diversos jornais do país, além dos quatorzelivros publicados, entre contos, romances, crônicas, um sobre o seu time, oFluminense, além das memórias musicais, em Noitestropicais e da biografia do irascível Tim Maia, talvez seu melhor trabalho.Goste-se ou não dele, é fato a sua importância na nossa história musical, tantoque o grande sambista João Nogueira cita Nelson de maneira bem humorada em “Baile no Elite”, música que homenageia a Gafieira Elite, no centro do Riode Janeiro, local por onde passou boa parte da história do samba e da gafieiracariocas. 

 

No final de 2009, Nelson Mottalançou novo livro. Força estranha (Sumadas Letras/Objetiva) reúne dez histórias, aparentemente desconexas, mas que nas duasúltimas é possível estabelecer a relação entre elas. O título é inspirado nacanção homônima de Caetano Veloso, imortalizada por Gal Costa e RobertoCarlos. “As oito primeiras histórias se passam emlugares diferentes, com personagens e épocas diferentes. Aparentemente, não temnada a ver uma com a outra. Porém, na nona história se vê que algunspersonagens têm alguma ligação muito próxima entre eles. E, finalmente, naúltima história, se revela o mistério de como todas aquelas histórias,personagens e locais diferentes estão ligadas, e como tudo aquilo é uma coisasó”, afirma Motta nessa entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. Segundo o escritor, “as forças que movem a vida sãomuito mais estranhas do que parecem”, e este é o mote dos personagens do livro,em que cada história se desenrola em cenários e épocas diferentes, como aorla da Zona Sul do Rio de Janeiro, entre as décadas de 1960 e de 1980, osterreiros de Salvador, a paradisíaca Boipeba, os quartinhos freqüentados pelospoderosos em Brasília, Buenos Aires na época da ditadura militar, além de NovaYork, Espanha e a swinging London dos anos 1960. 

“Fiquei contente com essavirada que consegui dar. Foi estranho o jeito que escrevi esse livro, porquedepois do Tim Maia, queria fazer uma ficção, mas como inventar um personagemmelhor que Tim Maia? Mais divertido, mais louco, um personagem maior que o Timem todos os sentidos. Impossível”, admite. 

Foi aí que partiu para outroformato, com personagens menores, mas em número maior. “Fiquei um ano semescrever nada, foi uma tela em branco total, porque estava com o Tim Maiaencostado em mim, não é mole, 140 quilos. Não conseguia. Em primeiro de janeiro[de 2009] fui para Salvador, meu segundo lar. Lá rolam forças estranhas, todosos meus livros escrevo uma boa parte lá. Vou inclusive começar meu próximo livrolá. E tive um surto de escrita, comecei a escrever tudo o que não haviaconseguido no ano inteiro e fiz muito rapidamente, em um mês e meio escrevi 300páginas, umas 20 histórias. Depois selecionei as melhores, e foi um trabalhobraçal de edição, finalização, que levou mais, três quatro meses. Gosto deficar bordando o texto. Drummond dizia que ‘escrever é cortar palavras’. Eusempre me lembro do poeta nessas horas”, conta Motta.

Sobre o pânico da tela em branco,o escritor afirma que não é uma regra, mas acontece: “Alguns livros foram bemsofridos e outros, puro prazer. A biografia de Tim Maia, por exemplo, Vale tudo (Objetiva) foi muitotrabalhoso, um livro de 400 páginas, mas foi tão prazeroso escrever, ria tantoescrevendo sozinho, que teria feito de graça. Agora, esse novo, Força estranha, é a primeira experiêncianesse formato mais compacto. São dez histórias de, mais ou menos, 15 páginascada. É mais uma sintonia com textos de internet, coisas mais curtas, mashistórias completas. Eu não queira fazer um livro de contos só, queria algo amais”. 

Quem comparece no livro é oescritor Marçal Aquino, um dos grandes de sua geração, e que atua também comoroteiristas nos filmes de Beto Brant, como Osmatadores, Ação entre amigos e Oinvasor. “Talvez seja o meu escritor favorito dessa geração brasileira. Amotodos os livros dele, especialmente Cabeçaa prêmio, Famílias terrivelmentefelizes, Faroeste. Então eu cito o Marçal nessa última história, ‘Conversasroubadas’, onde dois escritores em um bar estão ouvindo a conversa na mesa aolado e vão roubar aquelas histórias para seus livros. E o Marçal faz isso,entra em ônibus, fica ouvindo as histórias. Ele adora sala de espera, e nãoresiste a uma briga de casal. Se a briga for boa, ele vai atrás na rua.Homenageei o Marçal nessa história dos ladrões de conversa”, revela Motta. 

Sobre as forças estranhas queseguem o escritor e nomeiam o livro, é algo em que ele crê, mais do que na inspiração.“Nunca me preocupei quem é que está me dando um recado, uma mãozinha, não meinteresssa, desde que venha, é bem vindo. Muitas vezes tenho essa sensação deque não estou fazendo aquilo sozinho.” Quando escrevia a biografia de Tim Maia aconteceuuma situação engraçada. “Tinha acabado de escrever o livro, aqui mesmo, nessavaranda da minha casa [em Ipanema, no Rio de Janeiro], estava mexendo narevisão final, quando entrou um passarinho, gordo, desse tamanho. Já acheiestranho, ele mal andava aí na varanda. Fiquei apavorado, tenho gatos em casa,são vegetarianos, mas… Aí voou e ficou pendurado em cima do quadro, veio,andou por aqui, abri a porta e ele foi embora. Interpretei como uma aprovaçãoem pessoa do Tim Maia ao livro”, acredita ele. Aprovado pelo própriobiografado, era tudo que ele podia querer. E desse livro, mesmo Tim Maiagostaria, já que Motta vai a fundo nos casos e causos deste que foi um dosgrandes músicos brasileiros, talvez o melhor que conseguiu fazer aqui a soulmusic com balanço nativo.
 

> Leia uma história de Forçaestranha, “O puloda gata” 

> Confira o site oficial de Nelson Motta, “Sintonia Fina” 

> Assista à suacoluna musical no Jornal da Globo 

>Nelson Motta na Saraiva.com.br 

> Assista à entrevista exclusiva com Nelson Motta no SaraivaConteúdo




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