Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 12.08.2011 12.08.2011

Nelson Motta homenageia o “síndico” Tim Maia com musical no Rio

Por Cintia Lopes
Na foto ao lado, Nelson Motta Crédito da foto: divulgação/ Objetiva 
 
Não seria exagero dizer que Nelson Motta é uma espécie de Forrest Gump da MPB. Aos 66 anos, o jornalista, escritor, compositor, produtor musical e diretor acompanhou de perto e participou de grandes momentos da história da música como a Tropicália, a Bossa Nova e tantos outros. Mas como um bom contador e ouvinte de histórias, Nelson talvez tenha encontrado em Tim Maia o melhor dos personagens da vida real. Depois de escrever a bem-sucedida biografia Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia, da editora Objetiva, lançada em 2007, ele agora comemora o sucesso da estreia de Tim Maia – O Musical, do qual assina o texto, em cartaz no teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro.
Para alguém que afirma não ter muita afinidade com musicais, a imersão no gênero através da direção de João Fonseca, foi um acerto. Tanto que o musical já é apontado como o destaque da temporada. Mas em se tratando de Tim Maia tudo é imprevisível. Até mesmo quando o assunto é a seleção do protagonista. Depois de ser avisado por Fonseca de que o escolhido para interpretar o síndico era Tiago Abravanel, neto de Silvio Santos, Nelson ficou surpreso. “Pensei que ele estava doidão contagiado pelo espírito Maia”, recorda.
Mas bastou acompanhar os primeiros ensaios para mudar de opinião. “Quando vi o moleque achei parecidíssimo com o Tim. E depois que ele abriu a boca e cantou foi um susto maior ainda”. Para Nelson, difícil mesmo foi selecionar as melhores histórias e causos do livro de 400 páginas para incluir no musical. “As loucuras são tantas que tivemos que ficar só com o melhor… o melhor do pior”, explica, aos risos.
 
Capa do livro Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia  Crédito: divulgação/Objetiva
Como é adaptar e transportar para um espetáculo um livro de 400 páginas como o Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia ?
 
Nelson Motta. Bem difícil selecionar entre o melhor e o necessário para narrar a história. São tantas músicas que não podiam deixar de entrar, assim como os causos, piadas e esquetes cômicos do Tim. Vários momentos do musical foram transcrições literais do livro que o João Fonseca resolveu encenar.
 
Qual a diferença entre escrever uma biografia e o mesmo texto para o teatro?
 
Nelson Motta. No musical é fantasia, encenação, truques e ilusões, suspensão da descrença, entrega à música e a comédia, uma outra sintaxe. É completamente diferente de uma biografia, que é literatura, jornalismo. 
O processo de pesquisa foi facilitado em função da biografia que você escreveu. Como foi realizada a seleção das cenas?
 
Nelson Motta. Guiado pela experiência, pela intuição, mas principalmente, vamos ser sinceros, pelo gosto pessoal. O problema é que eu gosto de quase tudo do Tim. O João Fonseca também ajudou na escolha pelas possibilidades cênicas da história, das ações dos personagens, dos números musicais. Principalmente porque nos musicais as letras das músicas funcionam como narrativa da história.

Quando você escreveu o livro certamente já imaginava que renderia frutos. Como surgiu a ideia de transformá-lo em musical para o teatro?

 
Nelson Motta. Era impossível não pensar em cinema… Em teatro nunca havia imaginado essa possibilidade, simplesmente porque não sou do ramo. Não conheço musicais, não tinha vontade de fazer um musical de teatro. Foi uma ideia do Sandro Chaim, que comprou os direitos do livro, e chamou o João (Fonseca) para dirigir. Mas adaptar para o cinema, tudo em 90 minutos, deve ter sido mais difícil para a Antonia Pellegrino (roteirista da cinebiografia sobre Tim Maia que estreia em 2012).
 
Mesmo morando por tantos anos em Nova York não costumava assistir à musicais da Broadway?
 
Nelson Motta. Nunca fui chegado. Como linguagem, gosto mais de cinema. Todo o tempo em que morei em Nova York fui pouquíssimas vezes a musicais da Broadway… tipo só para levar as filhas para ver o inevitável Cats, que achei chatíssimo. Evita até é melhorzinho. Mas agora aprendi muito com o João Fonseca e quem sabe não tomo gosto?
 
Nelson Motta e Tim Maia em Nova York.  Crédito da foto: arquivo pessoal/divulgação
 
Como você costuma dizer, Tim Maia é sinônimo de  polêmica e não seria diferente mesmo depois de morto. Qual foi a maior loucura ou o caso mais sensacional que você presenciou?
 

Nelson Motta. O mais sensacional foi ouvi-lo conhecendo e cantando These Are the Songs junto com Elis Regina no estúdio em 1969. As loucuras são incontáveis… minha frase favorita dele é "não fumo, não cheiro e não bebo, mas às vezes minto um pouquinho". (risos). Ele é autor de muitas outras pérolas sensacionais.

 
Quais passagens do livro não podiam ficar de fora e que você fez questão de incluir no musical?
 

Nelson Motta. As músicas mais importantes dele, os maiores sucessos, estão todas lá como Vale tudo, Não Quero Dinheiro, Azul da Cor do Mar, Sossego, Descobridor dos Sete Mares, entre outros. Mas estas não poderiam faltar. Já os causos e histórias e loucuras são tantos que tivemos que ficar só com o melhor… o melhor do pior. (risos).

Como foi o processo de seleção de elenco? Você participou de alguma etapa?

Nelson Motta. Não, foi uma surpresa total quando o João Fonseca me disse que tinha escolhido o Tiago Abravanel, neto do Silvio Santos. Pensei que ele estava doidão contagiado pelo espírito Maia (risos). Mas quando vi o moleque achei parecidíssimo com o Tim quando o conheci, com 26 anos, em 1969. E depois que ele abriu a boca e cantou foi um susto maior ainda. O garoto canta muito, tem técnica, recursos, interpretação. É um grande ator de musicais, completo. Não é um clone nem uma imitação… é uma interpretação perfeita de um personagem inimitável. O Tiago também tem muito talento para a comédia, pegou as expressões, as malandragens, a linguagem do Tim.

O Ruy Castro costuma dizer que o melhor personagem para ser biografado é o sujeito que está morto e sem herdeiros. No caso do Tim, para fazer tanto o livro quanto a peça, foi necessária a aprovação da família? Como você lida com a essa censura prévia?
 
Nelson Motta. Sim, foi necessária a aprovação da família já que existiam herdeiros. No caso do Tim o processo foi um pouco mais longo por problemas judiciais e conflito entre herdeiros que disputavam o espólio dele. Primeiro era preciso que a Justiça definisse quem era  herdeiro. Quando decidiu que era o Carmelo Maia foi rápido. Uma simples negociação comercial de direitos, com royalties e um adiantamento. Mas sem interferência no texto. Carmelo me conhece há muitos anos. Sabia que eu amava e admirava Tim e que eu desfrutava do respeito de seu pai, sabia que eu jamais trairia a sua memória.

Existem outros projetos envolvendo a adaptação do seu livro como a cinebiografia em que o Duani (vocalista da Orquestra Imperial) vai interpretar Tim. O que você pode nos falar também sobre o longa do Mauro Lima?

 

Nelson Motta. Sinceramente, não tenho ideia. Só vendi os direitos do livro e vou ver na tela. Mas levo fé, porque a roteirista é a Antonia Pellegrino e o Mauro Lima é excelente. Depois do treinamento com Meu Nome Não é Johnny está bem no clima Tim Maia. Quem sabe até o Johnny não vendeu pó para o Tim? (risos)

Em virtude da patrulha do politicamente correto são poucos os artistas que falam o que realmente pensam, criam polêmicas e chutam o “balde”. É difícil surgir um novo Tim? Qual a característica que você mais admirava no "síndico"?
 
Nelson Motta. Tim era único, insubstituível. A rapidez, a inteligência, o humor, a independência, o jeito carinhoso… sim, às vezes ele era ‘muito’!… e a imprevisibilidade e o talento, naturalmente.
 
Qual a sua análise  sobre o atual cenário da MPB. Destacaria o trabalho de algum artista ou grupo?
 
Nelson Motta. Adoro o tecnobrega, sou fã da Gaby Amarantos, que vem aí com um disco novo sensacional. Também gosto da Lia Sophia, do Felipe Cordeiro, da Gang do Eletro… Esse pessoal de Belém é sensacional. É a cena musical mais vibrante do Brasil atualmente.

Você está envolvido em vários projetos ainda para este ano na área da literetura, tevê, cinema…

 
Nelson Motta. É verdade. O lançamento do livro A Primavera do Dragão (sobre o cineasta Glauber Rocha) será em outubro. A minissérie com o Euclydes Marinho, Guilherme Fiuza e Denise Bandeira, O Brado Retumbante, é sobre um presidente da república fictício num país real. Começa a ser gravada em outubro e estreia na Globo em janeiro de 2012, com direção do Ricardo Waddington. Também estou envolvido com o roteiro de Minha Hora é Agora sobre o Marcelo D2 e o Planet Hemp.
 
Como é a sua rotina de trabalho? Você dorme em algum momento?
 
Nelson Motta. Não sou muito de sair.  Acordo muito cedo, dou uma caminhada anônima de uma hora pelo calçadão de Ipanema, e começo a trabalhar cedo em meu laptop de frente pro mar e vou até escurecer. Depois só quero relaxar, ver novela, ler um romance, gosto disso.
 
 
 
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