Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 19.06.2012 19.06.2012

“Não basta ler, tem que jogar”, avisa Joca Terron sobre seu novo livro

Por Carol Cunha
 
 
 
Os últimos anos têm sido produtivos para o escritor Joca Reiners Terron, 44 anos. Depois dos premiados romances Do Fundo do Poço Se Vê a Lua (2010) e Não há nada lá (2011), o autor mato-grossense acaba de lançar uma de suas obras mais experimentais, o Guia de Ruas Sem Saída.
 
O livro combina texto e imagem em sua narrativa. Fã de graphic novels, Joca, que tem formação em design gráfico, cogitou ele mesmo fazer os desenhos, mas percebeu o tamanho da empreitada e convidou o artista curitibano André Ducci para criar a arte de 135 páginas inteiras, quadrinhos silenciosos que não apenas ilustram, mas ampliam a narração da história.
 
A trama traz dois personagens que não se conhecem. O primeiro é um ex-cartunista que inventou um herói de quadrinhos de sucesso, o Homem-Escada. Ele está perdendo a memória e expele chips eletrônicos. O outro é um homem que viaja para o exterior em busca de um transplante de fígado. Em comum, os dois vivem um processo de desintegração do corpo humano e de suas vidas.
 
Além do formato inusitado da publicação, a prosa de Joca Terron acompanha o processo de ruptura dos personagens com uma escrita rápida, escatológica e fragmentada, que não faz distinção entre memória, realidade e imaginação. Um caminho que o leitor não percorre com facilidade.
 
Publicado pelo selo independente Edith, a ideia do livro foi amadurecida ao longo de dez anos. O pontapé para o projeto veio em 2008, quando Joca ganhou uma bolsa de criação literária da Petrobras. 
 
Em entrevista ao SaraivaConteúdo, o escritor fala sobre a obra e também sobre a experiência como dramaturgo. Ele assina a dramaturgia da peça Bom Retiro 958 metros, a nova criação do Teatro da Vertigem, que estreia em junho deste ano em São Paulo.
 
O livro mistura diferentes linguagens. Você concebeu a ideia dele já nesse formato?
Joca Terron. Desde o surgimento eu pretendia misturar linguagens, mas ao longo da composição esse desejo virou necessidade. Na medida em que percebi que não conseguiria fazer tantos desenhos — acabei planejando mais desenhos do que deveria —, caiu a ficha e convidei o André Ducci para colaborar.

A narrativa não segue aquela lógica “certinha” da linearidade; o leitor tem que ser mais esperto e fazer as conexões das histórias. Como você vê essa “sensação”?
Joca Terron. Tenho a impressão de que este é um livro para ser lido mais de uma vez, e a cada leitura novas compreensões poderão surgir. É uma história que vem desmontada, assim como os personagens, e que só o leitor pode montar na cabeça. Também não tenho certeza se a narrativa está completa, e pode ser que numa versão futura ela surja completamente diferente, com novos trechos ou capítulos inéditos.
 
As imagens no livro têm um tom emotivo poderoso. Como você as pensou dentro do contexto dos personagens e como elas potencializam a narrativa?
Joca Terron. As imagens foram pensadas para remeter às narrativas visuais de alguns artistas gráficos pioneiros no assunto, como Frans Masereel e Otto Nückel, que apresentei ao Ducci como referências. Esses artistas produziram narrativas sem palavras entre os anos 20 e 40 do século passado. A linguagem deles se baseava na xilogravura e era influenciada pelo cinema mudo, principalmente filmes expressionistas alemães. Daí haver essa carga melodramática no livro. O método de leitura que potencializa a narrativa da obra exige um tipo de leitor participativo, que não se furte a contribuir com sua montagem e interpretação do enredo. Não basta ler, tem que jogar.
 
O fez você escolher o Ducci para ilustrar esse projeto?
 
Joca Terron. Eu vinha acompanhando a evolução do traço do Ducci, que saiu de uma linguagem bastante influenciada pelo Mike Mignola, o criador de "Hellboy", para uma coisa bastante pessoal. O Ducci conseguiu o feito de criar um estilo arte-finalizado digitalmente que parece o contrário, lembra gravura tradicional, e a conformação quase geométrica que ele dá aos personagens sem, com isto, diminuir a carga humana.
 
A questão corporal está muito presente na obra. O corpo e suas vísceras são parte do diálogo dos dois personagens, causando uma certa “náusea”. Qual efeito você buscou causar no leitor?
Joca Terron. Alguém já disse que, nos livros, se cometem os crimes mais hediondos, mas neles ninguém defeca ou vomita, e é verdade. Guia de Ruas Sem Saída é a história de dois corpos em decomposição, o de um doador de órgãos e o de um receptor, um homem que faz o chamado turismo de transplantes e viaja para receber um fígado. Um dos temas da obra é justamente essa estranha noção do corpóreo que a humanidade adquire hoje, que inclui partes cambiáveis – hoje em dia é possível se fazer um transplante facial, não é um absurdo? – e que parece demarcar o ápice da compreensão do corpo humano como um suporte obsoleto, algo do qual já estamos nos desfazendo, algo que não perdura e que não é mais suficiente para abrigar a nossa consciência.
 
Um dos personagens do desenho se parece fisicamente com você. Em que sentido ele reflete o autor?
Joca Terron. Todos os meus livros são meus, quer dizer, eu estou tão inteiramente neles que chega a ser um contrassenso meu nome constar na capa. Colocar o protagonista com minha aparência foi uma maneira de aludir a isso, exagerando essa presença autorreferencial e questionando a autoralidade que às vezes pode se confundir com autoridade. Também é uma brincadeira com a ideia de ficção autobiográfica, que anda muito em voga.
 
“Era uma vez o Homem-Escada”. Esse personagem foi criado pelo seu irmão, certo? Por que incluir esse herói inusitado na história?
Joca Terron. Não sei ao certo. Tem umas ideias que ficam caraminholando na cabeça e acabam indo parar num livro; essa é uma delas. Não quis que esse personagem – criado pelo meu irmão caçula quando era criança – se perdesse na lembrança. Agora meu irmão diz que vai me processar, mas acho que um processo desse tipo só pode ser uma declaração de amor.
Uma curiosidade de leitora: quem é o homem alto, que só mostra as pernas e os sapatos?
Joca Terron. Nunca saberemos, infelizmente, pois está vedado a nós, crianças, saber qual é a cara daqueles adultos cujas pernas e sapatos aparecem no "Tom & Jerry" sem que mostrem seus rostos. A única coisa que podemos saber deles é que são muito maiores do que nós.
 
A nova montagem do Teatro da Vertigem (“Bom Retiro 958 metros”) conta com a sua assinatura na dramaturgia. O que te marcou nessa experiência?
Joca Terron. Diversas coisas. Uma delas – talvez a principal – sendo a comprovação da enorme mentira que é a ideia de que escritores são individualistas selvagens e não sabem trabalhar coletivamente, que são misantropos. A outra delas é que a experiência serviu para mostrar para mim mesmo o quanto sou individualista (quase selvagem) e que não sei trabalhar coletivamente e que sou um tremendo misantropo. O resto foi maravilhoso.
 
Como foi o processo de imersão no bairro do Bom Retiro e na metodologia do grupo?
Joca Terron. Foi longo, durou mais de um ano, e foi igualmente prazeroso e torturante. Ou seja, igual a tudo na vida. E foi formidável conviver com o diretor Antônio Araújo, o iluminador Guilherme Bonfanti, o dramaturgista Antonio Duran, o sonoplasta Miguel Caldas e todos do grupo, incluindo os atores.
Você pretende experimentar mais a criação para a linguagem teatral, isso é algo que está nos seus planos?
Joca Terron. Pretendo, é um caminho sem volta. Agora mesmo estou escrevendo um monólogo ácido, lírico e engraçado que pretendo propor a algum produtor (interessados: jterron@gmail.com) e que eu adoraria ver interpretado pelo Hugo Possolo. O monólogo tem a ver com bombardear Buenos Aires às vésperas da Terceira Guerra Mundial, com o primeiro presidente negro do Brasil, com futebol, literatura e… mais, não conto!
 
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