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Na HQ Yuri, Daniel Og conta a história de um zumbi à solta em pleno carnaval carioca

Por Andréia Silva
Ranzinza, velho, infeliz, mal amado, nada sociável, ruim da cabeça ou doente do pé. À primeira vista, ou melhor, lida, essa é a impressão que você pode ter do publicitário Yuri, personagem criado pelo ilustrador carioca Daniel Og em sua HQ de estreia, Yuri – Quarta-feira de Cinzas (Conrad). Mas a questão é só uma: Yuri simplesmente não gosta de carnaval.
Chegada a folia, ele não pensa duas vezes. Depois de uma série de tragédias pessoais – que vão desde a traição da mulher a perder o emprego para um estagiário – ele decide ir dessa para melhor, em pleno domingo de carnaval. O mundo teria ficado para trás se, ao contrário, não estivesse preparando uma pegadinha para Yuri. No dia seguinte, a segunda de carnaval, ele acorda como zumbi.
Vivo – ou melhor, mais ou menos –, Yuri resolve desafiar foliões, blocos e marchinhas para aproveitar o que lhe resta da vida, até que morra de vez. Nessa aventura, ele encontra um parceiro que é seu oposto. Trata-se de Andrei, gordinho carismático, gay e um ladrão de carros cara de pau.
"Quando comecei a escrever, o Yuri tinha ares de herói incompreendido, mas, à medida que o tempo foi passando, enxerguei as falhas no caráter do personagem e passei a reconhecer as belezas que o carnaval tem. Daí vem a personalidade do Andrei, que também não é santo", diz Og, que levou anos escrevendo a HQ.
 
O auto já comentou que Andrei foi inspirado em dois personagens reais, um artista plástico e uma ex-namorada, que acabaram sendo fundidos em um só, “caótico e gay”, como ele define.
De traços fortes, em preto e branco, a HQ é repleta de humor negro e questiona a imagem carioca no carnaval, mas de forma sutil, sem carregar a mão em comentários de cunho político ou social.
"Acho que o Rio de Janeiro e essa folia toda têm dois lados. Um lado é o da festividade. Mas disso todo mundo já fala. O outro é a cultura do malandro que me incomoda muito, ainda que tenham outros lados. Tem muita gente cantando a beleza da cidade e do seu povo. Não discordo. Só acho que, sem uma perspectiva como a que o Yuri apresenta, esse retrato fica incompleto", diz ele.
Esses questionamentos são fruto do momento em que a história foi escrita, mas também não se trata de uma HQ autobiográfica. "O que eu posso dizer é que o Yuri não é a melhor parte que existe em mim. Eu tinha passado um tempo ruim quando comecei a pensar a história e resolvi tratar disso no papel. Mas depois que ele encontra o Andrei, tudo fica mais festivo, mais carnavalesco. Fantasioso. Não queria fazer um quadrinho realista. A realidade é muito chata".
Allan Sieber é quem assina o prefácio do livro. "O Allan me ajudou muito com o aspecto gráfico, com dicas de como ter bons resultados mesmo sendo um autor iniciante, que tipo de material usar e as sutilezas técnicas. O autor Lobo, que editou Os Irmãos Grimm em Quadrinhos, também me ajudou com o primeiro roteiro, e o ilustrador Lelis também me ajudou na hora de tratar as imagens. E vários amigos compuseram os personagens de uma forma ou de outra".
 
Aos 32 anos, Og hoje é diretor de animação para projetos de cinema e TV. Filho de pintor, sempre quis trabalhar com o traço, e foi até tatuador antes de cursar pintura. Coleciona HQs desde muito cedo – embora listar três favoritos seja difícil, Turma da Mônica, Conan e Chiclete com Banana estão na cabeceira – e tem alguns projetos saindo do forno, como animações para os canais Brasil e Futura e para o filme Os Inocentes.
Embora esteja envolvido com o audiovisual, ele não esconde o gosto pelas tirinhas. "O quadrinho sempre foi minha verdadeira paixão e é meu plano de aposentadoria. Envelhecer contando histórias deve ser muito bom". 
 
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