Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.11.2009 23.11.2009

Na calçada com Danuza

Por Marcio Debellian
Fotos de Tomás Rangel

 

A entrevista com Danuza Leão só ocorreu porque eu tinhaum pistolão dos bons. Meu grande amigo Gabriel Wainer é neto dela, e ligoupedindo que ela me recebesse para uma entrevista. Logo no primeiro contato,Danuza me cobrou duas promessas: nunca mais pediria outra entrevista a ela; edizer ao Gabriel para que nunca mais pedisse que ela desse uma entrevista a umamigo. Prometi, então registro aqui para ficar bem claro que vocês nunca maislerão uma entrevista minha com a Danuza e que os demais amigos do Gabriel nemdevem cogitar o assunto. 

Meu interesse por Danuza começou quando eu li o seulivro Quase tudo (Companhia dasLetras, 2005) numa véspera do Natal em 2005, na praia de Ipanema – semprecoloco nos meus livros a data que iniciei e terminei a leitura. A forma comoela escreve me agradou de cara, a ponto de não conseguir parar de ler. O solfoi baixando, a família começou a ligar perguntando a que horas eu chegaria àceia, e eu só saí da praia quando terminei o livro, quase no escuro. 

Danuza foi a primeira modelo brasileira a desfilarfora do país e viu a bossa nova nascer em seu apartamento em Copacabana, masachava que era somente os amigos da irmã, Nara Leão, tocando violão e sedivertindo. Foi casada com o jornalista Samuel Wainer, conheceu de GetúlioVargas a Mao Tse-Tung, foi promoter do Hippopotamus, boate ícone dos anos 1980 no Rio de Janeiro, apresentou e foijurada de programa de TV, produtora de arte de novelas da Globo, colunistasocial e, hoje em dia, escreve. 

A vida lhe deu amigos especiais: quando estava emParis aos 18 anos e seu pai queria que ela voltasse ao Brasil, foi Vinicius deMoraes quem escreveu a carta que ela assinaria, pedindo para que o paiaceitasse que a temporada fosse prorrogada. Recentemente, quando precisou de umeletricista, folheou a agenda e não titubeou: “Quem melhor do que o OscarNiemeyer para me indicar um bom eletricista?” 

Danuza rechaça o título de escritora porque achamuito pomposo e alerta que ainda pode mudar de profissão novamente. Arquiteta,talvez? Ela declara abertamente que adora uma obra. No dia em que fomosentrevistá-la, estava um quebra-quebra em seu apartamento, que ela recusou-se ainterromper: “Obras têm que cumprir o cronograma. Não vou interromper. Vamosfazer na portaria”. Argumentei que a luz da portaria não favorecia o vídeo, eela disse: “Vamos colocar o sofá na calçada”. 

E assim, com um sofá na calçada da Rua Barão daTorre, conversamos sobre diversos assuntos. Das suas viagens anotando tintimpor tintim as melhores dicas para os seus dois livros mais recentes Fazendo as malas (Companhia das Letras,2008) e De malas prontas (Companhiada Letras, 2009) que narram os melhores programas em cidades como Sevilha,Lisboa, Paris, Roma, Berlim, Londres e Buenos Aires, a seu gosto pela obra deEça de Queiroz. Do seu desdém pelo trabalho do designer Philippe Starck aosucesso das bolsas falsificadas “para acabar com este absurdo de bolsas a 10mil dólares”. 

Danuza é uma mulher interessante e divertida, dehumor irônico, e que soube se reinventar sempre que precisou. Quando perguntada recentemente quem escolheria ser, se pudesse se colocar na pele de outra pessoa, pensou bastante, e chegou à melhor conclusão: “Fácil, quero ser eu. Estou muito bem dentro da minha pele”. 

> Danuza Leão na Saraiva.com.br

> Assista à entrevista exclusiva  com Danuza Leão ao SaraivaConteúdo


Share |

Recomendamos para você