Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 11.12.2013 11.12.2013

Música paulistana de 2013 na retrospectiva da redação do SC

Felipe Candido trabalhou na Saraiva de 2007 a 2013. Atualmente é jornalista e colaborador do SaraivaConteúdo.
Apaixonado por música, nos últimos anos tem olhado (e ouvido) com mais carinho e atenção os trabalhos dos músicos de São Paulo (nascidos nela ou não), cidade que escolheu para viver.
 
Para ele, assim como a metrópole, o trabalho musical aqui instalado é múltiplo e diversificado, abrangendo os mais diversos estilos e ritmos musicais. E é justamente isso que torna a produção de São Paulo tão interessante.
O ano de 2013 foi muito rico e surpreendente no meio musical. A convite do SaraivaConteúdo, Felipe fez uma pequena seleção retrospectiva de alguns dos trabalhos que mais chamaram sua atenção e que mostram as diversas faces da capital paulista quando o assunto é música.
 
 
NÁ OZZETTI: EIS! É A DÁDIVA DA VOZ
 
 
Ná Ozzetti é um nome muito importante da música paulistana. A cantora e compositora foi integrante do lendário Grupo Rumo, que fez parte da chamada Vanguarda Paulista, e sacudiu a pauliceia em meados dos anos 80. Com uma nova forma de fazer música, mais inventiva e moderna, esses nomes fizeram história.
Dentro dessa turma, Ná e o Grupo Rumo dividiam a cidade com outros grandes artistas, como Arrigo Barnabé, o grupo Premeditando o Breque, Itamar Assumpção, entre outros.
 
Ná sempre foi de vanguarda. E isso foi reafirmado em 2013, quando ela lançou o 10º disco de sua carreira, Embalar (Ná Music/Circus).
Ela mantém acesa a chama das parcerias com os amigos de sempre, como Dante Ozzetti, Zé Miguel Wisnik, Alice Ruiz, entre outros. Mas mostra também estar sempre antenada ao abrir novos caminhos e estreitar laços com novos nomes da cena contemporânea de São Paulo. Tulipa Ruiz, Juçara Marçal, Kiko Dinucci, Marcelo Pretto, Mariana Furquim, entre outros, marcam presença em Embalar.
Com essas novas parcerias, fica nítido como Ná é referência para essa nova turma no jeito de fazer música, de cantar, de ousar. E mostra também como a música e a atitude de Ná Ozzetti são sempre atuais e contemporâneas.
 
 
VERÔNICA FERRIANI: PALAVRA FERINA, VENENOSA, CRUEL, SEMPRE NO GATILHO
 
Lançando seu segundo disco em 2013, Verônica Ferriani se firma no cenário musical brasileiro não só como boa intérprete, mas também como uma compositora muito interessante.
Porque a Boca Fala Aquilo do que o Coração Tá Cheio (Tratore) é o nome do explosivo disco em que Verônica assina todas as 11 canções cheias de personalidade, arrojo e elegância.
Com produção de Marcelo Cabral e Gustavo Ruiz, o amor é o grande tema tratado por Verônica, mas nem sempre mostrado de uma mesma forma, óbvia ou clichê. Por vezes ele é irônico, maldoso, dolorido… mas também pode ser agradável.
A voz rasgada de Verônica incendeia não só os ouvidos, mas também o coração de quem a ouve.
 
GIANA VISCARDI: VISTA DE CÁ, PARECE FILHA DE OXÓSSI
 
Giana Viscardi queria levar o seu terceiro disco por caminhos ainda não percorridos por ela. A vontade era de algo transcendental. Para isso, a cantora convidou o maestro Letieres Leitte (o nome à frente da inusitada Orquestra Rumpilezz) para arranjar as canções de seu novo trabalho, sob produção do talentoso Alê Siqueira. Orum, o céu mítico do povo Iorubá, foi o nome escolhido para batizar esse trabalho, no qual Giana se reconecta aos sons da África ancestral.
Orum (Tratore), o disco, não se pauta explicitamente pela temática afro em suas letras, mas é na sonoridade que as referências ao continente africano estão mais evidentes, com sons de atabaques, berimbaus e agogôs pontuando o canto doce de Giana.
Também no disco, em celebração ao centenário de Vinicius de Moraes, Giana fez uma inusitada gravação de “Canção do Amor que Chegou”, música do poeta em parceria com Carlos Lyra, que faz parte do musical “Pobre Menina Rica”. Pontuada pelo cello de Jaques Morelembaum – convidado da faixa -, a versão segue o tom africanizado que pauta o disco.
 
EMICIDA: INDEPENDENTE DA SUA FÉ, MÚSICA É NOSSA RELIGIÃO
 
 
São Paulo é a terra do Hip-Hop. Se em 2011 tivemos Criolo brilhando com seu Nó na Orelha (Universal Music), 2013 foi o ano de outro nome ligado ao Rap ter grande destaque.
O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (Pommelo), disco de “estreia” de Emicida (o rapper já havia lançado algumas mixtapes e um disco ao vivo em parceria com Criolo), foi lançado este ano com ótima repercussão.
Pautado na cultura da periferia, Emicida travou diálogo com outros gêneros musicais, como o samba, o funk, o rock e a canção de amor, sempre mostrando a realidade das comunidades mais afastadas sem filtro, sem tratamentos. A verdade é mostrada de modo áspero, mas em forma de poesia.
Com muitos convidados especiais, o disco de Emicida também traça paralelos com distintas gerações de músicos de diversas localidades.
Mas é o olhar feminino que se revela mais sedutor e em primeiro plano. As diversas convidadas (cantoras ou não) imprimem doçura e leveza ao canto duro e real de Emicida. Fabiana Cozza, Juçara Marçal, Pitty, Andriana Drê, Tulipa Ruiz, a atriz e poetisa Elisa Lucinda, além da mãe e da filha de Emicida, são as donas das vozes que atenuam a dureza do cotidiano, da periferia e do olhar do rapper.
VINICIUS CALDERONI: IR CONTRABANDEANDO IDEIAS TORNA AS TARDES MAIS SOLARES
 
 
Vinicius Calderoni já é figurinha conhecida em São Paulo. Integrante do coletivo 5 a Seco, o jovem músico já conquistou grandes nomes da música e pôde ouvir suas canções nas vozes de Luiza Possi, Zizi Possi, Pedro Mariano, entre outros.
Em 2013, Vinicius lançou seu segundo disco solo, Para Abrir os Paladares (Tratore), no qual se reafirma como compositor e assina (sozinho ou com parceiros) as 12 canções do álbum.
Como um arquiteto, Calderoni molda os arranjos das canções com minimalismos e preciosismo, atento a pequenos detalhes que atribuem uma textura única às canções. Mesmo sendo nitidamente influenciado por grandes nomes da música brasileira e mundial, como Lenine, Beatles, Philip Glass e Luiz Tatit, Vinicius assume sua própria personalidade nas canções e dá sua cara a elas; mesmo as que já haviam sido gravadas, como as que foram registradas pelo 5 a Seco, ganham novos contornos e nuances,  parecendo inéditas.
No grand finale do disco, não há como não se empolgar com os arranjos de metais com pitada de Sargent Peppers e o coro de “Juventude em Marcha”, discutindo as coisas banais da vida.
 
 
COITADINHA, BEM FEITO: ELES SABEM O QUE FAZEM
 
 
E quando alguns dos mais interessantes nomes da cena musical contemporânea de São Paulo se juntam em um único projeto? Foi essa proeza que o jornalista Marcus Preto conseguiu ao reunir o elenco que participou do tributo Coitadinha, Bem Feito (Jóia Moderna/Tratore), em homenagem a Angela Ro Ro.
Formado exclusivamente por nomes masculinos da música atual, o tributo uniu variados estilos e referências musicais. Do Rap ao Indie Rock, estão todos lá, reverenciando a obra de Ro Ro.
 
Otto, Lirinha, Thiago Pethit, Kiko Dinucci e Rael são alguns dos nomes que emprestaram suas vozes, suas interpretações e suas personalidades para a obra de Angela.
Diversificado por essência, o disco apresenta um panorama bem interessante do que tem rolado na música em São Paulo na atualidade. Todos os sons, os pensamentos, as vontades estão lá, aliados ainda à grande (e às vezes esquecida) obra de Angela Ro Ro, que merecia um tributo à altura de seu trabalho, como esse lançado sob a batuta de Marcus Preto e do DJ Zé Pedro.
 
O que vem em 2014
 
   José de Holanda
Juçara Marçal
O ano de 2014 deve ser promissor na música em São Paulo. Podemos esperar boas coisas por aí. 
O “disco que levará o nome de Juçara Marçal, já que discos solo não existem”, em definição da própria cantora (e gravado com adesão dos parceiros de sempre, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rohrer),  já está em fase de produção.
Novos discos de Criolo e Lurdez da Luz já foram sinalizados em 2013 pelos lançamentos de singles disponibilizados na web, com os quais pudemos ter um aperitivo do que vem por aí no próximo ano.
 
Poderemos ouvir com mais atenção o trabalho da cantora Joana Flor, a partir de EP produzido pelo DJ Zé Pedro para sua gravadora Jóia Moderna.
 
E quem sabe não teremos novidades de outros artistas que já marcaram os seus nomes na música paulistana, como Metá-Metá, Thiago Pethit, Rodrigo Campos, Flora Matos, 5 a Seco, Dani Black, Márcia Castro, entre outros?
 
O ano que vem promete! Que venha 2014!
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