Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.09.2014 18.09.2014

Murilo Mendes: sob o signo do contraste

Por Zaqueu Fogaça
No percurso muitas vezes acidentado da literatura brasileira, um dos recorrentes equívocos cometidos com um escritor é permitir que sua obra permaneça fora de catálogo. Nesse quesito, o mineiro Murilo Mendes foi um dos grandes injustiçados.
Sua extensa produção literária, que encontrou na poesia seu ponto alto, encontrava-se distante das prateleiras dedicadas à literatura nacional e fora do alcance de seus leitores. Esse lapso começa a ser reparado com uma nova reedição de sua obra completa – poesia e prosa – feita pela editora Cosac Naify e que acaba de chegar às livrarias brasileiras.
As primeiras obras publicadas do poeta são: Antologia Poética, compilação inédita que contou com os cuidados de Julio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura; Poemas, primeiro livro do poeta, publicado originalmente em 1930; o volume de memórias A Idade do Serrote (1968); e o último trabalho publicado em vida pelo autor, o apanhado de poemas Convergência (1970). Todas as obras são acompanhadas por ensaios redigidos por escritores e acadêmicos com o intuito de restabelecer a dimensão de sua obra poética.
Especialista na obra muriliana, o poeta Julio Castañon, autor, entre outros, de Territórios/Conjunções: Poesia e Prosa Crítica de Murilo Mendes (Imago), entende que essa reedição, além de reaproximar Mendes de seus leitores, também o apresentará aos jovens que não tiveram contato com sua obra, e completa: “Não é nada bom para a obra de um autor da importância de Murilo Mendes estar fora de catálogo, pois isso dificulta o acesso a ela, sobretudo por parte de leitores que ainda não o conheciam”.
Mais do que um reencontro de Murilo Mendes com seus leitores, a poeta Mariana Ianelli, autora de O Amor e Depois (Iluminuras), considera que esse resgate ajudará a descortinar a obra de outros poetas.
“Vejo a oportunidade de um verdadeiro redescobrimento, a começar por uma releitura dessa ‘bíblia’ que Murilo escreveu em verso e prosa, em salmos, parábolas, cânticos, meditações, aforismos. Esse novo contato com a obra dele vai aos poucos abrindo caminho para a revisão da poesia moderna brasileira. Também ficam visíveis outros poetas da mesma família, como, por exemplo, Lélia Coelho, que teve sua obra reeditada recentemente e ainda precisa ser (re)lida”, diz.
Murilo Mendes estreou na literatura em 1930, com a coletânea Poemas, livro considerado, ao lado de Libertinagem, de Manuel Bandeira, e Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade (publicados no mesmo ano), um marco literário do período.
Da dançarina de um café barato à filha do quitandeiro, passando pelo pequeno funcionário público, os poemas que integram o livro revelam um país em plena transição por meio das personagens tipicamente urbanas.
De espírito vanguardista, poeta mineiro que encontrou nos elementos opostos a força de sua linguagem começa a ser reeditado no país
Em Murilo Mendes, o erudito e o popular, o real e o onírico se apresentam como peças fundamentais a serviço do poeta, que sempre buscou na poesia a totalidade artística. “A ideia de totalidade veio de uma declaração do próprio poeta, em um momento culminante de sua trajetória”, afirma Murilo Marcondes de Moura, professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo e autor, entre outros, do livro Murilo Mendes: A Poesia como Totalidade.
“Ao receber o importante prêmio Etna Taormina, em 1972, declarou que sua vocação fundamental sempre fora a da ‘poesia como uma totalidade’. Creio que essa declaração revela uma visão muito ampla e generosa de poesia, pois esta tanto é valorizada por sua estrutura imanente (sua totalidade artística, por assim dizer), como pela sua capacidade de confrontar experiências mais heterogêneas do homem”, explica.
Por força dessa concepção não especializada de poesia mencionada acima, prossegue Marcondes, “Murilo Mendes sempre foi visto como um artista para quem os procedimentos associativos eram fundamentais. A fórmula ‘conciliador de contrários’, proposta, entre outros, por Manuel Bandeira, busca justamente caracterizar essa postura diante do real e da própria poesia, em que o trabalho com a metáfora ou a imagem é fundamental. A obra de Murilo Mendes propõe de imediato ao leitor uma gama imensa de problemas, estéticos, históricos e metafísicos, que é uma das marcas mais notáveis de sua lírica”.
Segundo Castañon, o interesse do poeta pelos elementos antagônicos encontra suas raízes nas vanguardas que sacudiram as artes no início do século passado e nos mais distintos temas absorvidos por sua poesia.
“Esse aspecto da obra de Murilo Mendes aparece em vários níveis de sua produção. Em primeiro lugar, há sua ligação com o modernismo, sua influência do surrealismo, a dimensão religiosa, e assim por diante. Na própria elaboração de boa parte de seus poemas, chama de imediato a atenção às imagens quase em choque, mas que muitas vezes se constituem como núcleos deflagradores dos poemas”, analisa.
                                                                                                                      Bruno Andreozzi
Murilo Mendes em seu estu´dio em Roma (1972)
Se, num primeiro momento, sua obra apresenta-se fortemente influenciada pelos ideais modernistas e surrealistas, em seguida ela persegue outros caminhos. “A partir de um certo momento, sua produção se torna mais concentrada, mais contida, mais voltada para objetos precisos e concretos. É o que acontece em livros como Tempo Espanhol e Siciliana, publicados no final da década de 1950. Seu último livro publicado em vida, Convergência, de 1970, apresenta uma abordagem bastante peculiar e pessoal das possibilidades de experimentação com a linguagem, mas sem abandonar as grandes questões que sempre estiveram presentes em sua poesia”, destaca Castañon.
Passada pelo crivo do tempo, a obra de Murilo Mendes, garante Castañon, continua sendo um dos grandes momentos da poesia brasileira. “Desde o impacto modernista até sua poesia final, mais concisa, ela preservou seu vigor criativo e inovador. As muitas questões presentes nessa obra permanecem vivas e até mesmo prementes. O humor de seus poemas iniciais, os poemas impactados pela guerra, a meditação sobre Ouro Preto, e assim por diante, certamente guardam um interesse e uma qualidade permanentes. Ao lado de poetas como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, ele é um poeta fundamental de nossa literatura”, afirma.
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