Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.07.2014 15.07.2014

Mundo das letras

Por Tatiany Leite*
 
Millôr Fernandes dá o tom da Festa Literária Internacional de Paraty – Flip 2014, que se inspirou no artista multifacetado para definir as linhas mestras de sua programação.
Apresentando debates com viés de humor, política, música e internet, entre muitos outros, o evento contará com grandes nomes nacionais e internacionais. “Apesar do artista homenageado não ter que ser, necessariamente, citado em todos os debates, acho que há uma afinação, já que todos os autores convidados têm um tom irônico e analítico do mundo, assim como o Millôr”, afirma Paulo Werneck, curador do evento. Segundo ele, todos os participantes deste ano desenvolvem seus temas por uma perspectiva crítica e bem-humorada.
 
“Acho que é um pouco mais fácil pegar um autor do século XVII e homenageá-lo, já que todo mundo faz isso. O bacana é falar sobre alguém contemporâneo, que ainda fomenta discussão. Millôr, inclusive, foi um dos primeiros artistas a participar da Flip, esteve presente logo na primeira edição, em 2003, ao lado de Luis Fernando Veríssimo e Ruy Castro, em uma mesa sobre humor e literatura.
 
HOMENAGEM A MILLÔR
Jornalista, escritor, cartunista e dramaturgo, Millôr Fernandes foi um ícone da liberdade de imprensa. Combinando humor e debate, o artista publicou colunas na revista Veja, Diário Popular e Jornal do Brasil.
 
Usando a ironia para debater sobre política, foi constantemente censurado na época da ditadura militar e chegou a criar, em 1963, a revista de humor Pif Paf, ao lado de nomes como Jaguar e Ziraldo. Em 1969, instaurada a Lei de Imprensa que vetava alguns meios de comunicação no país, ficou sob sua responsabilidade a edição do jornal O Pasquim, criado pelo cartunista Jaguar e famoso por combater a ditadura usando ironia e humor. Millôr também traduziu, escreveu e adaptou peças de teatro, além de ser autor de diversos livros. Em 27 de março de 2012, já com a saúde fragilizada por conta de um acidente vascular cerebral, morreu no Rio de Janeiro (RJ), em decorrência de uma parada cardíaca, aos 88 anos.
 
Na Flip é relembrado em diversas áreas, começando pelas artes na conferência de abertura, pelo crítico de arte e curador Agnaldo Farias. Reinaldo e Hubert, tidos como seus discípulos conversam com o cartunista Jaguar em mais uma homenagem a Millôr, complementada pelo caricaturista Cássio Loredano, o cartunista Claudius e o jornalista Sérgio Augusto, em outra sessão.
 
                                                                                                             Cynthia Brito
Millôr Fernandes é o homenageado da Flip 2014
 
GIGANTES INTERNACIONAIS
Muito aguardados, autores de destaque internacional apresentam-se em mesas concorridas. Um dos principais nomes do evento é o jornalista do The New York Times, David Carr. O autor ganhou notoriedade com A Noite da Arma (2008), em que esmiúça a própria vida no submundo das drogas. No evento divide a mesa com a jornalista argentina Graciela Mochkofsky, debatendo sobre as relações entre imprensa e interesses privados.
 
A neozelandesa Eleanor Catton chega ao Brasil ostentando o título da autora mais jovem a ganhar o Man Booker Prize de ficção, em 2013, com Os Luminares, livro que faz uma paródia do romance vitoriano e chega este ano ao Brasil. Na Flip fala sobre construção do romance ao lado de Joël Dicker, autor de um dos livros mais comentados na Europa nos últimos tempos, A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, que acaba de ser lançado no Brasil, narrando a história de um escritor que investiga um crime envolvendo seu mestre.
 
Vencedora do Pulitzer de melhor livro de ficção em 2000, com O Intérprete de Males, a indiana Jhumpa Lahiri fala sobre seu novo Aguapés, em que aborda temas como exílio, escolhas e destino.
 
Joël Dicker
Jhumpa Lahiri
 
POETAS DO COTIDIANO
Entre os brasileiros, destaque para autores que se revezam no teatro, TV e internet, além da literatura. Fernanda Torres fala sobre as representações ficcionais da vida artística. A atriz estreou na literatura em 2013, com o romance Fim em que cinco amigos cariocas relembram passagens marcantes de suas vidas.
 
O ator e humorista, Gregorio Duvivier, conhecido pelo programa Porta dos Fundos, sucesso na internet, fez da importância descomunal dos momentos insignificantes do cotidiano seu tema principal nos livros A Partir de Amanhã Eu Juro que a Vida Vai Ser Agora (2011) e Ligue os Pontos – Poemas de Amor e Big Bang (2013). Na Flip, discute prosa e poesia com Eliane Brum que após alguns livros reportagem voltou-se para dentro de si mesma como mostra no novo Meus Desacontecimentos.
 
O poeta e roteirista Charles Peixoto deixa a discussão ainda mais interessante. Formado na poesia marginal, assina desde 1980 roteiros para a Rede Globo em programas como Armação Ilimitada e Malhação. As crônicas semi-memorialísticas são o mote de Antonio Prata em seu recente Nu, de botas. Cronista da Folha de S. Paulo e roteirista da Rede Globo, divide a mesa com o paquistanês Mohsin Hamid.
 
AMÉRICA LATINA É AQUI
Bem representada, a literatura latino-americana vem com tudo. Da velha guarda, o chileno Jorge Edwards ainda é pouco conhecido no Brasil. Companheiro de Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa, lançou em 2013 A Origem do Mundo, em que conta as angústias amorosas de um setentão ciumento.
 
Na Flip se junta ao português Almeida Faria para falar de amor. Com mais de 30 livros publicados, Juan Villoro é hoje um dos maiores nomes da literatura mexicana. Transita por diversas áreas e é amigo de Roberto Bolaño e Enrique Vila-Matas.
 
Juan Villoro
Graciela Mochkofsky
Seu novo romance Arrecife será lançado no evento, em que se une a Etgar Keret (Israel) para falar sobre as exuberâncias e mazelas de seus países. Expoente das letras contemporâneas, o peruano Daniel Alarcón estreou na ficção em 2005. Após alguma indecisão, confirmou presença no evento, em que apresenta seu recém-lançado À Noite Andamos em Círculos, em que transita por cantos remotos da América Latina.
 
Especialista em reportagens investigativas, a argentina Graciela Mochkofsky ganhou notoriedade com Pecado Original, que esmiúça a disputa entre o casal Kirchner e o jornal Clarín na Argentina, ainda inédita em português.
 
MILITÂNCIA, POLÍTICA E LIBERDADES
Seja como for, atitudes fazem a diferença para este grupo de autores. Charles Ferguson, diretor de Trabalho Interno, documentário vencedor do Oscar 2011, que trata das responsabilidades na crise econômica mundial, se juntou ao jornalista Glenn Greenwald, que divulgou as denúncias de Edward Snowden em 2013, para um debate sobre a liberdade. Andrew Solomon aborda as diferenças em seu novo Longe da Árvore e durante o evento. No livro, ele escolheu dez identidades de pessoas que “fogem do padrão” para falar sobre os sentidos de ser diferente.
 
A ditadura militar é o tema de uma mesa de entendidos. O jornalista e cientista político Bernardo Kucinski, autor do novo Você Vai Voltar Para Mim e Outros Contos, inspirou-se em uma sessão da Comissão da Verdade de São Paulo para criar as 28 histórias de seu livro, que tem como pano de fundo a ditadura militar. Marcelo Rubens Paiva traz a experiência de quem sofreu na pele os efeitos do Golpe de 1964.
 
O economista Pérsio Arida completa o time, com toda a bagagem de um dos idealizadores do Plano Real e autor de A Inflação Zero, entre outros livros.
 
*Matéria originalmente publicada no Almanaque Saraiva, edição 98 – Julho de 2014.
 
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