Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.08.2012 24.08.2012

Muito além dos muros da universidade

Por Thaís Ferreira
 
Instalada no número 108 da Praça da Sé, a Fundação Editora Unesp (FEU) se localiza em um prédio com vocação para o mundo editorial. O Palacete São Paulo foi sede da Cia. Graphico-Editora do escritor Monteiro Lobato no início da década de 1920.
A empresa do autor de Taubaté foi considerada revolucionária, tanto pela criação de uma rede nacional de distribuição de livros como por reconhecer e pagar os diretos autorais. Localizada no mesmo endereço, a FEU também se mostra inovadora.
Com 25 anos recém-completados e diversos projetos bem-sucedidos, a fundação mostra que seus objetivos vão muito além das obras acadêmicas.
O PRINCÍPIO
Suas origens estão ligadas ao setor de publicação que já existia dentro da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Voltada principalmente para a produção de periódicos. Com a crescente importância de suas demandas, foi criada uma diretoria de publicações e, em 1987, a Editora Unesp. Sua missão era a democratização do conhecimento, servindo de ponte entre uma das mais renomadas universidades brasileiras e a sociedade. 
Segundo José Castilho Marques Neto, diretor-presidente da FEU e professor na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Unesp, o objetivo não mudou com o tempo: “Sempre afirmei no âmbito interno à Unesp e também em situações públicas que uma universidade não precisa ter uma editora de verdade se seu objetivo for apenas a comunicação entre pares acadêmicos. A editora universitária só tem razão de ser se dialogar com a sociedade, se interagir com ela, se fornecer a ela o que de melhor se produz na pesquisa e na reflexão acadêmica”.
Para manter tal ideal, uma mudança foi imprescindível: em 1996, o órgão se tornou uma fundação. Antes, a principal direção era guiada pela enorme massa de trabalhos e serviços exigidos pela estrutura universitária e seus diversos campi. Ao se reorganizar, ganhou autonomia editorial e administrativa, além de autogestão financeira, tornando-se uma estrutura independente.
Para Castilho Marques, essa alteração foi fundamental para o sucesso dessa empreitada e os resultados mais visíveis se refletem nos números: “Em nove anos sob a Fundunesp editaram-se 156 títulos e em dezesseis anos de FEU publicaram-se mais de 1.400”.
CATÁLOGO DIVERSIFICADO
Da coleção de Paradidáticos até Adorno, os livros da instituição abrangem uma gama de assuntos bastante variados que transpassam áreas diversas do conhecimento: Economia, Música, História, dentre outras.
“É importante que se diga que a editora Unesp não se circunscreve à publicação de pesquisas acadêmicas. O objetivo, além de um canal para divulgação de pesquisa científica, é intervir no cenário social mais amplo e enriquecer debates de todas as áreas. Por isso, estamos confortáveis para publicar materiais como Parto Normal ou Cesárea?; Cuidar de Idoso em Casa; Como Escolher Amantes e Outros Escritos”, enfatiza o editor-executivo Jézio Hernani Bomfim Gutierre.
Esses diversos títulos caracterizam uma preocupação com debates contemporâneos e com divulgação de conhecimento, sem carregar os preconceitos comuns de alguns círculos intelectuais.
O que prevalece no catálogo, no entanto, são obras ligadas a pesquisas com ênfase nas ciências humanas. Um dos destaques foi o lançamento dos excertos da enciclopédia de D’Alembert e Diderot, que estabeleceu um novo padrão editorial e de qualidade, proporcionando para a FEU seu primeiro prêmio Jabuti.
Entre as coleções se destaca Revoluções do Século XX, dirigida pela professora emérita e historiadora Emília Vioti da Costa. Esse extenso trabalho, que reúne os precedentes e os desdobramentos dos grandes movimentos dos últimos cem anos, foi responsável por afirmar definitivamente que a editora podia prospectar e produzir textos inéditos de alcance internacional.
A série Clássicos também é acentuada por Gutierre como uma das marcas editoriais que caracterizaram a fundação: “Essa coleção tem disponibilizado textos extremamente importantes que muitas vezes não tinham sido publicados em português, expondo o leitor brasileiro pela primeira vez a um livro extremamente citado, por exemplo, O Tratado da Natureza Humana, de David Hume, e O Progresso do Conhecimento, de Francis Bacon. E mais recentemente traduzimos diretamente do chinês Os Analectos, de Confúcio”.
FORMANDO PROFISSIONAIS
A partir da observação do mercado editorial e livreiro, surgiu em 1999 a Universidade do Livro, um braço educacional da Fundação que pretende formar profissionais para atuar nessas áreas, além de aperfeiçoar e atualizar aqueles que pretendem progredir nesses campos de trabalho. A inspiração veio de projetos brasileiros como da Câmara Brasileira do Livro e internacionais como a Escola do Livro de Frankfurt.
Os responsáveis pelo projeto alemão prestaram assessoria para fundamentar a implementação da UNIL que oferece cursos de curta e média duração que envolvem diferentes processos da cadeia produtiva e comercial de obras escritas. São aulas que vão desde a gramática de usos do português, passando pela preparação e revisão de texto, até ações inovadoras digitais no negócio editorial. A procura chega a mil e duzentos alunos por ano.
“Esse projeto é um sucesso muito grande, com alto índice de aprovação dos cursos livres oferecidos, talvez porque além do cuidado na preparação nós elegemos professores altamente experientes e que são profissionais respeitados no mercado. Quem fica parado na área tende a ficar obsoleto profissionalmente em pouco tempo, tal o grau de transformações que o setor sempre enfrentou, antes mesmo da era digital”, comenta Castilho Marques Neto.
OS 25 ANOS E OS PRÓXIMOS
Durante esse um quarto de século, a FEU foi galgando posições e afirmando seu nome no mercado. Nas palavras do presidente da instituição: “a Unesp soube construir uma editora forte, respeitada, conceituada por seu catálogo e por sua atuação junto ao mercado e aos profissionais do livro e da leitura. Agressiva e profissional na distribuição e venda de seus livros, ao mesmo tempo nunca se furtou em colaborar e mesmo liderar movimentos e ações em prol de políticas públicas do livro, da leitura e das bibliotecas, como deve ser o perfil de uma editora vinculada a uma universidade pública”.
Entre os futuros projetos estão a ampliação do catálogo de livros digitais e manutenção de parcerias, como a do Instituto Confúcio: um acordo firmado com a República popular da China que tem como objetivo a divulgação da cultura e da história desse país no Brasil. Para essa finalidade, estão sendo traduzidos textos diretamente do mandarim. Outro ponto fundamental é investir em grandes séries de livros que representam parte essencial da obra de grandes pensadores, entre eles Habermas e Adorno.
Dessa forma, a Fundação Editora Unesp se apresenta para os próximos anos como uma instituição universitária que conseguiu ultrapassar os muros dos campi e ser uma das pontes mais eficazes entre o conhecimento e a sociedade.
 
Alguns dos títulos publicados pela editora
 
Recomendamos para você