Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 01.10.2013 01.10.2013

Muito além da imaginação: contadores de histórias

Por Cintia Lopes*
 
Diz o ditado popular que quem conta um conto aumenta um ponto. Com os contadores de histórias profissionais a história não é diferente. Afinal, para eles, cada sessão de contação é única, mesmo que o enredo já tenha sido apresentado diversas vezes.
 
O ato de transmitir o conhecimento através da comunicação oral é milenar. Baseados nessa premissa é que os contadores de histórias, como são chamados os artistas que interpretam narrativas geralmente com o auxílio de algum objeto cênico, desenvolvem seus trabalhos. Muitos deles são, inclusive, conhecidos pelo público que acompanha a programação da Hora da Criança e freqüenta as lojas da Saraiva.
 
A atriz Carine Haziel, idealizadora do grupo Teatro & Companhia, no Rio de Janeiro, é uma delas. Há 11 anos trabalhando como contadora de histórias, Carine se reveza entre as lojas da Saraiva com apresentações performáticas que incluem o uso de violão e flautas, além da inseparável mala cênica. “Gosto de mergulhar no lúdico e fazer crianças e adultos embarcarem na fantasia através da imaginação. Para os adultos, o exercício é mais difícil, mas quando eles se permitem fica ainda mais divertido. O espetáculo de narração nunca é o mesmo”, compara, antes de emendar. “Cada grupo de espectadores oferece elementos que o artista pode ou não tornar fundamentais ao momento. Eu recebo, transformo e devolvo. É uma troca, e no fim todos se divertem.”
 
Para ela, o que não pode faltar numa boa história é a dinâmica. “Ela deve ser conduzida como se estivesse sendo contada para um grande amigo”, explica.
 
Já Irene Tanabe, que começou a carreira como voluntária contando histórias para crianças hospitalizadas, acumula 10 anos de experiência nesse ramo. Seu diferencial: o uso de origamis – as dobraduras de papel de origem japonesa – como técnica nas narrações. “Precisa ser um narrador extremamente criativo para cativar o público e prender a atenção até o término, e o origami ajuda muito nesse processo”, explica Tanabe, que costuma se apresentar nas lojas Saraiva de São Paulo (SP).
 
        Arquivo Pessoal                                                                                                                 Alexandra Arakawa
Irene Tanabe
Kika Farias
 
SENTA… QUE LÁ VEM HISTÓRIA
 
Outra dica é ter na manga histórias “curingas” que servem para todas as idades. “Sempre conto O Caso das Bananas e Qual é o Sabor da Lua?, porque são narrativas que agradam a todas as faixas etárias: crianças, adultos e idosos”, enumera Tanabe. O critério de escolha dos textos e a preparação da atividade seguem uma ordem. “Leio várias vezes uma história. Procuro os significados simbólicos dos personagens ou elementos de acordo com a origem daquela narrativa, que pode ser uma lenda ou história contemporânea. Em seguida, desenvolvo origamis que representem esses elementos”, explica ela.
 
Outro que resolveu se dedicar à profissão de arte-educador é Gustavo Vergani. Há oito anos, ele trocou a arquitetura pela atividade de contador de histórias após ingressar num curso de teatro e fundou a Cia Cultural Os Tonicos, uma das poucas a investir na contação de histórias em duplas. Ao lado da atriz Lya Mara Bueno, os dois formam Tonico-Nico e Tonica-Nica.
 
Gustavo Vergani (Cia. Cultural Os Tonicos)
 
“Ele é uma criança grande, que adora brincar e tirar sarro das situações cotidianas misturando elementos atuais com as histórias”, explica. Vergani conta que o objetivo do grupo é se distanciar da simples contação de histórias.
“A ideia é transformar o texto num espetáculo, contando com muito improviso e a participação do público”, diz. Improviso e jogo de cintura, aliás, já serviram para incrementar diversas apresentações. “Uma vez acabou a luz no shopping e estávamos contando uma história de ‘terror’ dos Irmãos Grimm chamada João Sem Medo. Foi muito divertido, pois usamos isso a nosso favor!”, recorda.
 
Para Juliano Bertholdi, coordenador geral do grupo Vira Festa de São Paulo (SP), a aposta principal está no improviso com a colaboração de atores músicos para prender a atenção da garotada. O figurino funcional é outro atrativo. “O próprio figurino forma outras histórias e se transforma em novos personagens. Além disso, investimentos na expressão corporal e no timbre de voz são essenciais para manter a atenção do público nas apresentações. Precisamos ser mais interessantes naquele momento do que o livro que a mãe acabou de comprar”, explica Juliano.
 
ELEMENTOS CÊNICOS: AUXÍLIO LUXUOSO PARA MANTER A ATENÇÃO DO PÚBLICO
 
Além do total domínio do texto e uma boa dose de carisma, é necessário também um toque de emoção nas histórias.
 
É o que acredita a professora de teatro infantil Rosane Castro, que há sete anos trabalha exclusivamente como contadora de histórias. “Não podem faltar numa boa história momentos que surpreendam quem conta e quem ouve. O contador tem de viver o que ele está narrando e escolher um repertório atraente. Para isso, ele pode usar entonações de voz, mudanças de ritmo para evitar que a trama fique monótona, usar expressões faciais e corporais… É um conjunto de ações que fará dele um bom contador”, acredita Rosane, de 41 anos.
De tanto inventar histórias, ela acabou escrevendo e publicando algumas, como A Menina dos Olhos Verdes, lançada na Saraiva do Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre (RS), o mesmo local em que promove as atividades com a garotada nos fins de semana. Antes de cada apresentação, Rosane segue uma espécie de ritual. “Procuro me concentrar antes da contação. Tomo muita água, faço exercícios faciais e fico repassando a história mentalmente e em voz alta. Também relembro os gestos que utilizo em cada parte da história. É como se fosse um alongamento, que eu chamo de partitura corporal”, exemplifica.
 
Rosane Castro

O processo é um pouco mais complexo quando se trata não apenas de um contador, mas de um grupo formado por sete integrantes – cinco brasileiros e dois peruanos – como o tradicional Tapetes Contadores de Histórias, que há 15 anos percorre centros culturais, escolas e livrarias por todo o Brasil.

 
Coordenado por Cadu Cinelli e Warley Goulart, o grupo tem como eixo criativo as relações entre as artes têxteis e a oralidade. A técnica foi apresentada a eles ainda nos tempos de faculdade, quando todos os integrantes frequentavam a Escola de Teatro na UniRio, no Rio de Janeiro (RJ).
 
Cadu explica que, na ocasião, tiveram o primeiro contato com o trabalho desenvolvido pelo francês Tarak Hammam, diretor de teatro, ator e contador de histórias. “Foi um encantamento imediato, e resolvemos desenvolver essa técnica aqui no Brasil contando histórias através de tapetes coloridos feitos de forma artesanal”, recorda. Para ele, antes de pensar em prender a atenção do espectador, o contador de histórias deve saber escutar. “Sem isso a gente não percebe o outro, não vê o interesse do público, não escuta a própria história e não consegue lidar com o silêncio que também faz parte da apresentação”, enumera.
 
Para praticamente todos os artistas entrevistados, e Cadu se inclui no grupo, a maior dificuldade na contação é lidar com as interferências externas. “Quando se tem na plateia adultos que acompanham a criança e não percebem que estão num espaço coletivo, explicando em voz alta tudo que está acontecendo, é terrível! Porque desconsidera a autonomia do ser em descobrir o mundo à sua volta e atrapalha os outros”, resume ele, que já chegou a se apresentar com o grupo Tapetes Contadores para uma plateia de 1000 pessoas no encerramento do Festival de Narração Oral em Los Silos, nas Ilhas Canárias, Espanha, em 2006.
 
ALEGRIA ITINERANTE EM HISTÓRIAS REGIONAIS   
 
Acostumada a diferentes plateias – seja pelo Nordeste ou no Rio de Janeiro onde reside atualmente -, a pernambucana Kika Farias começou a carreira em 2002, e criou a personagem Dona Mocinha, feita em homenagem à bisavó e avós. “Ela é um misto de palhaça, brincante, andarilha, mendiga, e poeta”, enumera.
Para a preparação do espetáculo, Kika recorre à técnica de digitar e imprimir as histórias com marcações para melhor memorização. “Leio em voz alta, andando pela casa, e tocando pandeiro. Também gosto de colorir o texto, pensar no desenho das palavras com a voz, com o corpo. Opto por mesclar palavras difíceis para as crianças conhecerem. Tudo alinhavado com cantigas e instrumentos musicais”, explica.
O investimento na arte de contar histórias surgiu da vontade de realizar um trabalho prático. Pesquisadora do teatro de rua, de Mamulengos e das brincadeiras populares do Cariri, no Ceará, a atriz aposta na regionalidade para prender a atenção do público. “Gosto muito dos brinquedos populares, do improviso, das parlendas e das cantigas. Coloquei então tudo isso na mala para viajar para outros lugares. É um trabalho prazeroso e que me preenche a alma”, filosofa.
 
 
*Esta matéria foi publicada na edição n°89 do Almanaque Saraiva – Outubro 2013
 
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