Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.01.2010 28.01.2010

Morre J.D. Salinger

Por Bruno Dorigatti

Morreu o criador de Holden Caulfield. Jerome David Salinger se foi nesta quinta 28 de janeiro, de causas naturais, informou seu filho, em sua residência em Cornish, estado de New Hampshire, Estados Unidos. 
Conhecido com o autor de O apanhador no campo de centeio, tradução literal para Catcher in the rye, J.D. Salinger publicou o livro de contos Nove estórias (1953), uma novela entitulada Franny & Zooey (1961), reunião de duas histórias publicadas na revista New Yorker, todas elas públicadas no país pela Editora do Autor, que lançou uma caixa reunindo os três livros em 2003. Além disso, publicou a novela Hapworth 16, 1924, também na New Yorker, na edição de 19 de junho de 1965, nunca editada em livro e ainda não traduzida no Brasil.

O escritor recolheu-se a sua casa em Cordish em 1963 e ficou recluso desde então, o que só contribuiu para aumentar os boatos em torno de sua vida. Quando publicou seu romance – que acompanha Holden Caulfield, um adolescente que se revolta com o colégio interno no interior, é expulso e então passa a vagar por dois dias e duas noites em Nova York enquanto não sabe o que falar aos pais -, em 1951, foi saudado como o grande escritor norte-americano do pós-guerra. E tinha tudo para ser, caso não tivesse optado por não mais publicar. Ele continuou escrevendo até o fim da vida, garantem pessoas próximas. 
Mesmo assim, sua curta, porém marcante obra o elevou como um dos grandes escritores da segunda metade do século passado. O anti-herói Caulfield moldou milhões de adolescentes e seu desejo de assumir outros tempos que se apresentavam no pós-guerra, com a angústia, rebeldia e despreendimento que iriam caracterizar o momento que antecedeu os beatniks, os hippies e todo o flower power dos anos 1960.

“”Holden Caulfield se expressava de forma coloquial, era desbocado para os padrões da época e desconfiado de tudo o que se referisse ao mundo “fajuto” (phony) dos adultos. Um adolescente-mala como a ficção jamais produziu antes ou depois e que continua sendo leitura divertida e instigante no século 21, embora o livro, inevitavelmente, tenha perdido boa parte de seu impacto””, comenta em seu blog o escritor Sérgio Rodrigues.

Recluso, talvez o escritor mais conhecido por não gostar de aparecer, tampouco de dar entrevistas, assim como o também norte-americano Thomas Pynchon, e os brasileiros Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, ele foi fotografado algumas vezes à revelia, como na foto que ilustra este texto, onde ele parece irritado e vindo para cima do fotográfo. Em 1974, porém, Salinger trocou algumas breves palavras por telefone com Lacey Fosburgh, do The New York Times. E afirmou que seguia escrevendo, porém, não publicaria mais nada em vida. “”Há uma paz maravilhosa em não publicar. É cheio de paz. Calmo. Publicar é uma terrível invasão de minha privacidade. Eu gosto de escrever. Gosto de escrever. Mas eu escrevo só para mim e para meu próprio prazer.””

“”Eu não necessariamente tenho a intenção de publicar postumamente, mas eu gosto de escrever para mim. Eu pago por este tipo de atitude. Sou conhecido como um tipo estranho e distante. Mas tudo que eu estou fazendo é tentando proteger a mim e meu trabalho””, afirmou na mesma entrevista. Veremos se os herdeiros respeitarão a intenção de Salinger, ou vão lucrar com seus manuscritos, assim como fez no final de 2009 o filho de Nabokov, que publicou as fichas de uma história inacabada, Os originais de Laura (Alfaguara).

Autores reclusos sempre mexeram com o imaginário de seus leitores, mas Salinger foi além. Teve histórias suas roubadas e publicadas sem sua autorização, participou indiretamente do assassinato de John Lennon (Mark Chapman carregava o livro quando atirou no músico), virou personagem de ficção, particularmente curioso é o conto do escritor espanhol Enrique Vila-matas que narra um encontro com ele, e foi foco de uma documentário cujo objetivo era encontrá-lo, Catching Salinger

Salinger se vai, Caulfield fica, por ora, sem a companhia de outros personagens, que abarrotaram as gavetas da tranquila cidade de Cornish (na foto ao lado, publicada pela revista Life em 1961, a sua caixa de correspondências, em frente a sua casa). Veremos até quando.

> Salinger.org, site que reúne e discute a obra do escritor
> Leia a matéria publica na revista Life em 3 de novembro de 1961, “”The Recluse in the rye“” 

> Leia a única entrevista concebida por Salinger, ao The New Yor Times, em 3 de novembro 1974

> Assista ao trailer do documentário Catching Salinger 

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