Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 16.11.2012 16.11.2012

Monstros invadem a cidade de Santos

Por Rafael Roncato
 
O quadrinista Gustavo Duarte acaba de voltar de Nova Iorque, por onde passou com a miniturnê de divulgação de seu mais novo livro, Monstros!. Mesmo com os horários desajustados por conta do jet lag da viagem e uma aparente necessidade de colocar o sono em dia, para ele não é difícil manter uma longa conversa sobre quadrinhos, sua carreira e, especialmente, seu novo livro. Gustavo é proseador, assim como Pinô, o personagem principal de sua mais nova HQ.
Para quem não o conhece, Gustavo não é apenas um quadrinista: é também um talentoso caricaturista e chargista. Ele começou com essas duas vertentes do desenho no jornal Diário de Bauru, no interior de São Paulo, há exatos 15 anos, enquanto ainda cursava a faculdade de design. Segundo ele, além de ser seu primeiro trabalho profissional, o jornal serviu como uma grande escola.
Já na cidade de São Paulo, pelos anos 2000, Gustavo deixou seu traço e estilo no jornal esportivo Lance!. Ali, o quadrinista deu cara aos times e mascotes de todo o Brasil, sendo uma de suas ocupações mais longas e reconhecidas. Foram 12 anos de trabalho e cerca de quatro mil desenhos produzidos, agradando e desagradando aos torcedores. Afinal, não se pode contentar gregos e troianos na dura batalha do futebol.
No entanto, como um bom designer polivalente, ele não se manteve apenas nas charges e caricaturas do jornal, decidindo produzir e publicar suas próprias HQs de forma independente. 2009 foi o ano em que Gustavo soltou sua primeira aventura gráfica, a já esgotada Có!; uma história sobre galinhas, porcos e extraterrestres, que lhe rendeu dois troféus HQMix: Melhor Edição Única e Desenhista Revelação.
Por mais proseador que seja, Gustavo não se apropria das falas dos personagens. Tudo é resolvido na base gráfica, mesmo que a "fala" seja necessária. Foi assim que aconteceu em todos seus quadrinhos, num ritmo de produção invejável. Desde 2009, o quadrinista lançou uma HQ por ano, estreando com pé direito (de galinha) com Có!; em seguida (2010), também recebeu boas críticas por Taxi, sobre um músico de jazz que esquece seu instrumento em um bar e entra num táxi guiado por um elefante. A mistura clássica de animais e situações para um humor leve.
Agora, em 2012, Gustavo põe à prova mais uma vez seu papel de contador de histórias gráficas. O mote de Monstros! é simples e remete às memórias de infância de Gustavo: três monstros decidem invadir a cidade de Santos.
Veja a seguir a prosa completa com Gustavo Duarte sobre monstros, personagens, quadrinhos e memórias:
Monstros! tem um formato muito parecido com os tokusatsus ou filmes japoneses, com invasões de monstros inesperados e destruição desenfreada da cidade. Você gosta do gênero ou foi apenas uma influência para a história?
Gustavo Duarte. Eu gosto até hoje de monstros, filmes de monstros, quadrinhos… Mas a referência é bem esses filmes de heróis e monstros japoneses que eu assistia quando moleque, principalmente Spectreman – que até conta com uma referência dele dentro do quadrinho.
Lembro que minha avó tinha uma pastinha com desenhos dos netos. Eu fui o último neto, e ela fez uma para mim também. Uma vez, um pouco mais velho, lembro de ver essa pastinha, e boa parte dela era com monstros japoneses e super-heróis, que era o que eu gostava – e, de certa forma, continuei gostando.
Não é Tóquio, nem Nova Iorque. Por que escolher Santos como um lugar a ser invadido por monstros?
Gustavo Duarte. Santos é logo ali e foi a cidade de praia que eu mais fui na vida. A história tem algumas coisas típicas da cidade – a arquitetura, o Museu de Pesca, o deck, o Gonzaga, que são lugares que eu lembro quando moleque. Então, se eu fosse um carioca e morasse no Rio de Janeiro, talvez tivesse feito a história lá. Mas eu sou paulista, paulistano, morei minha vida inteira em Bauru, e a cidade de praia que eu mais ia era Santos mesmo. Minhas referências são de Santos; então, para mim, aquele murinho com os risquinhos e as bolinhas é minha infância. Nada mais justo que homenagear a cidade onde passei trocentos réveillons e várias férias.
Que diferença você vê entre Monstros! e seus outros trabalhos? Seria apenas o seu trabalho mais longo?
Gustavo Duarte. Deu mais trabalho (risos). Ela é maior, e eu acredito que eu esteja melhorando – a ideia é melhorar sempre. Tem algumas coisas a mais, mas ela é o que eu quero que seja e está no mesmo caminho, só que tem muito mais gente. Você tem a Có!, que é um personagem – tem galinha e alguns porcos –, tem a Taxi, que é basicamente o elefante e o músico, também com a participação de alguns jazzistas famosos e a banda do cara. Nesta, você tem os três monstros, tem o Pinô e várias cenas com personagens que eu separei um bom tempo para criar.
 
Capa de Monstros! e uma das páginas da HQ
Como você descreveria o Pinô? Por que escolher um herói tão fora dos padrões?
Gustavo Duarte. O nome “Pinô” vem do meu tio. Ele era o tio que me levava nos botecos. Quando era moleque, eu chegava em casa e meus pais falavam: "Tio Pinô mandou para você". Eles iam no Estalagem e tomavam um chopp, e o tio Pinô sempre tomava Steinhäger, que vinha naquela canequinha de louça ou na botinha, e ele me mandava. Eu achava aquilo o máximo e queria tomar aquilo quando crescesse. E eu cresci, e tio Pinô me levava para tomar. Tem uma ligação de boteco mesmo.
O [fato de o] herói ser um dono de bar e meio que um pescador vem um pouco disso. Eu gosto de bar, então achava legal ter um personagem dono de bar e que tivesse aquela coisa de pescador, da verdade e da mentira. E na história, você percebe que ele é um cara que gosta de contar história, de bater papo. Chega uma hora em que ele fica puto, não porque os monstros estão destruindo a cidade, mas porque não tem ninguém no bar, ninguém para prosear (risos).
Na nova HQ, vemos algumas brincadeiras, uns "easter eggs", de personagens de outros quadrinhos seus. Você pensou nisso na hora da produção ou quando o projeto ainda estava se desenvolvendo?
Gustavo Duarte. Gosto de brincar com isso. Algumas coisas você pensa antes, mas tem coisa que faz na hora. Por exemplo, a cena dos pescadores no final. Cada um deles é um músico de quem eu gosto. Peguei e fiz o esboço de três pescadores, aí eu falei "Espera lá, se vou fazer três pescadores, eu poderia fazer uma homenagem a alguém, mas quem?". Pensei em dois músicos que têm cara de pescador e outro que não tem cara, mas também coloquei ali.
Seriam o Roger do Ultraje a Rigor, o Flea do Red Hot Chilli Peppers e o Bi Ribeiro do Paralamas, certo?
Gustavo Duarte. Isso! O Flea tem uma cara de pescador: magrelo e cara de nordestino. O Bi, aquela barba, é uma barba de pescador total. E o Roger foi pela cota. Como o Ultraje é minha banda predileta, então podia colocar o Roger.
É impressionante… Todo mundo que vê, fala: “Pô, o Roger”. Porque o Bi, muita gente tem na cabeça a imagem dele sem barba. Quem é da geração 80 lembra dele com cabelão grande e sem barba. E o Flea, se o cara gosta de rock internacional, chega no Flea. Ele e o Bi parecem pescadores. E o Roger, tinha que ter – adoro Ultraje e tinha que colocar.
Nas suas HQs e charges, sempre há alguma relação com animais. Qual o motivo desse suposto fascínio pelos bichos?
Gustavo Duarte. Eu gosto de bicho! (risos) Acho que vem das influências de quadrinho, desenho animado. Eu sou desenhista porque um dia virei para minha mãe – vendo o documentário do Charlie Schulz – que eu quero ser isso quando crescer. Acho que eu tinha seis anos. A gente estava mudando de apartamento e ia passar um documentário sobre ele na Manchete – era um sábado. E foi isso: eu sentadinho num canto, vendo uma televisãozinha, e minha mãe sentou do meu lado para ver uns 15 minutos comigo. Daí, eu falei que quando crescesse queria ser isso.
Um das minhas maiores influências é o Charlie Schulz; outro é o Bill Watterson, que tem um tigre – o outro é um cachorro… [Outra influência é] o Pica-Pau, que eu acho uma das coisas mais geniais dos desenhos. Adoro Fernando Gonsales, também.
E, para finalizar, o que podemos esperar de novidades?
Gustavo Duarte. Tem a HQ do Chico [Bento, para a séria Graphic MSP – a primeira lançada foi do Danilo Beyruth, sobre o Astronauta]. Tenho já algumas coisas prontas, mas a coisa agora é sentar e amarrar no roteiro. Vou entregar para o Sidney [Gusman, editor da série] e ele vai aprovar ou não. Devo começar a desenhar em dezembro ou janeiro.
 
 
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