Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 13.05.2011 13.05.2011

Mônica Salmaso fala sobre a relação com o público e a crítica (parte II)

Por Diego Muniz

Fotos: Myriam Vila Boas

Leia continuação da entrevista exclusiva com Mônica Salmaso. A cantora acaba de lançar o sexto CD de estúdio, Alma Lírica Brasileira, pela Biscoito Fino, fruto do show com Teco Cardoso (sopros) e Nelson Ayres (piano). Se quiser voltar para a primeira parte da entrevista, clique aqui

Críticas e cobranças

Culturamente, as cantoras carregam o peso de lançar novos compositores. Como você se sente em relação a isto?

Mônica Salmaso. Queria saber onde está escrito, em qual constituição, que cantor tem que fazer isto como obrigação. Essa bula não existe para mim, sei que tem pessoas que pensam assim. Não me sinto obrigada a fazer, o que não quer dizer que não goste, ou que não procure. Procuro, ouço e me interessa, afinal é material de trabalho. Agora, o meu material é muito rico. Pensar em cantar só música do repertório brasileiro, seria muito, de todos os tempos e estilos que considero é algo infinito. O meu pensamento é ao contrario, jamais tiraria uma música que gosto porque está faltando alguém novo. Isso sim é um pensamento torto pra mim, porque não penso que tem alguém novo, médio, um conhecido e outro menos.

Você já recebeu críticas por não gravar compositores contemporâneos…

Mônica Salmaso. Acho muito agressivo alguém cobrar este pensamento de um artista, acho meio militar. A função é me expressar para as pessoas que escutam o meu trabalho. Como vou fazer isto, através do que, é problema meu. Pode até constatar que essa não é uma preocupação, não é uma negação de jeito nenhum, mas não é uma cobrança. Pra mim, fulanda de tal lançar fulando, tem o mesmo valor de fulano descobrir determinada música que estava escondidinha, é igual você estar aprensentando algo que as pessoas não conheciam e é bom. Então, realmente não vejo diferenças entre essas coisas e acho simplificado e até preconceituoso este pensamento.

Também pode ser um serviço à música por trazer coisas antigas para as pessoas mais jovens?

Mônica Salmaso. Isto é um resultado de uma curiosidade. Quando escuto uma música que gosto de algum jeito e na mesma hora é  como se estivesse escrito: ‘feita para Mônica’.

Assim, dificilmente você vai gravar uma canção inédita?

Mônica Salmaso. Não, o compositor pode me mostrar, eu gostar e gravar. O que tenho horror é de música por encomenda, não pediria nem para o Chico Buarque. É dificil dizer isto, a probabilidade de não gostar é mínima, mas já pensou que chato que vai ser? Mas isto não quer dizer que não possa ouvir uma coisa demo que chegue a mim. "Na Volta que O Mundo Dá", quando gravei ela era completamente inédita, mas o compositor [Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro] já tinha feito "Morena Tropicana". Mas, o Vicente Barreto tinha me mostrado na casa dele tocando. A Vanessa da Mata, quando gravei "Onde Ir", era uma fita demo que o Swami Jr. me mandou, achei linda e gravei. 

Como voce recebe as críticas?

Mônica Salmaso. Aceito total quando falam do trabalho. Tem uma coisa interessante, que li em um blog que tinha uma pessoa falando que eu cantava sem sal, meio sem emoção. Isso me fez pensar. Pô, tudo bem, não tenho que emocionar todo mundo, não é isso, mas o que será que essa pessoa está falando. Depois descobri que ela falava que o que a emociona é um tipo de interpretação mais viceral que eu não tenho; é bom você se conhecer. Tem cantoras que olho e falo ‘que lindo, que força’, mas não é a minha, se eu fizer, vai ficar feio e fake.

Por que você acha que algumas pessoas te acham séria?

Mônica Salmaso. Absolutamente não sei. Esta imagem pode ser por causa do repertório ou pelo início da minha carreira, quando tinha uma postura mais séria. Na verdade, era mais nervosismo do que seriedade. Tive a sorte gigante de fazer o primeiro disco com Paulo Bellinati, que na época já era um grande nome com carreira internacional e experiência. E sabia desta diferença que tinha entre a gente. Lembro que no show do Afro-Sambas usava vestidos longos, saltos e não falava quase nada. Nunca mais usei um salto, era uma coisa auto-afirmativa, de querer mostrar propriedade. Mas, meu público cresceu e, após 15 anos, esta marca ficou para trás.

A que se deve está mudança?
 
Mônica Salmaso.
Com o tempo, com os discos, com os trabalhos, com a vida e com o filho você vira outra pessoa. Hoje, estou muito mais à vontade e sinto que aquelas pessoas que estão ali assistindo estão para gostar, ninguém foi obrigado. Quer dizer, vou ter que decepcioná-las para elas não estarem ali. Não posso ter medo, então a gente dá risada juntos.


O trio

Viagens e público

A turnê do Noites te levou para um monte de lugar. O Alma vai chegar também?

Mônica Salmaso. Sempre trabalhei a partir de convites e isto me levou para muitos lugares, mas pontuais. A turnê [do Noites] foi diferente, desenhei um projeto onde eu passava por 21 cidades de todas as regiões, em teatros que queria estar, pela estrutura, pelo piano, pela alma do lugar. Este projeto foi desenhado para levar este trabalho para estes lugares com preços populares. Precisava que todos vissem, é uma coisa de mostrar um trabalho mais bem feito no lugar mais lindo para todo mundo ver. O projeto foi aprovado, ganhou patrocínio e a gente fez esta turnê desenhada inteiramente por nós, é bem diferente, você conduz os shows. Com isso, renderam 42 shows e foi o máximo. Mas só dá pra fazer com patrocínio, se acontecer, vou fazer como fiz.

Como foi essa experiência de rodar o Brasil?

Mônica Salmaso. Conheci cada teatro lindo e muitos não tinham mais programações. Tem cidades que tem palcos históricos, mas como abriram casas de shows para 4 mil lugares, as apresentações passaram a ser lá. Como o Alma Lírica tem esse espectro de templo de músicas de 1910, 1930, queria que ele acontecesse nestes lugares. Seria lindo cantar "Lábios que Beijei" no Teatro do Amazonas, amaria cantar no Santa Isabel, de Recife. Eu espero muito, estou acendendo velas. (risos)

Em uma entrevista você falou que não entendia muito bem o que era ser cantora. Quando você encontra um teatro cheio, entende?

Mônica Salmaso. Agora entendo. Minha resposta hoje seria diferente. Acho que hoje entendo o que é ser cantora, porque entendo exatamente a cantora que sou. Talvez isso aconteça em todas as profissões, a cantora que sou é diferente de uma expectativa da cantora que um monte de pessoas. Tem gente que tem outra expectativa, da diva. Eu não sou, sou meio formigueiro, mais trabalhadora, é diferente, não tem essa distância do glamour, não me sinto bem. Tem cantoras que se sentem protegidas, eu me sinto muito vulnerável com essa posição do cantor que não pode encostar. Hoje, entendo como funciona este lugar, esta turnê trouxe afirmação de que existe um lugar.

Maior do que você pensava?

Mônica Salmaso. Muito maior. Não esperava este tamanho. Fui com o intuito de chegar aos lugares e já estava conhecida; do tipo, ‘estamos te esperando há cinco anos’. Foi muito emocionante, e não é só numérico. A gente estava nos teatros em que as pessoas não estão lá comendo nem bebendo, é só o show que ela está indo ver, é muito especial. Cadeiras todas voltadas para onde a música vem. Uma vez, com o projeto Pixiguinha, fui para o Rio Branco e tinha muita gente lá. Eu fiquei doida, com vontade de perguntar pra cada um: ‘como foi que você conheceu?’ A gente fez um show em Santarém, no Pará, era um lugar meio adaptado, tudo difícil, e o lugar lotado e as pessoas cantando. Nos levaram em um programa de rádio, chegando lá, era um moço que vinha para São Paulo, copiava os discos dos amigos que ele achava legal e levava para tocar lá. Ele cavoucou lá na radio local de Santarém, um horário, um programa de uma horinha.

Próximos projetos

Você já está com projetos novos?

Mônica Salmaso. Talvez grave no segundo semestre, mas deve ser lançado só em 2012. Agora, estou atrás de patrocínio para a turnê do Alma Lirica Brasiliera, tomara que aconteça, ia amar viajar o País com ele.

É um CD com músicas de Guinga com Paulo Cesar Pinheiro?

Mônica Salmaso. Sim. É um projeto especial que apareceu, é a abertura de um baú de joias que estavam guardadas: as parcerias do Guinga com Paulo Cesar Pinheiro. Eu, naturalmente, me interessei, há canções que ‘pulavam’ pra mim dessa parceria, uma coisa de identidade. As músicas do Guinga têm um negócio nítido, uma refêrencia de uma cultura do choro, da valsa, de marcha rancho, do bolero e ao mesmo tempo têm um estranhamento, algo que é muito moderno, harmonicamente, no violão, a linha melódica, é muito autoral. E o Paulo Cesar Pinheiro, nestas letras, tem a mesma referência e respeito ao passado, mas cutucando o novo. Um dia, aconteceu de ouvir estas músicas, os dois me autorizaram e cheguei a este material. A maioria é inedita, mas há músicas de 30 anos atrás.   

Como está o processo?

Mônica Salmaso. Este é um disco que não sei que caminho vai tomar. É algo que quero me dedicar por agradecimento, por ter chegado nas minhas mãos. Estou com vontade de ampliar isto para um quinteto, com cordas e sopros. É um projeto que você faz e fala: ‘já fiz o que vim fazer aqui, posso virar escritora, apresentadora de televisão, já deixei um legado’.(risos)

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