Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.12.2010 16.12.2010

Moacyr Scliar, uma vida entre a literatura e a medicina

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

Médico que dedicou uma vida inteira à saúde pública, Moacyr Scliar é também um dos mais prolíficos escritores brasileiros. Entre romances, contos, ensaios, crônicas, ficção infanto-juvenil, além da produção relacionada à medicina, são 80 livros, muitos deles premiados com o Jabuti, o APCA, além do Casa de las Américas, prêmio concedido pela respeita instituição cubana. Gaúcho de Porto Alegre, sua família tem origem judaica, o que o liga a respeitável tradição do povo que deixou e deixa seu legado, história e memória através dos textos, a começar pelo Antigo Testamento. “Me fascina essa capacidade que têm estes autores anônimos de narrar uma historia com o poder máximo de síntese, uma economia verbal incrível. E, ao mesmo tempo, retratando os grandes dramas da condição humana”, afirma Scliar nesta entrevista exclusiva ao SaraivaContéudo. Além disso, é um profundo admirador de escritores como Philip Roth, Saul Bellow, Bernard Malamud, Isaac Babel, e aqui no Brasil de uma escritora como Clarice Lispector.

Na entrevista a seguir, além de abordar esta tradição, Moacyr Scliar comenta a relação constante e frequente que teve desde sempre com a leitura e a escrita, de como se deu a opção pela medicina e a literatura, como as duas dialogam e se ajudam mutuamente e como é fazer parte da Academia Brasileira de Letras (ABL).

 
> Assista à entrevista exclusiva com Moacyr Scliar para o SaraivaConteúdo

 

Quais as primeiras lembranças da leitura. O senhor foi alfabetizado em casa pela mãe, certo? Como era esse universo do livro na infância? 

Moacyr Scliar. Realmente, cresci no meio de livros e obcecado pela palavra escrita. Isso exatamente pelo fato de ter tido uma mãe que, apesar de migrante, era uma mulher extremamente culta, que cursou a escola, era professa e uma grande leitora. E deu para o filho dela o nome de um personagem de José de Alencar. Quer dizer, já cresci com esse recado de que era para ler e, se possível, escrever. Então desde muito cedo estava lendo, naturalmente os autores que a minha geração lia. Monteiro Lobato é um exemplo, Erico Verissimo, Mario Quintana, autores lá do Rio Grande do Sul – sou de Porto Alegre. E porque eu lia, comecei a escrever. Foram coisas que tiveram início quase simultâneo. Apenas alfabetizado, eu já estava escrevendo histórias. 

E o que o senhor escrevia nesta época, do que recorda? 

Scliar. Basicamente, histórias de crianças, baseadas nas minhas experiências, aventuras ocorridas no colégio, a ida para a praia, que era para nós, de Porto Alegre, uma aventura, histórias às vezes imaginárias. Em termos de gênero, seriam crônicas e contos. 

E a opção pela medicina, como se deu? 

Scliar. Essa surgiu posteriormente e de uma maneira até certo ponto curiosa. Fui para a medicina porque eu tinha medo de doença. Não é que eu fosse hipocondríaco, isso eu não era, até gostava de ficar doente, porque daí não precisava ir ao colégio. Mas quando meus pais ou meus irmãos ficavam doentes eu entrava em pânico. E essa sensação desconfortável e angustiante me levou a ler sobre medicina, a conversar com médicos. Nasceu daí um fascínio pela doença e pelo corpo humano, que acabou me levando à medicina. A par disso, havia a inquietude de um jovem estudante e militante, que também queria ter uma profissão caracterizada pela generosidade, pela doação pessoal. Isso fez com que, tendo terminado medicina, eu optasse pela saúde pública, a minha especialidade na qual trabalhei muitos anos. 

O senhor também foi professor universitário? 

Scliar. Fui professor universitário de saúde pública. Comecei trabalhando, primeiro como clínico, e trabalhava em um hospital de tuberculose. Como a tuberculose é um problema de saúde pública, daí a entrar na saúde pública propriamente dita foi um passo. Trabalhei toda a minha vida em saúde pública, em vários lugares: Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, Ministério da Saúde, Organização Panamericana de Saúde. E nos últimos anos me tornei professor da Faculdade Federal de Ciências Médicas, ensinava saúde pública, uma coisa que fazia com muito prazer. E nesta área, foi minha última atividade sistemática, continuo ligado à ela, participo de grupos de trabalho, mas agora a maior parte da minha atividade se direciona para a literatura. 

Como é esse diálogo, o que se leva, transparece da medicina para a escrita e vice-versa? 

Scliar. Muita coisa. É uma interface fértil, porque são duas atividades que têm em comum o interesse pela condição humana. É claro que, do ponto de vista da medicina, é um interesse mais pragmático, de resolver problemas. No caso da literatura, existe um componente estético, de criação literária, mas, realmente, a experiência médica dá muito para a atividade literária. E esta desenvolve uma sensibilidade que a medicina tende a perder devido ao seu aspecto tecnológico. Acho que esta situação foi muito bem resolvida por um médico escritor famoso, que foi Anton Tchecov, que dizia o seguinte: “A medicina é minha esposa, a literatura, minha amante. Mas eu dou um jeito de satisfazer as duas”. E eu acrescentaria: “E as duas satisfazem também a pessoa em dose dupla”. 

O senhor é de família judaica, isso transparece bastante em suas obras. E a tradição judaica, o senhor foi criado lendo estes escritores, que datam desde os profetas, digamos assim? 

Scliar. A tradição judaica, que é milenar, tem uma característica importante: não é, do ponto de vista cultural e artístico, uma tradição que se caracterize por obras de arte – ao contrário, a Bíblia até proibia a reprodução de figuras humanas –, grandes edificações do ponto de vista arquitetônico, monumentos, nada disso. Esse grupo humano legou para a humanidade basicamente um texto, que é o Antigo Testamento. E partir daí nasce uma tradição de veneração pela palavra escrita, que condicionou os rumos do judaísmo e explica porque tantos membros da comunidade judaica escreveram e escrevem. Inclusive, o número de vencedores do Prêmio Nobel é muito grande. Esse é aspecto, mas a outro: no Brasil, as pessoas de origem judaica frequentemente eram imigrantes, meus pais vieram da Rússia. Então eles tinham essa experiência da imigração, uma experiência importante, porque o imigrante é uma pessoa que olha a realidade brasileira de outra maneira. Ele vê coisas que as pessoas que nasceram e se criaram aqui muitas vezes não percebem. Esse olhar original para um ficcionista é muito interessante. Ver o Brasil através da experiência de quem vem de fora, de quem está descobrindo um novo mundo é uma fonte de inspiração. 

O senhor tem dezenas de livros publicados, em torno de 80, entre romances, contos, ensaios, novelas, novelas juvenis. Como é na hora escrever estes diferentes tipos de textos? 

Scliar. Olha, não é uma decisão difícil, entre ficção e não-ficção. Alguns temas, como o livro sobre a história da melancolia [Saturno nos trópicos (Companhia das Letras, 2003)], claro, tem que ser um ensaio. Quando escrevo sobre temas médicos ou de saúde pública, também tem que ser ensaios. Para o jornal, são crônicas. Quando escrevo para o público juvenil, uso os princípios da ficção juvenil. E quando se trata de conto ou romance, às vezes é possível que um conto se transforme em romance, mas em geral o conto já nasce pronto na minha cabeça. Eles são muito curtos e, em geral, escrevo de uma vez. Quando sento, escrevo o conto. Nunca volto, não começo um conto para continuar no dia seguinte. Quando eu escrevo, escrevo. Romance não, claro, é um projeto de longo prazo, e é bom que seja assim, pois ele é mais complexo, do ponto de vista literário, do que o conto. O que não implica em nenhum juízo de valor, o conto é um notável gênero. Diria que é o mais literário dos gêneros ficcionais.

Por quê? 

Scliar. Porque no conto, em primeiro lugar, se manifesta uma tendência arcaica do ser humano de contar histórias. Faz parte da nossa maneira de ser, da nossa humanidade, contar e ouvir histórias. Estas histórias que são contadas ou ouvidas inevitavelmente são curtas. O conto é um gênero curto e como tal, diferente do romance, não admite partes que podem ser mais fracas. No romance pode haver coisas que até certo ponto poderia se cortar. No conto, não. Nele, tudo é essencial. E o conto também, finalmente – este é o grande argumento, na minha experiência ao menos –, ou ele nasce bom ou nasce ruim. E quando ele nasce ruim, não há outra maneira senão acionar a tecla de deletar e acabar com ele. 

O senhor mencionou Tchecov, ele parece ser uma influência importante. Que outras coisas o influenciaram e marcaram quando o senhor leu?

Scliar. Em matéria de influência judaica, vários textos, vários autores, a começar pela própria Bíblia. Sou um leitor da Bíblia, mas não um leitor religioso e, sim, um leitor literário, me fascina essa capacidade que têm estes autores anônimos de narrar uma historia com o poder máximo de síntese, uma economia verbal incrível. E, ao mesmo tempo, retratando os grandes dramas da condição humana. E vários escritores, desde aqueles que escreveram em língua iídiche, hoje um idioma praticamente instinto, mas literariamente belíssimo, até escritores como Philip Roth, Saul Bellow, Bernard Malamud, Isaac Babel, e aqui no Brasil uma escritora como Clarice Lispector. Porque é uma coisa curiosa, embora Clarice não aborde a temática judaica, o judaísmo está nas entrelinhas dos textos dela. Estes escritores foram importantes na minha formação. 

E o senhor faz parte da Academia Brasileira de Letras (ABL). Como é estar numa casa que carrega o peso de tantos escritores que por ali passaram?

Scliar. Como não moro no Rio de Janeiro, só vou às reuniões e naquelas que eu posso, evidentemente. Mas ao entrar na Academia, passo pela estátua do Machado de Assis. Está ele sentado, com aquele olhar severo, como quem diz: “Trata de escrever bem, porque estou cuidando”. A Academia é, em primeiro lugar, uma instituição muito antiga no Brasil, um país novo, tem mais de 110 anos, passaram grandes nomes por lá. Agora, claro, tem aqueles aspectos que a gente sabe, aquelas tradições da Academia, moldadas muito na Academia Francesa, o fardão e essas coisas todas que fazem parte de um sistema ritualístico, que tem pouco a ver com literatura. E também tem as vinculações extraliterárias da Academia, que as pessoas criticam muito, às vezes com razão. Mas eu diria que a Academia retrata o Brasil, naquilo que ele tem de grandioso, mas também naquilo que tem de menos grandioso.

 

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