Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 30.07.2012 30.07.2012

Miranda July prova que ser estranha e interessante é para poucos

Por Carolina Cunha
 
Miranda July tem problemas para responder qual é a sua profissão. Aos 38 anos, a americana é mais conhecida como cineasta. O que não revela muito. Além de roteirizar e dirigir seus dois filmes, também atuou nos papéis principais. Mas poderia falar que é escritora, performer, artista plástica e atriz. Ou tudo isso ao mesmo tempo.
 
Ela sente vontade de fazer muitas coisas. E realmente faz. Quando tem ideias, gosta de anotar em um caderno. Cada página ganha uma letra: “N” para novela, “P” para performance, “M” para filme e “I” para ideias em geral.
 
Ela escreveu o roteiro do seu primeiro longa-metragem ao mesmo tempo em que redigiu os textos do seu primeiro livro. E foi premiada com os dois. O filme Eu, Você e Todos Nós (2005), que mostra um romance entre uma artista solitária e um vendedor de sapatos, ganhou prêmios nos festivais de Cannes e Sundance, e ela logo foi apontada como uma das cineastas mais interessantes da cena independente.
 
A fama cresceu ainda mais em 2007, com seu livro de estreia É Claro que Você Sabe Quem Está Falando, uma seleção de contos originalmente publicados em revistas como a The New Yorker e a Paris Review. A obra recebeu críticas rasgadas e abocanhou o Frank O´Connor, importante prêmio literário.
 
A RAINHA DO QUIRKY
 
Miranda chama atenção por muitas coisas. Não por seus cabelos enrolados e olhos azuis ou por gostar de nomear suas obras com títulos grandes, como o curta-metragem Are You The Favorite Person of Anybody?
 
É o universo das suas histórias que a torna única. Tanto que ganhou da imprensa americana o apelido de rainha do quirky, expressão usada para designar um gênero de filmes que trazem personagens desajustados e curiosos, como Juno e Pequena Miss Sunshine. Mas nada em Miranda é óbvio como um rótulo.
 
Atraída pelo realismo mágico, suas histórias trazem situações que parecem insignificantes, mas que tomam um rumo inesperado. Seu trabalho parte sempre das pequenas confidências e angústias diárias que se escondem na rotina. Seus personagens não são heróis e habitam um mundo onde ninguém é descolado. São pessoas comuns, vivendo com naturalidade situações bem incomuns.
 
No livro É Claro que Você Sabe Quem Está Falando, a escritora apresenta ao leitor um grupo de velhinhos que tem aulas de natação no chão da cozinha da casa da professora. Existe ainda uma mulher que alimenta uma paixão platônica pelo príncipe William, inventando planos para conhecê-lo. E mulheres que fazem terapia em grupo para aprender a desenvolver o seu lado romântico.
 
As narrativas curtas brilham não porque são bem escritas, e sim porque são interessantes. “Você tem dúvidas a respeito da vida? Não está muito certo de que ela valha a pena? Olhe para o céu: ele está lá para você. Olhe para o rosto de cada pessoa com quem você cruzar na rua: esses rostos estão lá para você…”, escreve ela no conto O quintal compartilhado.

 
UM LIVRO POR ACASO
 
Para Miranda July, não basta ter apenas curiosidade, é preciso experimentar. E, às vezes, a criatividade pode surgir até mesmo da falta de inspiração.
 
Em 2009, recém-casada com o diretor Mike Mills e já morando em Los Angeles, Miranda precisava terminar o roteiro para o seu aguardado segundo filme, O Futuro. Encarando a tela em branco do computador por horas, ela teve que admitir: estava batalhando contra um bloqueio criativo. Mas lembre-se, nada é óbvio nela.
 
Enquanto adiava o projeto, ela passava o tempo lendo um jornal de classificados de objetos usados. Quem seria a pessoa por trás da “jaqueta preta grande”? Saber quem eram esses vendedores era importante. Ou, pelo menos, falar com estranhos parecia uma boa distração.
 
Cena do filme O Futuro
Miranda July em Eu, Você e Todos Nós
 
Acompanhada pela fotógrafa que trabalhou em seu casamento, Miranda marcou entrevistas para conhecer as pessoas que estão por trás dos objetos.
 
O homem que vendia a jaqueta era um sujeito de sessenta e poucos anos que estava passando por uma mudança de sexo. A mulher que anunciava álbuns de retratos era uma grega que colecionava fotos de estranhos em férias. E o vendedor de girinos, um adolescente tímido que sonhava em ser cientista.
 
Os encontros a ajudaram a finalizar o roteiro e foram parar no livro It Chooses You, publicado nos EUA no ano passado e a venda no Brasil na língua original. A obra traz as entrevistas e reflexões de Miranda July sobre as histórias que viu e de como elas se conectam com a sua própria realidade (e neuroses).
“Tudo o que eu quero é saber como as pessoas estão vivendo suas vidas. Onde elas deixam seu corpo, hora a hora, e como eles se viram dentro dele”, escreve Miranda.
 
O Futuro estreou em 2011 e traz um jovem casal que adota um gato doente. Tendo que esperar um mês para buscar o bichano no abrigo, a dupla entra numa crise conjugal. Apesar das boas intenções, eles têm medo de não conseguirem cuidar de outro ser vivo. Então, por 30 dias, decidem viver suas vidas como se o mundo estivesse acabando.
 
Quem assistir ao filme reconhecerá Joe, um dos personagens de It Chooses You. Ele é um senhor idoso que interpreta a si mesmo, um homem que vende cartões de Natal. No filme, é ele quem vende o secador de cabelo para o protagonista.
 
No vídeo abaixo, Miranda entrevista Joe, personagem de It Chooses You. Assista:
 
 
O INÍCIO, DE UMA RIOT GRRRL A CINEASTA
 
Miranda escreve desde criança, tendo começado sua carreira artística no início dos anos 90, quando era uma jovem feminista de cabelos descoloridos que fazia performances cênicas em clubes punks das cidades de Berkeley e Portland, ambas nos EUA.
 
Ao mesmo tempo em que dividia o palco com bandas de garotas como Sleater-Kinney e Chicks on Speed, ela apostava na criação de curtas-metragens caseiros. Um dos seus projetos foi criar uma rede de troca de fitas VHS com outras jovens mulheres que estavam fazendo seus próprios vídeos.
 
Suas performances misturavam vídeo e música e algumas chegaram a ser gravadas nos álbuns 10 Million Hours a Mile (1997) e The Binet-Simon Test (1998), uma colagem barulhenta com música e diálogos, que ela chama de “novelas de rádio cinemáticas”.
 
 Detalhe da performance Love Diamonds, 1996
 
Começou a se apresentar em teatros e museus de arte contemporânea, conquistando fama por suas instalações de vídeo. Depois, participou de oficinas de criação no Sundance Institute, que patrocinou o roteiro de seu primeiro longa-metragem, após várias tentativas frustradas.
 
Outro lado de sua arte é seu fascínio pela participação do público. Em 2002, Miranda criou na internet o projeto colaborativo “Learning to Love You More”, uma parceria com o artista Harrell Fletch, que convida as pessoas a compartilharem sentimentos.
 
Antes mesmo de existir a moda das missões no Instagram, Miranda pedia para os internautas realizarem tarefas inusitadas como “tirar uma foto dos seus pais se beijando”, “cultivar um jardim num local inusitado” ou “fazer uma trança em alguém”. O projeto interativo teve 70 missões e durou sete anos, contando com a participação de mais de oito mil pessoas. Qual foi a última tarefa? Dizer adeus.
 
 
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