Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 04.07.2013 04.07.2013

Milton Hatoum discorre sobre a autocrítica e a temática do sofrimento de Graciliano

 
 
 
 
 
Por Andréia Martins e Carol Cunha
 
“Graciliano tinha fama de ser áspero, um cacto, mas um cacto humanizado”. Foi assim que o escritor amazonense Milton Hatoum iniciou a conferência de abertura da Festa Literária de Paraty (Flip), nesta terça-feira (3), uma mesa inteiramente dedicada ao escritor Graciliano Ramos, o homenageado da edição deste ano. Com a Tenda dos Autores lotada, Hatoum deu uma aula sobre a obra do alagoano.
Aspereza de lado, Graciliano também era afetuoso entre amigos e parentes, mas quando tratava de si mesmo, não poupava ironias e cobrança. Certa vez, em carta ao crítico Antônio Cândido, sentenciou: “Angústia é um livro mal escrito”.
“O tempo – que é também o tempo de leitura – mostrou que a autocrítica severa do autor foi um equívoco. A autocrítia de Graciliano era obsessiva e implacável”, disse Hatoum. Publicada em 1936, Angústia abriga duas fortes temáticas na obra do escritor alagoano: a miséria humana e a miséria social. E para Hatoum, é um dos romances mais complexos da literatura brasileira.
Nascido em Quebrangulo, Alagoas, Graciliano dedicou boa parte de sua obra às vidas vividas na seca e sujeitos ao coronelismo, à problematização de uma região atrasada como o Nordeste da primeira metade do século 20. Político, criticava os que não se doavam a uma boa gestão, duvidou certa vez de um cumprimento de “boa noite” e era conhecido pela verve democrática nos anos em que foi prefeito. Como escritor, tinha “ojeriza da fala pomposa”, tinha uma linguagem clara e precisa, e era chamado de “meticuloso”, pelo crítico Otto Maria Carpeaux.
 
                                                                            Crédito/Walter Craveiro / FLIP 2013
Milton Hatoum iniciou uma mesa inteiramente dedicada ao escritor Graciliano Ramos
Hatoum apontou para a necessidade que boa parte dos personagens do autor têm de escreverem suas memórias. “Exceto Vidas Secas – narrado na terceira pessoa – os protagonistas dos romances de Graciliano são narradores contrafeitos, quase coagidos a escrever suas memórias. Ironicamente, enquanto as escrevem, criticam a palavra ardilosa de certos literatos”, disse Hatoum.
O próprio Graciliano seguiu por esse caminho em Memórias do Cárcere, relato dos dez meses que passou na cadeia como preso político, e em Memórias de Infância, que segundo o palestrante, “descreve o tempo da descoberta do mundo”, relembrando vaqueiros, fazendeiros e personagens de uma sociedade patriarcal e arcaica.
O estilo e a composição dos personagens também foram temas abordados por Hatoum na obra de Graciliano. Para ele, o alagoano “desenvolveu uma forma estética que diz muito, e em profundidade, tantas injustiças. Personagens como Paulo Honório (São Bernardo), Luís da Silva (Angústia) e Fabiano (Vidas Secas) são personagens que têm em comum o sofrimento”.
Os contrastes, humanos e sociais, explorados na obra de Graciliano eram o retrato do Brasil entre as décadas de 1920-1930, quando o alagoano começou a publicar seus livros. “E por que não do Brasil de 2013?”, provocou Hatoum.
Até o final da Flip, no dia 7, Graciliano, que em outubro faria 120 anos, será tema de outras mesas e homenagens, além da exposição Graciliano Ramos: a ética da escrita, onde o seu jeito simples de escrever é destacado. Como ele mesmo dizia: “A palavra não foi feita para enfeitar ou brilhar”.
 
 
 
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