Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.09.2013 24.09.2013

Milly Lacombe, a contadora de (boas) histórias

Por Priscila Roque
 
“Se alguém ler duas linhas de um texto meu e for embora, eu falhei”. Permeada pelas dores e cicatrizes humanas, Milly Lacombe desafia seus personagens e até a si própria quando se senta em frente ao computador para escrever. “A única coisa que passa na minha cabeça é: eu tenho que contar uma boa história”, diz.
 
Seus textos em tom literário, tanto para a coluna mensal da revista TPM quanto para seus livros são recheados de detalhes e, vez ou outra, levam algumas metáforas e ironias que relacionam o futebol ao cotidiano. E não é à toa.
 
Com um pai que era jornalista, Milly criou um elo com as palavras ainda criança – e com o Corinthians também. “São as minhas primeiras memórias de infância: futebol e escrever. Não sei qual delas veio primeiro, mas posso dizer que são duas das minhas maiores paixões na vida”, conta.
 
Sua primeira biografia, Mara Gabrilli – Depois Daquele Dia (Benvirá), chega às lojas na semana que vem. O livro mergulha no universo de conquistas e dificuldades da publicitária e política Mara Gabrilli.
 
Milly explicou ao SaraivaConteúdo esse elo tão profundo que tem com os livros e a dedicação que dispõe para contar histórias. 
 
O seu primeiro livro veio perto dos 35 anos. Com a paixão pela escrita desde a infância, por que a publicação mais tardia?
 
Milly. Demorei muito para aceitar que havia no meu talento uma carreira. Eu cresci ouvindo a minha mãe dizer que jornalismo não era profissão e que aquilo não sustentava ninguém. O fato é que só com 30 anos eu aceitei que isso era uma carreira. Fui morar na Califórnia [Estados Unidos] e de lá comecei a escrever para revistas brasileiras. Com 34 anos, escrevi o meu primeiro livro com a Costanza Pascolato – Como Ser uma Modelo de Sucesso. Depois, fiz um sobre sexo, o Segredos de uma Lésbica para Homens. E então eu fiz um livro com o Raí sobre futebol, o Para Ser Jogador de Futebol. Agora, finalizei a biografia da Mara Gabrilli. Junto disso, sempre fazendo matérias para revistas.
 
Você chegou a guardar textos mais antigos?
 
Milly. Não. Quando entrei [no curso] em Rádio e TV, descobri que “não sabia escrever”. O meu primeiro texto teve uma nota muito baixa, e isso me chocou profundamente. A professora, então, explicou-me que eu não tinha seguido as regras do jornalismo. Quando eu entendi que o texto era quase uma fórmula matemática, disse: “Estou fora”. Desse dia até eu ir morar nos Estados Unidos, neguei a escrita em mim. Eu não sabia que era possível inventar uma nova forma de escrever. Quem me ensinou isso foram o Paulo Lima e o Carlos Sarli, da Trip. Se não fosse a Trip, não teria existido como escritora.
 
A biografia da Mara Gabrilli é totalmente diferente dos demais livros que você já fez. Como foi esse processo de produção?
 
Milly. Foi muito difícil. Primeiro porque a história é arrebatadora. O perfil da Mara é um pênalti sem goleiro, ou seja, eu não posso não contar bem essa história se ela é fascinante. A minha obrigação era fazer o gol. Precisei respeitar cada uma das pequenas passagens dela, com os diálogos que estava recriando, as cenas… Foi uma responsabilidade muito grande.
 
Biografia de Mara Gabrilli
 
E como contar a história de um deficiente físico sem ser piegas?
 
Milly. Quando comecei a contar a história da Mara, nós decidimos que ela não poderia ser citada como supermulher. Ela seria, inevitavelmente, porque o que a Mara fez e o que aconteceu realmente foi sobre-humano. Mas eu tinha que contar também as chatices dela, as falhas, as brigas… Então, têm situações mais cômicas, outras mais trágicas, e há horas que a gente fica com raiva dela. Aí é muito fácil olhar a Mara, depois de um tempo, não andando em uma cadeira de rodas. É nessa hora que você vê que a gente está aqui na mesma. No livro, tem um personagem que faz esse dueto do mal com ela, que é a mãe. Ela ignora que a Mara tem uma deficiência física.
A mãe nunca a tratou como cadeirante. Em algumas passagens é bastante cruel. Mas, ao mesmo tempo, isso ajudou a formar essa Mara “eu posso tudo”, sabe?
 
A Mara foi uma das pessoas que você mais conheceu em menos tempo. O que isso trouxe para a sua vida?
 
Milly. Não vou mais ser a mesma pessoa que eu era antes de conhecê-la. Ela me deu um parâmetro que eu não tinha na vida. A Mara foi tão fundo no universo das dores e voltou forte. Eu corria o risco de ser piegas no livro porque essa mulher nunca reclamou de nada. No dia em que acordou com o pescoço quebrado no hospital, sem falar, ela riu. O médico contou isso. Ela reclama de outras coisas, coisas que eu e você reclamamos. Mas, da condição, ela nunca reclamou.
 
O que é imprescindível ao fazer um perfil?
 
Milly. Acho que é buscar as dores. O que nos une como seres humanos é a dor. Na dor a gente tende a mostrar um lado bonito que nós temos. Eu não acho que um texto possa escapar disso, senão vira assessora de imprensa. Trazer as cicatrizes à tona. É isso que pode fazer com que as pessoas se identifiquem com o personagem.
 
 
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