Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.04.2014 17.04.2014

Militares, intelectuais e políticos desfilam um Brasil revoltoso em ‘1789’

Por Marcelo Rafael
 
Em seu segundo livro sobre História do Brasil, o jornalista Pedro Doria destrincha a Inconfidência ou Conjuração Mineira, falando sobre seus principais atores políticos.
No dia da Derrama, quando Portugal apertou o cerco sobre a cobrança de impostos do ouro no Brasil, quase estourou a revolução de Tiradentes. O ano era 1789, título do livro sobre o qual Doria conversa um pouco agora.
Por que você decidiu contar a história da Inconfidência Mineira?
Pedro Doria. Eu comecei a escrever sobre História porque queria aprender sobre a História do Brasil. Eu acho que todos nós, brasileiros, trazemos da escola uma deficiência, a gente aprende muito mal a nossa História. Meu primeiro livro [1565] pega os séculos XVI e XVII, e eu queria chegar ao século XVIII. O que tem no século XVIII de mais interessante? O que rende uma boa história e ao mesmo tempo explica alguma coisa sobre o país e ajuda a compreender o Brasil de hoje? Logo no início da pesquisa, ficou muito claro: era a Inconfidência Mineira. Ela é, provavelmente, o ponto-chave do século XVIII na História do Brasil. E foi por isso que eu fui para lá.
Como jornalista, você está acostumado a lidar com fontes vivas, à sua frente. Como foi lidar com fontes “mortas”, os documentos?
Pedro Doria. No fim das contas, o processo de apuração é o mesmo: você procura a voz dessas fontes. E onde está a voz dessas fontes? Está nos documentos. No caso da Inconfidência, em particular, existe impresso em 10 volumes, os Autos da Devassa, que é o processo [contra os inconfidentes]. Estão lá todos os depoimentos, você tem a voz deles, todos os inconfidentes contando o que aconteceu, discordando: “Aí, o Fulano falou isso!”, “Não, não foi bem assim!”… Às vezes, tem acareações… Talvez, de certa forma, não seja muito diferente do que faz o jornalismo policial quando se pegam os autos de um processo e começa a ler os depoimentos: “E foi crime!”, “Não foi!”… E isso te permite construir uma narrativa muito rica, porque você tem diálogos inteiros, coisas que aquelas pessoas realmente falaram.
Foi preciso viajar para Portugal? Você usou documentos portugueses?
Pedro Doria. Eu tenho alguns documentos portugueses, e não é difícil você conseguir porque, hoje, a maior parte dos arquivos, tanto da Torre do Tombo, em Portugal, quanto da Biblioteca Nacional, aqui no Brasil, está na internet. Com uma boa busca no Google, você encontra.
O que você descobriu de mais interessante durante a pesquisa?
Pedro Doria. Ah, muita coisa. Para começar, eu não tinha noção de como aquela revolução, por muito pouco, não aconteceu. E se, de fato, tivesse acontecido, a gente não ia falar de duas grandes revoluções no século XVIII. Íamos falar de três: a Independência dos EUA [em 1776], a Revolução Francesa [1789-1799] e a Brasileira. E teríamos participado de um momento muito chave na História, em que as Repúblicas estão nascendo e o Velho Regime está se dissolvendo; estaríamos entre os inventores do que é uma República Moderna. Seria um país muito diferente. Outra descoberta foi o verdadeiro Tiradentes. Ele não é um mistério para historiadores, mas a História que a gente aprende na escola foi muito mitificada. Na Ditadura [Civil-]Militar [1964-1985], existia o Tiradentes militar, fardado, com cara de galã; no início da República [1889] e da Era Vargas [1930-1945], era quase um santo, com barba longa, devotado ao povo; pós-Ditadura, era o inocente útil, marionete na mão de poderosos; e o que não é nenhuma dessas pessoas. Ele era um homem feio, alto, era homem do tipo que se empolga muito. Sabe aquele sujeito que acredita em certas coisas e se empolga, começa a fazer discursos? Esse era o típico Tiradentes.
 
Reconstrução de Tiradentes, presente no livro, segundo as informações levantadas por Doria
Você acha que, se ele não tivesse confessado participação na conjuração…
Pedro Doria. …não teria sido enforcado. Portugal se esforçou muito pra condenar a menor quantidade possível de pessoas à morte. Agora, isso não quer dizer que os outros tenham passado por bons bocados. Cláudio Manuel da Costa, que era um advogado extremamente importante em Minas e que era um dos nossos grandes poetas, foi, talvez, nosso 1º Vladimir Herzog [jornalista, crítico da Ditadura, encontrado morto, supostamente por suicídio, em sua cela em 1985. A pedido da Comissão Nacional da Verdade, sua morte foi alterada para “maus-tratos e lesões” (tortura), em 2012]. Cláudio presta um depoimento em que incrimina pessoas importantes e, dois dias depois, aparece enforcado dentro da cela. Tiradentes não foi o único que morreu por conta da Inconfidência e, praticamente, nenhum deles teve uma vida fácil no exílio. As punições foram muito duras.
A conjuração, apesar dos intelectuais, já não demonstra uma antiga promiscuidade entre militares e a política no país?
Pedro Doria. Você não faz uma revolução sem gente armada, sem conhecimento militar.
Mas nem sempre ela é encabeçada por um militar, como Tiradentes.
Pedro Doria. Mas é difícil dizer que a Inconfidência Mineira era um movimento encabeçado por militares. A gente não tem certeza de quem eram os cabeças. A Inconfidência são três grupos que, em um determinado momento, juntam-se e têm interesses em comum. O primeiro é o dos militares: o Exército Mineiro, do comandante ao mais reles soldado, está com os inconfidentes. O segundo grupo é o dos homens ricos de Minas. Você precisa, numa revolução, de poder militar e de muito dinheiro. O terceiro grupo é o dos intelectuais, entre eles os três grandes poetas: Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga. E por que você precisa de intelectuais? Porque você está inventando uma república liberal no meio do Iluminismo. Você tem que ter pessoas que conhecem leis, ideias, filosofia e que vão saber inventar esse regime novo. Eu não diria que existia uma promiscuidade [entre militares e o poder]. Os militares são importantes, mas eu não sei se dali sairia uma República militar.
No livro, por que você não toca tanto na Maçonaria?
Pedro Doria. Mais para o fim, eu falo sobre a Maçonaria. A gente não tem como afirmar que ela teve parte importante na Inconfidência. Ela aparece em dois momentos: com o Joaquim da Maia, um estudante brasileiro, carioca [que estuda] em Montpellier, uma universidade de Medicina na França. Usando contatos maçons, ele chega ao Thomas Jefferson, que é o autor da Declaração de Independência dos EUA e que, na época, servia como embaixador dos EUA em Paris. Maia procura Jefferson para pedir apoio. Jefferson não era maçom, mas muitos dos revolucionários norte-americanos eram. Um dos inconfidentes, que é o Maciel, um estudante brasileiro, se confessa maçom durante os depoimentos do processo. Ele é o único que nós podemos afirmar: “Esse era maçom”. É possível que a Maçonaria estivesse envolvida. Não é possível afirmar isso. Nós sabemos que esse inconfidente era maçom, mas que já veio maçom da Europa.
Para a geração atual (principalmente jovens), o que livros de História como este podem ensinar?
Pedro Doria. A Inconfidência é a eterna promessa do que poderia ter sido. O Brasil teria sido um país muito diferente se tivéssemos conquistado a nossa independência com nossas próprias mãos.Em vez disso, a família real portuguesa nos entregou de presente a Independência. E quando o fez, construiu um país seguindo seus próprios objetivos. Teria sido uma guerra provavelmente sangrenta, mas teríamos tido um país diferente. A Inconfidência é aquele momento histórico que nós sempre revisitamos em momentos de transição: do Império para República, no início da Era Vargas, no início da Ditadura e depois em seu final. A História por trás é: “Olha, isso aqui é o símbolo do que o Brasil poderia ter sido, o quê nós devemos procurar”. E, de certa forma, nós estamos vivendo uma fase de transição, estamos vivendo nosso período democrático mais longo da História. Talvez seja o momento de, enfim, fazermos cumprir os ideais daquele movimento mineiro de tanto tempo atrás.
 
Assista ao booktrailler do livro 1789, de Pedro Doria:
 
 
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