Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Livros / Outros 22.04.2021 22.04.2021

A vida e as aventuras de Miguel de Cervantes, o autor de Dom Quixote de La Mancha

Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em 29 de Setembro de 1547 em Alcalá de Henares, na Espanha, e faleceu em 22 de Abril de 1616 em Madri. Autor de um dos maiores clássicos da literatura ocidental, Dom Quixote de La Mancha, Cervantes foi romancista, dramaturgo, poeta, soldado, duelista, prisioneiro de piratas e quase foi vendido como escravo, entre outras peripécias, tendo uma vida quase tão interessante quanto o grande livro que escreveu.

A vida de Cervantes como soldado, participando de duelos e batalhas reais, onde se feriu gravemente, talvez tenha lhe dado uma parte da inspiração, ou uma certa autoridade, para criar seu famoso personagem, Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura, e satirizar com tanta força as novelas medievais e os ideias de cavalaria, com seus heróis bravos, perfeitos e invencíveis, o que lhe garantiu a posição de um dos maiores escritores de todos os tempos.

A Vida de Miguel de Cervantes

Miguel era filho de Rodrigo e Leonor de Cortinas. A data exata de seu nascimento é controversa, mas supõe-se que seja o dia 29 de Setembro por ser o dia em que se celebra a festa do Arcanjo São Miguel. Na Espanha da época, havia o costume de batizar as crianças com o nome do santo a que era dedicado o dia em que nasceram.

O pai de Cervantes era um cirurgião com uma grave deficiência auditiva, o que é considerado o motivo de a família constantemente passar por dificuldades financeiras, então não se sabe se Miguel de Cervantes teve uma educação formal.

O duelo de Miguel de Cervantes com Antonio Sigura e a fuga para a Itália

Em 1569, aos 22 anos, Miguel de Cervantes se envolveu em um duelo contra Antônio Sigura , para defender a honra de sua irmã mais velha, Andrea de Cervantes, que era mãe solteira, algo não muito bem aceito pela sociedade espanhola do século XVI. Cervantes apunhalou duas vezes a cabeça de Sigura, e achou que o tivesse matado, o que o colocava em terríveis problemas, já que duelos eram proibidos, e assassinatos, puníveis com a morte.

Sigura não morreu, mas pelo crime cometido, Cervantes foi julgado e condenado por um tribunal a ter a mão direita amputada e a ser exilado por 10 anos. O julgamento foi à revelia, já que àquela altura, ele já havia fugido para a Itália.

Em Roma, Cervantes foi empregado por um ano como servo do Cardeal Julio Aquaviva, e sob sua proteção, teve contato com grandes autores clássicos romanos, como Horácio e Virgílio, bom como com deus descendentes intelectuais italianos, Dante, Petrarca e Boccaccio.

Miguel de Cervantes, soldado e aventureiro

Cervantes estava no lugar e momento certo para seguir uma carreira na literatura, já que a Itália do Renascimento era o lugar de maior efervescência cultural na Europa Cristã naquela época. Mas o chamado da aventura foi mais forte para o jovem espanhol de sangue quente.

Em setembro de 1571 embarcou para Nápoles para, junto com seu irmão Rodrigo, embarcar na expedição naval da Santa Liga, formada pela Espanha, Estados Papais, Malta, Veneza e Gênova, reinos cristãos que enfrentariam os Turcos Otomanos na célebre Batalha de Lepanto.

Lepanto foi a maior batalha naval no Mar Mediterrâneo desde a era do Império Romano, e nela se envolveram mais de duzentas embarcações, com 1,250 canhões e 90.000 homens do lado dos reinos cristãos. Não se sabe o número de soldados do lado Império Otomano, mas os turcos contavam com 221 embarcações e 750 canhões.

Cervantes, mais entusiasmado do que qualificado como combatente, não era um soldado experiente o suficiente para se juntar às tropas de assalto, que faziam os combates corpo a corpo, além de estar de cama , com febre, até poucos momentos antes da batalha começar, e foi designado para um esquife, um navio de onde se alvejava os inimigos com explosivos e tiros de arcabuz.

Durante a batalha, Miguel de Cervantes foi atingido por estilhaços no peito e na mão esquerda, que ficou inutilizada e lhe valeu o apelido de O Manco de Lepanto.

Miguel de Cervantes, prisioneiro dos piratas

Após ser ferido na Batalha de Lepanto, Cervantes passou um ano em um hospital na Sicília, antes de ser reintegrado ao Exército e participar de novas campanhas militares. Em 1575, quanto decidiu voltar à Espanha, embarcou em um navio em Nápoles, que foi atacado por piratas, que o levaram prisioneiro para Argel, no Norte da África.

Os piratas costumavam capturar as pessoas para vende-las como escravas. Cervantes só escapou desse destino porque carregava cartas de recomendação assinadas por Dom João de Áustria, o comandante militar da Santa Liga e vencedor da Batalha de Lepanto e do vice-rei da Sicília. Por isso, os piratas acreditaram  que ele pertencia a uma família rica e influente, e resolveram pedir resgate por ele.

Cervantes tentou escapar quatro vezes, mas falhou em todas. Foi somente em 1580 que sua família, contraindo grandes dívidas, conseguiu pagar o seu resgate, e após 5 anos de cativeiro ele voltou à Espanha, chegando a Madri.

O Casamento de Miguel de Cervantes

Logo depois de voltar do cativeiro dos piratas, Cervantes passou dois anos em Lisboa, período em que aproveitou a União Ibérica, momento em que a Dinastia Portuguesa de Avis terminou e o Felipe II, o rei da Espanha, se tornou também rei de Portugal, para tentar ganhar os favores do rei.

Miguel não conseguiu se tornar o favorito do Rei Felipe II, mas consta que se divertiu muito em Portugal, descrevendo Lisboa como uma cidade de pessoas agradáveis, corteses e liberais, embora discretos. A beleza das mulheres fez com que dissesse: Para festas, Milão. Para amores, Lusitânia.

Depois de algum tempo, Cervantes retornou à Espanha, e há rumores que teve uma filha chamada Isabel, fruto de um relacionamento com Ana Franca de Rojas, uma taberneira. Esse caso amoroso e a paternidade de Isabel nunca foram confirmados, permanecendo como um dos vários pontos obscuros na vida de Miguel de Cervantes.

O único fato realmente confirmado é que em dezembro de 1584 Miguel de Cervantes se casou com Catarina Salazar, indo morar em uma região chamada La Mancha, terra natal de sua esposa e também de Dom Quixote,  um dos mais famosos personagens da literatura mundial.

O escritor Miguel de Cervantes

Na Mancha, Miguel de Cervantes e começou a se dedicar ao teatro, e com a ajuda de um pequeno, mas influente, círculo de amigos, publicou em 1585 uma novela pastoral chamada A Galatea,  mas tentava uma carreira no teatro. Entretanto, Cervantes não conseguiu atingir o sucesso nos palcos, sendo ofuscado por outro autor que fazia muito sucesso na época, Lope de Vega.

Novamente em dificuldades financeiras, a solução que encontrou foi novamente a carreira militar, dessa vez se empregando na Invencível Armada, a esquadra de navios que o Rei Felipe II da Espanha montava para invadir a Inglaterra.

A função de Cervantes na Invencível Armada era a de arrecadas mantimentos, como azeite e óleo, mas tudo deu muito errado. Não somente os ingleses derrotaram os espanhóis no Canal da Mancha, em 1588, como Cervantes foi acusado de malversação dos recursos arrecadados.

A criação de Dom Quixote de Mancha aconteceu atrás das grades

Miguel de Cervantes foi acusado de manejar mal os recursos arrecadados para a Invencível Armada, e em 1587, condenado a um ano de prisão em Sevilha, e consta que foi durante esse encarceramento que teria nascido a inspiração para O Cavaleiro da Triste Figura.

Cervantes sempre disse que o personagem havia sido criado na prisão, mas nunca ficou claro se ele se referia a uma prisão real ou metafórica. Mas pelo ano de publicação do famoso romance, 1605, deve ter sido nessa oportunidade. Mas sabe-se que ele foi encarcerado mais uma vez, logo após Dom Quixote ser publicado, falsamente acusado de um crime que havia ocorrido na frente de sua casa, em Valladolid.

Estudiosos da vida de Cervantes dizem que ser relacionado a problemas era uma constante na vida do escritor, sempre cercado de pessoas que viviam no limite da marginalidade, inclusive suas irmãs e a suposta filha Isabel, que supostamente ganhariam a vida com a prostituição.  Então, as confusões estavam sempre por perto. Se Cervantes não procurasse os problemas, os problemas o achariam.

Dom Quixote de La Mancha, o Cavaleiro da Triste Figura.

Dom Quixote surgiu para o mundo em 1.605, sob o título de O engenhoso fidalgo dom Quixote de La Mancha, contando a primeira parte da história do cavaleiro andante que nasceu no século errado. E o sucesso não somente foi enorme, como foi imediato. Depois de uma vida de lutas, literalmente, Miguel de Cervantes tinha o seu talento reconhecido.

Dom Quixote é o livro mais vendido da História.

Muitos séculos antes de surgir o termo best seller,  o livro mais vendido de todos os tempos havia sido lançado. Dom Quixote foi traduzido em praticamente todas as línguas existentes, e lançado em qualquer país onde exista um mercado editorial. Não se sabe ao certo quantos exemplares foram vendidos, mas a estimativa é varia entre 500 e 600 milhões de exemplares. O único livro que vendeu mais do que Dom Quixote é a Bíblia.

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Dom Quixote e Sancho Pança

Dom Quixote e Sancho Pança estão entre os personagens mais importantes da cultura ocidental. A influência da obra de Cervantes é tão grande que é quase impossível de delimitar, sendo enorme a lista de escritores que se inspiraram nela de alguma maneira e de personagens que têm algo dessa dupla não tão dinâmica.

Todo o romance é uma sátira feroz às novelas de cavalaria que faziam muito sucesso na época, que mostravam cavaleiros medievais idealizados, perfeitos, virtuosos, que enfrentavam inimigos e salvavam donzelas indefesas. E que, de certa maneira, são o estereótipo utilizado com sucesso para todos os heróis da ficção já criados.

Quem é Dom Quixote

Dom Quixote é um fidalgo espanhol que de tanto ler novelas de cavalaria, perde a razão e resolve imitar seus heróis como um cavaleiro andante nas terras da Mancha, Aragão e Catalunha. Mas Dom Quixote é um homem fora de seu tempo, um cavaleiro medieval que vive na Idade Moderna, defendendo ideais do passado e se metendo em situações ridículas por causa disso.

Quem é Sancho Pança

Sancho Pança é o fiel amigo e escudeiro de Dom Quixote, que o acompanha montado em um burro e passa todo o tempo tentando trazê-lo para a realidade, e tentando impedir que ele entre em confusões. Sancho Pança é a representação do homem simples, sem grandes ambições, mas de grande bom senso, o contraste perfeito ao protagonista que vive em um mundo de sonhos.

Quem é Dulcinéia de Toboso

Dulcinéia de Toboso, ou simplesmente, Dulcinéia, é a amada de Dom Quixote. Uma formosa camponesa que obviamente nunca aparece no romance, porque é produto de sua imaginação fértil, com toda a beleza e as virtudes das princesas que eram salvas pelos heróis das novelas de cavalaria.

Quem é Rocinante

Rocinante é o cavalo de Dom Quixote, magro, fraco e desengonçado, mas que ele imagina como uma valente corcel. O próprio nome vem de rocim, que significa um cavalo fraco e desajeitado.

Lutando contra moinhos de vento  

A passagem mais emblemática de Dom Quixote é quando ele confunde moinhos de vento com gigantes, e tenta ataca-los sozinho, ignorando os avisos de Sancho Pança de que são simples moinhos de vento.  Quando a pá do moinho derruba Dom Quixote e seu fiel corcel, Rocinante, ele afirma que o mago Friston havia transformado os gigantes em moinhos de vento, para privá-lo de sua glória.

Até hoje a expressão lutar contra moinhos de vento é usada para representar esforços inúteis ou batalhas contra adversários imaginários.

O Falso Dom Quixote

O Maestro Tom Jobim disse uma vez que no Brasil, sucesso é uma ofensa pessoal.  Se serve de consolo a nós, brasileiros, não é exclusividade do nosso país. Na Espanha do Século XVII não era muito diferente. O sucesso de Dom Quixote de La Mancha incomodou muita gente.

A obra de Cervantes era uma sátira impiedosa não somente às novelas de cavalaria que faziam muito sucesso na época. Ela também poderia ser uma metáfora sobre a própria Espanha, que após um século como um dos países mais ricos e poderosos do mundo, começava a entrar em decadência e a duvidar de si mesma, à medida que outras nações se tornavam mais poderosas.

Dom Quixote pode ser visto também como uma crítica feroz aos poderosos da época, disfarçada em uma falsa novela de cavalaria, para enganar tanto as pessoas que estavam sendo criticadas como a própria censura da Inquisição.

Mas quem se sentiu mais incomodado com o sucesso mundial de Miguel de Cervantes não foram os poderosos que ele criticou. Foram outros escritores espanhóis, que tentaram desqualifica-lo por ter feito uma obra cômica, que supostamente seria um gênero inferior de literatura.

Para se ter uma ideia, um outro escritor com o pseudônimo de Alonso Fernandez de Avellaneda, lançou uma continuação da obra de Cervantes em 1614, que ficou conhecida como O Dom Quixote Apócrifo, uma obra de tom moralista, que critica o personagem e seu espírito e chega ao ponto de, em seu prólogo, insultar diretamente Cervantes.

Dom Quixote – segunda parte.

Cervantes obviamente não gostou da cópia e dos insultos, e lançou uma continuação de Dom Quixote em 1615, que tem passagens em que o próprio cavaleiro da triste figura encontra os volumes de sua falsa história sendo impressos em uma tipografia.

A Morte de Miguel de Cervantes

Após retomar o controle sobre seu personagem, Miguel de Cervantes morreu em 22 de abril de 1616, provavelmente em decorrência do diabetes. Sua última obra foi os trabalhos de Persiles e Sigismunda, que mostravam uma pessoa que após uma vida de lutas, estava pronto para morrer em paz

Cervantes deixou como legado uma das obras mais importantes da cultura ocidental, que continua sendo lida e relida mais de 500 anos após sua morte, e que continua sendo uma leitura que vale a pena, não importa quanto tempo passe.

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