Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 02.08.2011 02.08.2011

Microliteratura no Twitter

Por Carolina Cunha
As trivialidades da vida cotidiana que estão expostas diariamente no Twitter em pequenas frases de 140 caracteres ganharam a atenção de escritores e se tornaram espaços de criação e inspiração literária.
 
Mesmo com o espaço limitado, escritores têm usado o microblog para contar microcrônicas, em uma brincadeira que já rendeu até concurso de contos na Academia Brasileira de Letras carioca.
 
“Nanicos” é como o escritor pernambucano Marcelino Freire chama seus contos mínimos publicados no Twitter. São de frases curtas que sugerem histórias como, “O adeus foi o que ficou”.  Ou ainda: "CONSELHO SUICIDA V: Se a bala falhar, procure o PROCON”.

Antes de entrar no microblog, o autor já experimentava o gênero, e em 2004, foi responsável pela organização da coletânea Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, que apresenta textos com 50 letras. No Twitter, ele pretende chegar a 1001 microcontos e então publicar um livro com eles.

O escritor Fabrício Carpinejar é outro entusiasta da ferramenta. “Uso meu twitter como um caderno de notas. Ele é meu moleskine, a minha folha aberta”, conta o autor gaúcho, que costuma tuitar pelo celular. Poeta e cronista, ele está no Twitter desde 2009.

E como um caderno de notas, tudo se aproveita. No caso dele, muitas tuítadas ganharam as páginas do livro www.twitter.com/carpinejar, lançado em 2009 e que leva o título do endereço do seu perfil no microblog.

Outras tuitadas acabaram crescendo em palavras, como foi o caso da frase “Despreza quem ama muito”, ponto de partida para uma crônica publicada num jornal. E se crônicas falam da intimidade do cotidiano, é no Twitter que elas encontram um espaço fértil para existir.

“Tem gente que fala que meu Twitter é de poeta, mas é de crônicas. São observações avulsas aleatórias. Assim como na crônica, a minicrônica é um texto que fala de comportamento, influência, provoca e quer desestabilizar as certezas. São banalidades distraídas”, diz o gaúcho.

A produção é intensa, mas o escritor diz que não se cansa. “Eu só estou retuitando o meu curto-circuito. Peraí, isso daria uma boa tuitada, não?”

Relação com o leitor
A relação com seus seguidores também é intensa. “Decidi conversar com os leitores a partir das frases. Eu não quebro essa corrente e procuro irradiar a conversa. Mas prefiro conversar por e-mail, acho que o Twitter é duro, no sentido de ser aforístico”.

Críticas e comentários negativos às tuitadas também são bem-vindas. Carpinejar diz gostar até mesmo do desaforo. “Ele tem muito amor dentro. A pessoa está tentando chamar a atenção. O desaforo é mais carente que o elogio.”

Histórias em 100 toques

 

Há também quem experimente contar histórias com menos de 140 caracteres.  É o caso do escritor Edson Rossatto e seu projeto Cem Toques Cravados, que conta com blog e Twitter, e já rendeu um livro homônimo com contos inéditos. 

Sua estreia no Twitter começou por acaso, como resposta a uma frustração: ele queria fazer história em quadrinhos, mas não sabia desenhar.

“Vários amigos meus passaram a publicar tiras em seus blogs, e eu com aquela vontade louca de fazer a mesma coisa. Mas não sabia — e ainda não sei — desenhar. Entretanto, sabia escrever. E se eles podiam fazer HQs com poucos quadrinhos, por que eu não poderia fazer isso com poucos caracteres?”, conta. A partir daí resolveu lançar-se um desafio: contar uma história com o menor número de toques que conseguisse. “Na primeira tentativa gostei do texto e fui contar: 98 toques. Pensei: será que consigo ajustar para cem? Desde então, não paro mais de escrever nanocontos com exatos cem toques”.

Rossatto costuma escrever cerca de oito textos por dia, e a iniciativa rendeu uma proximidade maior com leitores e até uma oficina sobre micronarrativas.

“Os nanocontos estão para a literatura assim como as tiras estão para os quadrinhos: uma mensagem rápida, de sentido completo e instantâneo, em um espaço reduzido. E que nunca mais alguém diga que não tem tempo para ler. Com textos tão curtos, isso já é desculpa do passado…”, diz.

 
  
Edson Rossatto
Para ele, as redes sociais estão “formando novas gerações de escritores e reciclando os veteranos”. “Em especial o Twitter, que têm obrigado escritores prolixos a serem coesos e concisos em suas postagens. Muitos deles levam esse aprendizado para dentro de sua própria literatura”, conclui Rossatto.
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