Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.08.2013 23.08.2013

Michel Laub fala sobre seu novo livro, ‘A Maçã Envenenada’

Por Zaqueu Fogaça
 
Pouco antes de começar a escrever Diário da Queda (2011), o escritor gaúcho Michel Laub chegou a rascunhar algumas páginas de um novo romance que tinha em mente, mas o descontentamento com o resultado o fez engavetá-lo naquele momento.
 
Neste mês, dois anos decorrentes do fato, Laub lança seu mais recente romance, A Maçã Envenenada, seu sexto livro e segunda parte de uma trilogia iniciada com Diário da Queda sobre os flagelos históricos e suas reverberações individuais. E, é justamente daqueles primeiros esboços, que o escritor havia abandonado num primeiro momento, que surge o enredo que estrutura seu novo livro.
 
Em Maçã Envenenada, assim como em Diário da Queda, o escritor se mantém fiel ao estilo memorialístico que caracteriza suas obras. Narrado em primeira pessoa, ora em tom confessional, ora em tom ensaístico, o livro congrega diferentes tempos e acontecimentos, como o genocídio em Ruanda e o suicídio de Kurt Cobain, para se aprofundar nas ressonâncias desses fatos à trajetória de um jovem em plena década de 90.
 
Em meio à aventura do primeiro amor, ao fascínio pelo Nirvana, à descoberta do mundo, e também às obrigações com o serviço militar – que se torna um dos pontos emblemáticos em suas escolhas –, o protagonista-narrador se vê diante de um dilema cujas consequências são irreversíveis.
 
Nesta entrevista ao SaraivaConteúdo, Michel Laub fala sobre a maneira como articula sua escrita, a predileção pela narrativa em primeira pessoa, e adianta um pouco sobre a terceira parte da trilogia.
 
A Maçã Envenenada é o segundo volume de uma trilogia iniciada com Diário da Queda (2011). Como se deu o processo de escrita do livro e qual o papel dele nessa trilogia?
 
Michel Laub. As duas histórias são bem diversas, mas os temas que correm por baixo de ambas – memória, sobrevivência, identidade – são semelhantes. Boa parte do Diário se passa com um personagem de 13 anos, enquanto o da Maçã tem 19. O ponto de vista é diferente, mesmo que narrado por alguém mais velho, que já viveu aquilo tudo.
 
Apenas uma década separa o primeiro do segundo livro. O que motivou a escolha desses períodos tão próximos como cenários?
 
Michel Laub. Tem mais a ver com o momento dos narradores do que com a época em si. Alguns dos temas da Maçã, como o da influência da música pop em determinado período da vida, ao menos da forma como isso é exposto no livro, só poderiam ter como personagem alguém de 19 anos. E no meu caso, já que o livro aproveita alguns fatos biográficos, eu tinha 19 nos anos 90.
 
A história entrelaça ficção e fatos reais. De que maneira procura trabalhar esses dois campos em sua narrativa?
 
Michel Laub. Parto mais da memória que da imaginação pura. Mas a memória é como uma moldura, para situar e dar verossimilhança às cenas. Nem sei se dá para dizer que são lembranças diretas, porque claro que misturo referências de fatos diversos, tempos diversos, pessoas diversas. O que acontece mesmo com os personagens, as histórias importantes do livro, são quase sempre fictícias.
 
Capa do livro A Maçã Envenenada
O livro é narrado em primeira pessoa, ora em tom memorialístico, ora como ensaio. Como se dá o trato dado à linguagem e suas nuances?
 
Michel Laub. A memória tem um tom mais emocional, o ensaio é mais distanciado. Mas isso em tese. Na prática ambos os tons se confundem, ainda mais num livro de ficção.
 
A maneira como a história será narrada é pré-determinada ou conforme a necessidade narrativa ela vai mudando?
 
Michel Laub. Vai mudando no decorrer. Mas o tom da maioria dos meus livros é parecido, sem eu ter planejado isso, então é como se eu me debatesse para fugir de algo de que acabo não conseguindo fugir.
 
A história é contada por uma narrativa fragmentada. Essa escrita aos pedaços congregando tempos distintos é a maneira que encontrou para criar sua literatura?
 
Michel Laub. É uma maneira como todas as outras. O que importa é o resultado final, sempre. No caso desse livro, os tempos não variam tanto quanto no Diário. Na hora de escrever, isso me dá mais liberdade, não preciso ficar tão preso ao ritmo, fazendo um parágrafo continuar outro ou coisa assim. Mas a fragmentação muitas vezes é ilusória. Se você pega o Diário da Queda, em 70% do tempo é como um texto contínuo – daria para tirar os números e a separação dos parágrafos, e daria no mesmo. No livro Maçã Envenenada, essas separações são mais marcadas.
 
A Maçã Envenenada se atenta à juventude, um momento marcado por amores, descobertas e escolhas. Esse é um livro sobre os dilemas de uma geração?
 
Michel Laub. Todos os meus livros, com exceção talvez de O Gato Diz Adeus e do Música Anterior, são assim. A diferença do Maçã é que a história quase toda pega o personagem aos 19, enquanto nos outros pega aos 13, 14. Penso sempre no personagem em questão, em como fazê-lo ser o mais particular possível. O resto, se vai ter ressonâncias maiores ou não, fica a cargo do leitor e da crítica.
 
O terceiro e último livro que encerra essa trilogia já está definido?
 

Michel Laub. Vai se passar nos anos 2000, com um personagem adulto. Tenho uma ideia antiga sobre o tema, mas prefiro não falar nisso por enquanto.

 
 
 
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