Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 22.12.2011 22.12.2011

Michael Moore e o cinema-denúncia

Por Andréia Silva
O cineasta Michael Moore
 
Michael Moore não inventou o cinema-denúncia, mas é praticamente impossível fazer uma retrospectiva sobre documentários nos últimos dez anos e não citar o cineasta americano como um dos principais expoentes do gênero.
 
Sua importância está provada em seu mais novo livro Adoro Problemas: Meio Século de História e Política Americanas Passado a Limpo!, compilação de 24 crônicas que abordam diversos momentos da vida de Moore.
 
A crítica americana elogiou o livro e o elegeu o melhor de Moore até agora, classificando-o mais como uma anedota do que um livro de memórias.
 
O título mostra como Moore soube construir uma carreira popular – e impopular em alguns momentos, o que era parte do plano – criticando um inimigo que parecia comum e que estava sempre presente no dia a dia do noticiário: o capitalismo “praticado” nos Estados Unidos, uma obsessão de Moore.
 
O tema já foi abordado pelo cineasta de diversos pontos de vista: guerra contra o terror, deficiências do sistema de saúde, violência praticada por jovens americanos, crise econômica e política.
 
De 2002 para cá, quando lançou Tiros em Columbine, Moore literalmente se debruçou sobre as mazelas do governo americano. Há quem diga que ele se alimenta dos pontos fracos dos EUA, o que não é uma ideia descartável.
 
Seu último filme, Capitalismo – Uma História de Amor, de 2009, foi mais um dessa leva a obter sucesso de público e crítica. Prova de que o cineasta continua na crista da onda quando se trata de cinema-denúncia e ainda é, como ele mesmo diz no prefácio do livro, “um dos homens mais odiados na América”.
 
Nesse sentido, a saída de George W. Bush da presidência norte-americana foi o melhor que poderia ter acontecido para o cineasta. Do contrário, sua obra poderia ser classificada como uma “mera questão pessoal”.
 
Indignado desde criança
 
Recentemente, Moore anunciou que vai fazer um filme baseado no movimento Occupy Wall Street, em Nova York, onde dezenas de jovens estão acampados em protesto contra a crise econômica mundial.
 
O cineasta adiantou que o filme não será exatamente sobre o protesto, mas inspirado nele.
Junto aos indignados, pode-se dizer que Moore retornou às origens. Ele é o que se pode chamar de um indignado de nascença, já que seus problemas com o sistema começaram cedo.
 
Segundo a revista The New Yorker, em um perfil do cineasta publicado em 2004, quando era pequeno, Moore se recusava a tomar um leite com uma substância indicada pelos médicos às mulheres, incluindo sua mãe, em vez do simples leite materno.
 
Moore havia declarado que filmaria mais até que os americanos tomassem uma atitude contra o sistema econômico. A ocupação em Wall Street foi o sinal que ele esperava. Ele mesmo foi ao local algumas vezes e disse que estar no meio dos manifestantes era melhor do que estar entre as estrelas na cerimônia do Oscar.
Na trilha de Moore
O matemático e empresário Charles Ferguson não tem bem o perfil que se espera de um cineasta que faça filmes-denúncia. Mas é dele um dos mais badalados documentários do gênero, Trabalho Interno.
 
Cartaz do filme Trabalho Interno
 
Seu estilo independente – até mesmo agressivo em alguns momentos – e a temática mostram, sim, um pouco da influência de Michael Moore.
 
No caso de Trabalho Interno, Ferguson não pouca críticas ao atual presidente Barack Obama – este ainda um alvo inédito de Moore – devido à escolha de sua equipe econômica.
 
Seu filme anterior, Sem Fim à Vista, foi indicado ao Oscar e venceu o prêmio do júri em Sundance, em 2007. Traz entrevistas com pessoas que participaram da ocupação americana no Iraque, durante a administração de George W. Bush, e de como elas se decepcionaram com a guerra.
 
Por não trazer depoimentos de pessoas ligadas ao governo e que estiveram na linha de frente do comando da invasão, já que autoridades negaram-se a participar, Ferguson foi acusado de contar só um lado da história. Algo corriqueiro na carreira de Moore.
 
Cinema-denúncia no Brasil
 
O Brasil também tem bons exemplos de cineastas que fizeram de suas produções filmes- denúncia. Sérgio Bianchi é um deles. Embora seu filme mais conhecido seja Cronicamente Inviável, de 2000, sobre diferenças sociais, outras de suas produções carregam um tom mais acusativo.
 
Mato Eles?, de 1985, denuncia a situação dos índios Xavantes, Guarani e Xetás no Paraná, que, expulsos de suas reservas, têm que trabalhar como escravos. A cena em que o cacique guarani pergunta espontaneamente ao diretor "quanto dinheiro ele ganha" para filmar os índios é uma das mais marcantes do cinema brasileiro.
 
Quanto Vale Ou É Por Quilo, de 2004, faz um retrato da situação do negro no Brasil, mostrando que pouca coisa mudou da época da escravidão para os dias de hoje. Seu sexto e último filme, o premiado Os Inquilinos, de 2009, questiona como a violência se entranha na periferia, deixando seus moradores reféns do medo.
 
Silvio Tendler, conhecido por seus filmes políticos e de memória, lançou este ano, direto na internet, O Veneno Está Na Mesa, documentário que denuncia os problemas trazidos para a saúde e para o meio ambiente pelo consumo excessivo de agrotóxicos no Brasil.
 
O curta Ilha das Flores, de 1989, dirigido por Jorge Furtado, é outro que não pode ficar de fora da lista – ele está no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Gravado em tom documental e com apenas 13 minutos, o filme mostra como a economia gera relações desiguais entre as pessoas. Produzido há mais de duas décadas, em tempos de crise econômica, o tema não poderia ser mais atual.
 
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