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Mia Couto fala sobre a literatura de Moçambique e de sua relação com as palavras

Por Marcos Fidalgo
O trabalho como ecólogo ocupa a maior parte do tempo de António Emílio Leite Couto. O moçambicano de 55 anos, nascido na cidade de Beira, percorre todo seu país trabalhando em estudos ambientais, que vão desde levantamentos sobre Impactos ao meio ambiente até projetos de reabilitação de parques faunísticos.
Sua rotina profissional seria apenas essa se não fossem as insônias. São elas que despertam a escrita em seus dedos, levando para junto do sono a identidade do ecólogo António e trazendo a do escritor Mia, Mia Couto.
Filho de poeta, Mia publicou suas primeiras poesias com quatorze anos no jornal de sua cidade natal.
Hoje, com obras publicadas em mais de vinte e dois países, é o escritor moçambicano mais traduzido no mundo. Em março, lançou no Brasil Estórias Abensonhadas, livro que reúne contos do autor, escritos logo após o fim da guerra pela independência de Moçambique.
Na entrevista concedida ao SaraivaConteúdo, o autor fala da sua relação com as palavras, da trajetória política de Moçambique, além de suas influências.
Os contos de Estórias Abensonhadas foram escritos logo após o fim da guerra pela independência de Moçambique. Qual era o cenário do país na ocasião e que peso ele teve nas construções de suas narrativas?
 
Mia Couto. Havia uma sede de tudo, uma ânsia de poder recomeçar, de voltar a nascer. Nós vivêramos 16 anos de guerra, cercados pela violência, sem esperança de que algum dia houvesse paz. E de repente, essa paz chegou. Estávamos incrédulos, no início. Aos poucos, foi um sentimento quase de embriaguez. Podíamos sair, sem medo, para a vida. Os contos desse livro refletem esse momento de renascimento de uma nação, e de cada um de nós que resistimos a um longo desfile de mortes e destruição. É incrível como, mesmo em meio desse drama, o que queríamos era rir, cantar, festejar a vida.
Passadas mais de três décadas da conquista da independência, o que mudou em Moçambique e na literatura do país?
 
Mia Couto. O país mudou completamente. Mudou o regime politico, mudou o regime de ser. Uma das razões da guerra foi o assalto contra um projeto socialista. Esse projeto nem precisava de tanto inimigo. Ele estava corrompido a partir de dentro. Hoje, não temos saudade do regime que foi deposto. Mas o que veio a seguir foi um capitalismo sem capitalistas, um mercado selvagem em que vale tudo. Dissolveram-se os laços solidários que antes dominaram as sociedades rurais e urbanas. Há uma enorme saudade do que fomos, mesmo que essa identidade do passado nunca tenha realmente existido. A literatura procura hoje denunciar esse universo de competição e de desrespeito pelos que não têm dinheiro nem poder. A literatura moçambicana cresceu, tornou-se uma literatura plural, tornou-se literaturas.
Você é filho de poeta. Seu pai te incentivou a escrever?
Mia Couto. Ele teve uma importância decisiva. Não apenas porque era um poeta, mas porque vivíamos em estado de poesia em nossa casa. O meu pai nos ensinou a olhar para as pequenas coisas, ao jeito das lições de Manoel de Barros, procurando brilhos entre poeiras e cinzas do chão. Numa sociedade colonial muito violenta, ele nos conduziu a descobrirmos na vida e por nós mesmos o que os livros depois revelaram. Outra coisa: ele nos fez primeiro ouvir poetas dizendo os seus próprios versos. Através de gravações, através de noites de poesia em que ele mesmo e poetas amigos diziam os seus versos. Para nós, o que nos seduzia era o modo como aquelas pessoas se embeveciam com a palavra, como se fosse uma espécie de música.
Uma de suas características é a ‘invenção’ de palavras. Como foi que elas começaram a surgir?
Mia Couto. As palavras não se inventam. Quando muito descobrem-se, por baixo da poeira de uma linguagem funcional e que despromove a criatividade.
Você coloca em seus textos palavras de línguas nativas de Moçambique. Existe algum propósito explícito nisso?
Mia Couto. Isso surge naturalmente. Por vezes, não existe equivalente entre línguas europeias e as línguas africanas. Pensamos que tudo pode ser traduzido. Mas existem conceitos e categorias que não podem ser transpostos. Por exemplo, a palavra europeia "natureza" não tem equivalente nas línguas diversas de raiz bantu que se falam em Moçambique. Em contrapartida, o termo mais próximo, que nas línguas do Sul de Moçambique é "ntumbuluku", não quer dizer exatamente "natureza", mas um conceito mais integrado e holístico. Estamos perante uma filosofia que não distingue entre sociedade e natureza.
Seus textos são repletos de elementos mágicos. São fantasias captadas da cultura popular moçambicana ou são procedentes de alguma outra inspiração sua?
 
Mia Couto. O modo como os moçambicanos (e os brasileiros também) concebem e aceitam a chamada "realidade" é muito pouco realista. Não se trata de uma elaboração literária que uns designaram de "realismo mágico". Trata-se de uma filosofia, de um modo de estar de todo um povo que não leva muito a sério o chamado sentido da realidade e não se deixa intimidar por uma certa racionalidade que é muito normativa em relação à necessidade de festejar o corpo e a alegria de viver.
Como ecólogo, você percebe alguma relação entre a biologia e a literatura?
Mia Couto. O que mais me admira na Biologia é o relato da mais fascinante narrativa que há, a história da vida. A literatura é uma celebração desse fascínio que em nós provoca a vida e o fato de estarmos vivos. A ciência tem uma aproximação mais redutora e simplificadora da vida. A arte pode dar conta dessa complexidade imprevisível que são os fenômenos da vida.
Além de contos, você também escreve poesias, crônicas e romances. Qual gênero literário mais te agrada escrever?
 
Mia Couto. Os contos. Num flash, pode estar ali tudo: a poesia, o romance condensado, a capacidade de surpreender e construir o inesperado.
O que te leva a escolher um gênero e não o outro?
Mia Couto. Digamos que o gênero é que me escolha a mim. 
 
Você é um escritor internacionalmente conhecido, e suas obras estão traduzidas em diversos idiomas. Para além de prêmios e entrevistas, o que esse reconhecimento te permitiu de fato?
 
Mia Couto. Permitiu-me viajar, criar amigos para além do meu espaço. E viver o que mais gosto na espécie humana: a sua profunda diversidade, a infinita capacidade de produzir diferenças. E como sobre essas diferenças se reconhecem, apesar de tudo, uma mesma identidade.
 
 
 
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