Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 30.04.2014 30.04.2014

Memórias da família Caymmi para celebrar o centenário de Dorival

Por Maria Fernanda Moraes
 
Dorival Caymmi já cantou o mar, o vatapá e a cozinha baiana, os sobrados da velha São Salvador, o candomblé e tantos outros símbolos e tradições culturais da Bahia e do Brasil. E também musicou como ninguém a saudade: da sua terra, de um amor, de um tempo que não volta mais.
 
“Ai, esta saudade dentro do meu peito
Ai, se ter saudade é ter algum defeito
Eu pelo menos, mereço o direito
De ter alguém com quem eu possa me confessar”
(Saudade da Bahia)
 
Mas por trás de seu grande cancioneiro, está ainda uma de suas qualidades mais festejadas pelos amigos: a de conversador. O escritor e amigo João Ubaldo Ribeiro já disse que ele era um dos melhores conversadores que conheceu, expressivo, eloquente, histriônico. “Ele pegava a palavra e ninguém queria mais que ela lhe fosse tomada. Aliás, quem nunca conviveu com Caymmi um pouco assim meio que perdeu muito, como às vezes se diz lá na ilha”.
 
Histórias como essa estão no livro Dorival Caymmi: o Mar e o Tempo (Editora 34), biografia escrita por sua neta, Stella Caymmi, que ganhou nova edição atualizada recentemente. Equilibrando-se entre os papéis de biógrafa e neta, ela diz que a obra foi uma alegria e uma aflição igualmente difíceis. “É sempre muito complicado falar de quem a gente ama, ainda mais de quem não está mais aqui. Eu e meu avô sempre fomos muito chegados, e quando eu fui fazer a biografia, nós ficamos dez anos conversando. Ele tinha a confiança de se abrir, contar a vida dele. Isso fez a nossa relação se tornar muito especial. E fora isso, tem a gratidão, foi uma honra. Mas também tem um preço, que é te desarrumar por dentro. Você arruma a biografia, mas emocionalmente você fica desarrumada por dentro”.
 
No ano do centenário do cantor e compositor baiano, o SaraivaConteúdo uniu esses dois lugares-comuns tão característicos na personalidade de Caymmi – a saudade e a contação de histórias – e presta esta homenagem através de memórias de família contadas pela filha Nana Caymmi e pela neta Stella Caymmi.
 
MEMÓRIAS DE INFÂNCIA
 
NANA
“Me lembro da minha infância na Antero de Quental [praça do Leblon, no Rio de Janeiro], ele me ensinando a andar de bicicleta e eu saindo como se tivesse andado a vida inteira. Ele ficou horrorizado, eu com 5 anos de idade, já saí pela praça e ele doido atrás de mim, e eu já andando como uma veterana. Isso foi interessante, porque ele era muito lento, muito lerdo, e eu era uma espoleta, uma menina cheia de vitalidade.
 
Foi uma infância muito, muito boa, de ir à praia, à praça, ao Jardim de Alá, aonde papai e mamãe levavam a gente junto com amiguinhos do prédio para andar num carrinho puxado por um bode – e eu achava aquilo sensacional! Outro acontecimento era quando a gente saía pra comer na casa de outro parente, era uma farra! E aí tocava-se violão, ihhh, era bom demais! São recordações muito boas da minha infância, com papai e mamãe juntos e as três crianças.”
 
STELLA
“Eu me lembro que aprendi com uma empregada da mamãe uma história de dormir. Aí, quando fui para a casa do meu avô, eu contei essa história para ele. Mas eu era muito criança e a história era sobre os reis mouros. Acontece que eu não conseguia pronunciar ‘reis mouros’ e falava ‘resmoros’. Na história, essa frase se repetia muito: ‘que beleza de reis mouros!’. E eu falava: ‘que beleza de resmoro!’. Meu avô era muito gozador e ele gostava muito de gravar os netos, os bate-papos, ele curtia essas coisas. E isso fez com que a frase ficasse até hoje na família. Minha tia às vezes fala: que beleza de resmoro!
 
Eu chegava na casa dele e me jogava em cima do barrigão, ele ficava numa cadeira de balanço (não é na rede como todos pensam). Minha vó ficava louca achando que nós dois íamos cair. Era com ele também que eu chorava; eu não queria sobrecarregar a minha avó, então eu chegava, ia pro escritório, deitava nas pernas do meu avô e chorava. Era muito bom.”
 
O casal Stella e Dorival e os filhos Nana, Dori e Danilo
 
MEMÓRIAS DA MOCIDADE
 
NANA
“Meu primeiro sapato de saltinho foi ele quem autorizou, e meu primeiro batom também foi ele que deu. Eu adorava essas coisas e ele sabia que eu ficava namorando aquelas revistas com as mulheres pintadas. Enquanto a minha mãe puxava a minha infância para trás, ele colocava para frente. Talvez porque ele fosse mais observador, mais cênico, mais conhecedor do caráter dos filhos. Ele sabia que aquilo não ia influenciar em nada, que eu ia continuar a Nana de sempre. Eu era muito caseira, muito amiga deles, eu fazia lanche para esperar ele chegar da boate.
 
Ele não era ciumento, até porque não tinha motivos. Os nossos amigos eram os amigos dele. Papai tinha vida separada: a vida profissional com a vida de casa. Nossa casa era sempre muito quieta porque tinha sempre criança de tudo quanto era idade. Tínhamos uma vida muito doméstica, não tinha esse negócio de artista, isso não existia. Eu nunca tinha visto ele cantar fora de casa, sempre na casa de amigos .E sempre teve muita música em casa. A minha mãe de vez em quando se atrevia a pegar no violão, e ela sabia duas posições só,mas a gente cantava de tudo!”
 
STELLA
“A gente conversava muito porque eu passei as férias da minha infância e adolescência com meus avós, minha mãe trabalhava e viajava muito. E as férias eram mais longas antigamente, quatro meses de férias de verão e um mês de julho. Meu avô sempre teve um canto dele nas casas em que ele morou, mesmo sendo uma casa de veraneio ele tinha lá um atelier, um escritório dele. Então eu lembro de ir muito lá para conversar com ele. E minha avó era uma dona de casa muito organizada, ficava enlouquecida com o escritório dele. Não que fosse desarrumado, mas era muito livro, muito papel, muita bobagem… meu avô gostava disso. E ela dizia: ‘Stella Tereza, ajuda seu avô a arrumar esse escritório, tem muito tempo que ele não arruma’. Foi muito bom esse período em que eu ficava arrumando, porque eu via os livros, as dedicatórias… eu via o que ele gostava de ler, a coleção de revistas. Era uma convivência maravilhosa, e ele adorava conversar, não era do tipo ‘só vou conversar com quem tem meu nível, sabe’. Muito pelo contrário. Você esquecia que você era mais jovem e inexperiente. Sem querer te colocar num pedestal, mas ele tinha naturalidade e escutava as coisas, respondia. Talvez por isso eu tenha virado escritora depois. Grande parte dos amigos do meu avô veio da literatura, do jornalismo e da pintura, além da música, evidentemente.”
 
MEMÓRIAS DA VIDA ADULTA
 
NANA
“Os 90 anos dele foram uma época muito especial e com alguns desafios. Tinha a parte da doença dele, que nós tínhamos que ‘esconder’ um pouco porque ele não sabia da gravidade, tirar a imprensa de perto e ainda fazer a grande festa de 90 anos. E olha que ele ainda durou bastante sem saber de nada, ele foi muito feliz na companhia dos três filhos. Quando a mamãe faltou (ela foi internada), aí sim veio a grande tristeza e ele desistiu de viver. Ele não queria mais nada, travou completamente. Esse período foi dos 90 aos 94 anos. Foi quando os cuidados com ele se intensificaram, mas a mamãe era a mais doente, tinha problemas de respiração, pneumonia, botou marca-passo. E ele passou por tudo isso, vendo mamãe nessas condições. Isso deve ter detonado muito o coração dele. Mamãe ficou quatro meses internada, e foi nesse tempo que ele faleceu, sem saber dela. Ela, em seguida, também faleceu. 
 
Tinha, claro, o pânico de ver a vida se escoando, mas tinha também a presença deles ali, valia muito a pena. Eu reduzi drasticamente o meu trabalho e ficava muito com ele e com ela.
 
O livro da Stella foi também um acontecimento muito bonito, tudo era motivo de festa. E ele gostava. Eu me lembro que a última coisa que a Stella fez com ele, que era muito bom, foi ler. Todo dia ela ia ler pra ele o livro da Carmen Miranda, que ele adorava ouvir. Ela sentava pra ler, os enfermeiros em volta, parecia um colégio. Nós distraímos ele como podíamos enquanto mamãe estava no hospital. E ele gostou muito, mas não terminou o livro.”
 
A biografia foi lançada originalmente em 2001 e teve uma nova edição atualizada em 2014
 
STELLA
“A memória que eu tenho dele mais no final da vida foi num Dia dos Pais, seis dias antes de ele morrer. Minha avó estava no hospital há quatro meses e eu não sabia o que fazer. Não que ele fosse uma pessoa que reclamasse, mas eu sabia que estava doente, muito mal, e sabia que ia morrer em casa e que minha avó estava morrendo no hospital. Aí eu fiz a única coisa que eu sabia que podia aliviar um pouco. Eu peguei um conto do Cony, daquele livro que faz parte da coleção Sete Pecados Capitais. E o Cony escreveu sobre luxúria, então tinha aquela sacanagem boa, sabe, que o meu avô gosta, que o Jorge Amado gosta, aquela patifaria, aquela coisa bem escrita. Meu avô estava meio surdo naquela época, e no período que minha avó estava no hospital eu estava lendo Carmen Miranda para ele em voz alta, justamente pra ele voltar no tempo, curtir. E nesse Dia dos Pais, quando eu cheguei no final do dia para vê-lo, eu disse: ‘vovô, vou te ler o conto do Cony’. E ele riu, a gente riu junto, ele gostou. Isso foi em agosto, num domingo. Eu o vi depois, na quarta-feira seguinte, e aí, quando chegou o sábado, ele morreu. 
 
Eu faço uma separação sim entre o Caymmi músico, que todos conhecem, e o Caymmi avô. O meu avô é o meu avô, não é nem o avô dos outros netos, cada um tem o seu avô [risos]. Eu gostava muito quando ele me apresentava aos amigos e dizia: ‘essa aqui foi a que me deu o título de avô’. Porque eu sou a primeira neta, né. Um dia, num aniversário meu, ele me deu um cartão e escreveu: ‘Stella, querida, você tem os defeitos necessários para uma boa convivência’. Incrível, né?
 
E ele também tinha uma coisa que dá muita saudade, que ele usava muito o possessivo. Ele dizia: ‘minha neta!’ Me fazia sentir que eu era dele, a neta dele. Nós todos éramos dele, muito profundamente. Eu fui criada pedindo a benção, peço até hoje à minha mãe. Então, a minha lembrança mais constante era chegar na casa deles e pedir: ‘benção vó, benção vô’. ‘Deus a abençoe, minha neta’.”
 
Papo Musical Centenário Dorival Caymmi, com Stella Caymmi e Convidados Especiais
Onde: Salvador Shopping – Avenida Tancredo Neves, 2915 – Caminho das Arvores – Salvador – BA
Quando: 14/5 às 18h
Para homenagear os cem anos do cantor e Compositor baiano considerado um dos nomes mais importantes da música brasileira, a Saraiva, que também completa cem anos em 2014, promove um sarau com a participação de diversos artistas da música baiana. Os convidados irão cantar os maiores sucessos de Caymmi, além de falar sobre a importância e influência dele em suas vidas.
Para mais informações, clique aqui!
 
 
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