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Memória e origens voltam a tematizar obra de Paloma Vidal

 
ESPECIAL     
 
 
Por Bruno Ghetti
A procura pela própria identidade de uma pessoa confusa com as suas origens. A voz incisiva de uma mulher em um mundo ainda dominado pela força masculina. Eis o cerne (e o vigor) da obra da escritora Paloma Vidal, uma das mais expressivas vozes da literatura brasileira desde o início do milênio e uma das convidadas da Flip deste ano.
Nascida na capital argentina, em 1975, mas criada no Brasil desde os dois anos de idade, Paloma sempre teve dificuldades para se definir: argentina ou brasileira? Carioca (viveu no Rio a maior parte da vida) ou paulistana (mora em São Paulo há alguns anos)? Um pouco de cada, mas jamais só uma coisa ou outra. Ou talvez tudo ao mesmo tempo – e enquanto a autora não se decidir, quem sairá ganhando são seus leitores: suas dúvidas e reflexões sobre o tema são a principal força-motriz de sua criação literária.
Em 2003, Paloma lançou seu primeiro livro, A Duas Mãos, com contos que já mostravam as bases do seu projeto literário. Cinco anos mais tarde, voltou a publicar uma obra de contos, Mais ao Sul, bastante elogiada – o livro a consolidou como jovem autora de destaque. Sua publicação mais recente é Algum Lugar (2009), sua estreia como romancista.
Em setembro, deve chegar ao mercado seu segundo romance, Mar Azul. A história, mais uma vez, tem ecos autobiográficos – mostra a relação entre uma mulher e seu pai, um argentino radicado em Brasília. Depois que ele morre, ela lê seus cadernos de memórias, enquanto se dedica a escrever seus próprios diários. Mais uma vez, a questão do peso do passado e das origens de uma pessoa em sua vida vem à tona com grande força. Paloma lerá um trecho do novo livro na Flip, onde participará também de uma mesa com Teju Cole, que terá por tema a experiência, a memória e o deslocamento (sexta, às 15h).
Além de escritora, Paloma é hoje professora de Teoria Literária na Unifesp. É também tradutora (do espanhol para o português e do português para o espanhol) e editora da Revista Grumo (www.salagrumo.org), publicação existente há dez anos que se propõe a manter vivo o diálogo entre as literaturas argentina e brasileira. A autora falou ao SaraivaConteúdo sobre suas diversas atividades, sua criação literária e sua participação na Flip.
 
Em suas obras, você explora recorrentemente o tema da busca de uma origem e de uma identidade, que é uma questão com a qual precisou lidar desde muito jovem. A literatura é uma espécie de terapia/catarse para você?
Paloma Vidal. A escrita tem a capacidade de trazer à tona coisas sobre nós mesmos. Vivi essa experiência diversas vezes enquanto escrevia meus livros. Faço questão de deixar o texto me levar quando estou trabalhando e, de repente, aparecem coisas esquecidas, ocultadas, desconhecidas até. É muito impressionante. Mas não sei se isso é terapêutico ou catártico, porque nos dois casos há uma série de definições e métodos que circunscrevem os efeitos dessas experiências e, na escrita, é algo bastante randômico, que pode acontecer de diversas maneiras, que pode inclusive simplesmente não acontecer. Não é algo procurado, como quando se entra num consultório de um analista em busca de uma cura.

Você acredita que, se a sua família jamais tivesse deixado a Argentina, você teria se tornado uma escritora? Ou o fato de você escrever tem relação direta e indissociável com essa sua condição de “displaced”?
 
Paloma Vidal. Essa é uma pergunta impossível de responder, mas que atravessa toda minha ficção. Ela é subliminar a tudo o que escrevo. Como eu seria se não estivesse no Brasil? Se não falasse português? Se meus pais não fossem estrangeiros num outro país? E elas são tão importantes, pelo menos por enquanto, que efetivamente meu trabalho seria outro se essa vivência de deslocamento não tivesse me marcado tão profundamente.
A escritora Paloma Vidal
 
Como vai ser a sua participação na Flip?
 
Paloma Vidal. Estou muito feliz com o convite. Vejo-o como um reconhecimento de um trabalho de vários anos já. Porque é preciso insistir muito para levar adiante a escrita; sempre há outros trabalhos, outras tarefas, a vida familiar, e, se a gente continua, é por causa de um desejo muito grande. Então, espero poder falar desse desejo lá. E me parece que tudo é muito favorável: meu companheiro de mesa, o Teju Cole, a mediação do João Paulo Cuenca, o tema que nos foi proposto, a curadoria do Miguel Conde. Enfim, acho que vai ser ótimo.

A trama de Mar Azul tem semelhanças com a sua história de vida? Em que medida é um livro autobiográfico?

 
Paloma Vidal. Este livro tem menos a ver com a minha história do que os anteriores, porque se trata de uma narradora que está entrando na velhice e relembra acontecimentos de sua juventude enquanto lê os cadernos deixados pelo pai após sua morte. Mas o que é autobiográfico ou não deve ser sempre colocado como questão. Para mim, um livro não faz sentido se, de alguma forma, não fala de uma experiência que me diz respeito, o que é muito diferente de falar de mim diretamente. Neste livro, a personagem não sou eu, nem o pai dela é meu pai, mas há perguntas que ela se faz que são perguntas minhas; há problemas, impasses, fantasias que são meus.

Que autores você mais tem lido recentemente?

 
Paloma Vidal. Leio principalmente escritores contemporâneos e latino-americanos. Fico sempre com uma certa nostalgia dos clássicos, mas a verdade é que gosto de participar da cena literária também como leitora. E inclusive isso faz parte do meu trabalho de professora e crítica. Li recentemente excelentes livros de Mario Levrero, Fabian Casas, Alejandro Zambra, Michel Laub, Carola Saavedra, para dar alguns exemplos.

Que escritores mais a influenciaram no seu período de formação cultural?

 
Paloma Vidal. Há um escritor que me marcou especialmente: André Gide. Foi um encontro mais ou menos tardio porque me dediquei à obra dele quando já estava na faculdade de Letras. Antes, na adolescência, eu lia o que me pediam na escola, com prazer, mas principalmente com disciplina. Como um dever. Acho que com o Gide foi que a literatura se ligou à vida para mim, porque ele era um autor em que tudo ficava misturado: diários, ficção, autobiografia. E essa mistura foi uma aprendizagem que mudou minha maneira de ver a escrita.

Como tem sido a experiência na Revista Grumo?

 
Paloma Vidal. Para mim, é uma experiência fundamental em muitos sentidos: é a retomada de um laço com a Argentina para além das relações estritamente familiares; é um projeto cultural, afetivo, teórico e principalmente literário. Começamos há 10 anos, e acho que é uma façanha essa continuidade se a gente vê como os projetos normalmente se desfazem por causa da distância, das precariedades materiais, mas também das rivalidades, das diferenças de diversas ordens. A gente já fez nove números da revista em papel e estamos preparando o décimo, temos um site, uma coleção de tradução de poesia junto com a editora argentina Vox, temos também uma editora nossa, fizemos vários eventos entre Brasil e Argentina, além de muitos desdobramentos individuais que já nem têm a ver diretamente com a revista.

Você também é tradutora, tanto do português para o espanhol quanto do espanhol para o português. Em qual idioma se sente mais à vontade?

 
Paloma Vidal. Para escrever, certamente em português. Assumi a tarefa de traduzir meu próprio livro para o espanhol no ano passado e consegui levá-la adiante, mas tive bastante certeza de que o português é a minha língua literária. Agora, por outro lado, me sinto muito bem falando em espanhol. Me sinto mais leve, menos séria. Me ocorre agora que talvez isso tenha a ver com o fato de ser uma língua que me liga diretamente à infância e à condição de filha, pois falo com meus pais nela até hoje.

A literatura é escolha de palavras – qualquer alteração no texto original, por menor que seja, pode mudar completamente o sentido (e os efeitos) pretendidos pelo autor. Como um tradutor lida com esse tipo de pressão? E como evitar essa “traição” do sentido original em uma tradução?

 
Paloma Vidal. Minha relação com a tradução é mais de prazer do que de pressão. A melhor experiência que tive nos últimos tempos foi com A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector. Foi estar muito perto de algo único, que tem a ver com uma dicção, uma pontuação, uma adjetivação, enfim, com os aspectos que fazem a linguagem dela. Acho que quando se estabelece uma relação dessas com a escrita de um autor, a questão da traição se torna secundária. Há uma recriação, mas ela se dá a partir desses aspectos muito concretos que tornam um texto singular.

Hoje em dia, você se sente mais argentina ou brasileira? Carioca ou paulistana?

 
Paloma Vidal. Essa é uma outra pergunta que eu não tenho como responder. Acho que nunca terei. Eu sou argentina e brasileira, ou brasileira e argentina, e acho que posso ser de muitas cidades, posso me sentir bem em muitas cidades, encontrar uma cotidianidade minha nelas, mas, ao mesmo tempo, sempre estou pensando em me mudar, em como seria morar em outro lugar, porque também sempre tenho a impressão de não pertencer completamente a cidade nenhuma.
 
 
Capas dos livros de Paloma Vidal
 
 
 
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