Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 21.05.2009 21.05.2009

Meirelles em retrospecto

Por Cavi Borges
Fotos de divulgação

 

O cineasta Fernando Meirelles foi um dos convidados a dar uma aula master na oficina do projeto Cinco vezes favela, no Rio de Janeiro. O projeto é coordenado por Cacá Diegues e consiste na realização de oficinas para a preparação da equipe técnica e do elenco do filme de mesmo nome, que será dividido em cinco episódios e dirigido por integrantes do Nós do Morro, juntamente com  a Luz Mágica Produções, Cufa, Afroreggae, Observatório de Favelas e o Cinemaneiro. Cinco vezes favela é o nome do filme realizado em 1962, que reúne cinco curtas-metragens de Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Cacá Diegues, Marcos Farias e Miguel Borges, os três primeiros estreando na direção. Agora, os próprios moradores de favelas vão assumir as câmeras – e o roteiro, a fotografia, a montagem etc. –, além de atuarem.

A expectativa em relação a palestra de Meirelles era grande, não só porque Cidade de Deus foi um marco na retomada, mas também pelo fato de ele também ser uma grande referência no que se diz respeito ao “cinema de favela”. Além disso, havia a expectativa não só pelo fato de a oficina ser composta por moradores de favelas, mas por grande parte deles ser residente da Cidade de Deus, onde o filme teve severas críticas, e da Parada de Lucas, Vidigal e Maré. Durante três horas, o diretor dos longas Domésticas, Cidade de Deus, O jardineiro fiel e Ensaio sobre a cegueira falou sobre suas impressões do cinema, suas referências e seus antigos e novos projetos.

O INICIO DA CARREIRA

Fernando Meirelles. Comecei fazendo o programa “Castelo Rá-Tim-Bum”, depois passei para a publicidade, que foi uma verdadeira escola para mim. Nesses anos cheguei a fazer cerca de 800 comerciais, onde pude trabalhar com vários fotógrafos diferentes e fazer todos os tipos de filmes que possa existir. Um ótimo exercício prático de realização onde desenvolvi e aprimorei minha técnica cinematográfica. Enquanto vários diretores filmam de quatro em quatro anos, era obrigado a filmar quase que diariamente e pude testar várias linguagens, enquadramentos, equipes entre outras coisas. Porém, fazer comerciais não ensina a fazer drama, nem como construir e desenvolver personagens. Tive que aprender isso fazendo filmes.

O INÍCIO NO CINEMA

Meirelles. Apesar de ter lançado primeiro o filme Domésticas, considero como meu primeiro filme Cidade de Deus. Realmente comecei a trabalhar nele primeiro, desenvolvendo o roteiro com o Bráulio Montovani e começando a correr atrás do dinheiro. Enquanto isso acontecia, acabei filmando Domésticas, que era uma peça de teatro. Aproveitei as mesmas atrizes, o texto, até o cenário, filmando tudo em poucas semanas e gastando quase nada. Voltei para filmar Cidade de Deus e só depois finalizei Domésticas.

CIDADE DE DEUS 

   O INTERESSE

Meirelles. Heitor Dhalia, que trabalhava comigo na [produtora] O2, me apresentou o livro. Inicialmente não me interessava filmar tiros, favelas e a cidade do Rio, que eram universos muito distantes do meu cotidiano. Quando li o livro, mudei de idéia na hora. Sabia que o autor do livro, Paulo Lins, já tinha propostas de outros diretores para vender os direitos para o cinema. Não hesitei em convidá-lo a vir a São Paulo para convencê-lo que eu era a pessoa certa para fazer esse filme. Depois entreguei o livro para o Bráulio [roteirista] e falei que aquele seria seu primeiro filme. Depois de ler, Bráulio considerou impossível a tarefa de adaptá-lo. Muitas histórias e muitas situações. Como fazer um filme que mostra tantas situações e tantos personagens? Começamos a destacar as histórias que considerávamos mais interessantes e depois começamos a juntar personagens. O que fez que cada personagem no filme representasse vários personagens do livro.

   O DINHEIRO PARA FAZER

Meirelles. Convidei Walter Salles para ser o produtor do filme. Achava que esse filme interessaria mais lá fora do que aqui e sabia que o Walter tinha bons contatos e seria a pessoa ideal para vendê-lo. Na época, Walter foi convidado pela Miramax para fazer um filme chamado Redenção da virgem com Benício Del Toro. Ele topou fazer esse filme desde que a Miramax produzisse também Cidade de Deus e Madame Satã, filmes pequenos para os padrões deles. Estava tudo acertado e já estávamos realizando as oficinas com os atores no Rio. Benício Del Toro machucou o dedo e o filme do Walter teria que ser adiado. Porém, esse adiamento fez com que o Walter saísse do projeto e conseqüentemente a Miramax abandonou os outros dois filmes. Fiquei sem dinheiro e tive que fazer uma coisa que não recomendo a ninguém: peguei todo o meu dinheiro ganho em 20 anos de publicidade e apliquei tudo no filme Cidade de Deus. Mais tarde, com o filme pronto, voltei à Miramax para vender o filme. Tivemos uma reunião fatídica de quase sete horas, mas acabei conseguindo três vezes mais dinheiro do que eles iriam nos dar anteriormente.

   O PROCESSO DE REALIZAÇÃO

Meirelles. Não achava que existiam atores profissionais suficientes com os perfis dos personagens que o filme propunha. Chamamos o Guti Fraga do Nós do Morro [grupo de teatro surgido no Morro do Vidigal] para treinar jovens achados em várias comunidades do Rio para fazer os papéis do filme. Foram sete meses de oficinas. Quase todos não tinham experiência como atores profissionais. Isso acabou sendo um grande acerto no filme. Acabou levando também a um processo de filmagem mais livre, sem marcações e textos decorados fazendo tudo parecer mais realista e crível. Tivemos também a chance de testar enquadramentos, texturas e situações fazendo o curta Palace II que virou um episódio do “Brava Gente Brasileira” [especial da TV Globo, onde apareceram os personagens Acerola e Laranjinha, protagonistas da série e do longa Cidade dos homens]. César Charlone, o fotógrafo do filme, resolveu testar muita coisa nova e acabou desenvolvendo um processo de finalização de imagem que durou quase quatro meses e que era pouco conhecido aqui no Brasil. Essa finalização digital deu um look especial ao filme. Acho também que as participações de Daniel Rezende, o montador, que trazia o frescor e influências de sua origem como DJ, e o roteiro do Bráulio fizeram do filme um espaço de experimentação. Todos eram iniciantes e traziam novas idéias. Demos muita sorte. Tudo foi dando certo e acabou contribuindo com o resultado final do filme.

   O QUE MUDOU COM O FILME

Meirelles. Mudou tudo! Uma semana depois da exibição do filme no Festival de Cannes, em 2002, recebi dezenas de roteiros de diversos produtores internacionais. Quase todos os filmes eram relacionados a gangues e histórias de gueto. Fui literalmente atropelado pelo mercado internacional. Acabei desenvolvendo um projeto com César Charlone chamado Intolerância, que era filmado em vários países diferentes. Um dia, voltando de visitas de locações na África conheci um produtor inglês que me ofereceu o roteiro de O jardineiro fiel. Gostei do projeto, pois além de ter locações na África, local provável de filmagem de Intolerância, estava muito interessado sobre a legislação da indústria farmacêuticas, uma verdadeira máfia. Queria cutucar essas pessoas com meu filme. Pela primeira vez, trabalhei com atores profissionais de cinema. Era uma realidade totalmente diferente. Um grande desafio também, pois teria que dirigi-los em inglês. Enquanto em Cidade de Deus ensaiamos por nove meses, em O jardineiro fiel li o roteiro com Ralph Fieines apenas duas vezes e foi o suficiente.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Meirelles. Foi mais uma jogada do destino. Tinha lido o livro há muito tempo e resolvi que queria filmá-lo. Seria meu primeiro filme. Procurei José Saramago [escritor português, autor do romance de mesmo nome] na época, que não se interessou em transformar o livro em filme. Anos depois, um produtor me ofereceu para fazê-lo. Procurei Saramago para me ajudar a desenvolver o roteiro. Queria muito a sua colaboração. Ele me disse que não queria se meter. Que o filme era meu. O filme teve locações no Canadá, Japão e Brasil. Filmamos em São Paulo. Queria muito que fosse filmado no Brasil. Acho que uma das minhas missões é tentar internacionalizar o cinema brasileiro. Quero botar o Brasil no circuito internacional. Sempre pensei no Saramago enquanto fazia o filme. Era uma responsabilidade muito grande adaptar esse livro. Quando passou no Festival de Cannes, em 2008, foi uma verdadeira catástrofe. As críticas foram muito duras com o filme. Logo depois fui para Lisboa mostrar o filme para Saramago. Durante a exibição ele não deu uma palavra e não demonstrou uma única reação. Os créditos começaram a subir e ele não falava nada. Quando a luz acendeu, olhei para o lado e ele estava chorando. Tinha adorado e estava emocionado. Respirei aliviado.

PRÓXIMOS PROJETOS

Meirelles. Acabei de fazer uma série para a TV Globo, chamada “”Som e fúria”” [Estréia prevista para julho]. É sobre uma companhia de teatro. Usamos cerca de 100 atores com um texto muito simples e direto. Chamei diretores estreantes para dirigir alguns episódios e fiz a direção geral. Meu próximo filme deve ser uma comédia escrita pelo Jorge Furtado. Queria muito um dia adaptar para o cinema Grande sertão: veredas [clássico de Guimarães Rosa] e tem outro projeto chamado Eumina, que seria uma grande saga filmada na costa oeste da África, mostrando como aconteceu o tráfico negreiro com o Brasil. Mostraria o nascimento destes africanos nas tribos até a morte nos engenhos no Brasil.

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