Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 02.07.2013 02.07.2013

Mediadoras da Flip contam como se preparam para as mesas

 
 
 
 
 
Por Andréia Martins
 
Quem frequenta a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) – ou já esteve no evento pelo menos uma vez – sabe bem que, se uma mesa não atende às expectativas do público, a culpa é sempre do mediador. Não é raro ouvir comentários como “Ele não soube domar o entrevistado”, “Se perdeu no tema”, “Falou demais e não fez perguntas relevantes”, entre outros. Vida de mediador não é fácil.
 
A mediação é imprevisível, especialmente porque, em algumas ocasiões, o mediador só encontra os entrevistados um pouco antes da mesa, e pode ser que “não role química”. Em outras, é o escritor que nem sempre acorda a fim de muita conversa. Este ano, José Luiz Passos, escritor e professor na UCLA (Universidade da Califórnia), e a jornalista Noemi Jaffe vão sentir na pele, pela primeira vez, o desafio complicado – mas prazeroso – de ser mediador da Flip.
 
Passos, que também participa como autor convidado, vai mediar duas mesas sobre o homenageado desta edição, Graciliano Ramos (“Graciliano Ramos: ficha política” e “Graciliano Ramos: políticas da escrita”). “Fiquei muito contente com o convite. Sou leitor de Graciliano desde a escola. E, talvez mais do que qualquer outro escritor brasileiro, ele e Jorge Amado eram muito lidos na minha casa. A presença de Graciliano na minha escrita é particularmente forte no meu romance O Sonâmbulo Amador (Alfaguara, 2012)”, conta o professor.
 
O escritor e professor José Luiz Passos
 
Já Noemi foi escalada para três conversas com jovens escritores: Alice Sant'Anna, Ana Martins Marques e Bruna Beber na mesa “O dia a dia debaixo d’água”; Daniel Galera e o francês Jérôme Ferrari na mesa “Tragédias do Microscópio”; e as poetas Malika Booker e Roberta Estrela D'Alva, que falarão sobre “poetry slam”, ou poesia com performance. A preparação não teve segredo: leituras e marcações.
 
“À medida que lia [as obras dos participantes], ia fazendo anotações nas margens dos livros. Em seguida, copiei todas as minhas anotações para ter uma visão do conjunto, das diferenças e semelhanças, e poder pensar em questões comuns e ao mesmo tempo intrigantes, que façam um recorte original das obras e que despertem a curiosidade do público, sem precisar parafrasear os textos. O roteiro é simples: apresentação, uma questão mais geral e reflexiva e pequenas questões mais tópicas, com um momento para leitura”, diz a jornalista.
 
Passos também vem se dedicando a leituras extras na sua preparação, como O Velho Graça, de Dênis de Moraes; textos de Sérgio Miceli sobre a relação entre intelectuais, artistas e o Estado Novo; ensaios de Erwin Torralbo como “Graciliano Ramos, uma poética da insignificância”; e títulos como Sob o Signo do Silêncio (Edusp, 1992), de Lourival Holanda, e Corpos Escritos (Edusp, 1992), de Wander Melo Miranda.
 
“As mesas são sempre mais interessantes quando tomadas na sua relação com outros autores e temas e com tudo aquilo que cada um dos participantes traz na bagagem. Não há como isolar Graciliano, ou a visão política de Graciliano, dos outros autores e temas do período, ou mesmo do que está acontecendo agora”, diz ele.
 
Embora estreantes na Flip, ambos estão preparados para discordâncias e imprevistos. “É praticamente inevitável não haver discordâncias”, diz a jornalista. “Espero que desta vez aconteçam poucas. Acho que estou me preparando bastante para que o público se sinta curioso. O legal é o acaso, a surpresa e saber lidar com isso de todos os lados: autores, público e mediador”.
 
No caso de Passos, imprevistos já fazem parte da experiência. “Numa ocasião, logo após o início de uma mesa, num congresso, faltou energia. Sem luz nem ar-condicionado, saímos todos para o pátio. É claro, a mesa passou a debater o tema do apagão. Acabou sendo um contratempo produtivo”.
 
REGRAS PARA UM BOA MEDIAÇÃO
Em 2012, a professora e jornalista carioca Cristiane Costa escreveu um texto sobre “as dores e delícias” de ser mediador da Flip, publicado no blog do evento. Além das leituras, obrigatórias para conhecer melhor os parceiros de conversa, ela diz não abrir mão da cola.
 
A professora jornalista e escritora Cristiane Costa
 
“Morro de inveja daqueles que, como Arthur Dapieve, têm uma memória prodigiosa e decoram os dois, três parágrafos em que apresentam a vida e obra do(s) autor(es). Para mim, a chance de dar branco na hora é de 100%. Então, por mais que eu tenha lido e relido meu texto, não abro mão da folhinha rabiscada. Nem da caneta para ir riscando as perguntas já feitas”, escreveu a jornalista, que este ano participa da programação extra da Flip, na mesa "Narrar a rua”, sobre as manifestações que vêm ocorrendo no Brasil.
 
No mesmo texto, ela chegou a fazer uma lista de 10 mandamentos para uma boa mediação. Alguns são básicos, como: evitar discursar, prestar atenção nas respostas para encaixar uma pergunta nova, ser breve, checar e rechecar os dados para não cometer uma gafe, organizar o tempo, entre outros. Mas um é extremamente importante para deixar a conversa mais solta.
 
"Não se leve muito a sério. Perfeccionismo é meio caminho andado para o nervosismo. Ter cara de pau é fundamental para um mediador. Ele deve parecer à vontade, improvisar, brincar. É melhor falhar de vez em quando do que se fingir de robô ou dar pinta de que está em pânico".
 
 
 
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