Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 14.08.2012 14.08.2012

Mauricio de Sousa é um dos destaques da 22ª Bienal do Livro de São Paulo

 
 
 
 
Por Marcelo Rafael
 
Com 17 lançamentos por sete editoras diferentes, Mauricio de Sousa está com a agenda lotada nesta Bienal. Entre as novidades, estão o surgimento de Chico Moço, versão jovem de Chico Bento, e o álbum Ouro da Casa, que traz versões dos personagens da Turma da Mônica na visão de profissionais dos estúdios Mauricio de Sousa, no estilo dos MSP50 já lançados anteriormente.
Entre uma sessão de autógrafos e outra, sempre bastante concorridas, Mauricio conversou com o senador Eduardo Suplicy e com Thalita Rebouças durante a Bienal.
Nos títulos que chegam agora, a turminha passeia por vários ambientes como folclore e até mesmo religião, com Turma da Mônica Visita Aparecida e os livros pop-ups Brincando de Folclore.
Mauricio, que se considera religioso, afirmou que está estudando sobre religiões e se preparando para tocar mais no assunto, de maneira suave, sem sectarismo, agressões ou preconceitos. Além de estar estudando a Bíblia, está também lendo o Alcorão, que ganhou de um amigo.
O quadrinhista também falou sobre novas mídias, folclore, o futuro de personagens como Tina e Chico Bento, além do polêmico personagem supostamente homossexual, surgido em 2009 justamente no gibi adolescente Tina.
Como surgiu a ideia de o pessoal da casa começar a trabalhar?
Mauricio de Sousa. Foi uma coisa natural. Nós estávamos usando 50 desenhistas no primeiro livro, 50 no segundo, 50 no terceiro, daí, achamos que precisávamos parar um pouquinho porque tinham mais desenhistas e tinha mais qualidade. E bons. Gente boa. Mas aí, a gente olhou pra o interior da nossa casa, do nosso estúdio, e imaginou que podia também ter “diamantes” esperando serem descobertos, fora do que eles faziam normalmente. Então, conversei com o Sidão (Sidney Gusman, tatatata), e achamos um título: em vez de “Prata da Casa”, que seria o natural, achávamos que valia mais, já estávamos intuindo que ia sair coisa boa – como saiu –, então eu joguei um “Ouro da Casa” e o Sidney editou. Com alguns funcionários do estúdio, o Sidney precisou quase brigar para convencê-los a fazer porque eles mesmos não acreditavam que fariam uma coisa diferenciada do que fizeram durante anos e anos. Eles foram se buscar – talvez até nas origens – para fazer uma coisa diferenciada, e saíram maravilhas. Até eu estou pensando em usá-los para fazerem outras coisas além do que já fazem.
 
E como foi definir quem iria participar?
Mauricio de Sousa. Aí nós não limitamos. Nos outros números, a gente limitou a 50 desenhistas. No Ouro da Casa, eu achei que quem quisesse desenhar, que viesse. Daí, fomos administrando apenas o tamanho da história, o volume do material, para caber num livrão de 200 páginas. E daí, acho que couberam 80 artistas.
 
No álbum 50 Anos de Chico Bento, lançado agora, aparece a primeira versão dele jovem, o Chico Moço. Ele vai surgir logo?
Mauricio de Sousa. O Chico Moço não vai ser tão mangá como Turma da Mônica (Jovem), mas já está por vir. Estamos estudando. Os primeiros sinais estão neste volume aí. Estamos ajeitando a Rosinha, o Zé Lelé, tudo o mais, para serem “moços” também, e o Chico Bento que vai sair “moço” não é tão diferente do que já está ali marcado.
 
A Turma da Mônica sempre passeou por diversos assuntos…
Mauricio de Sousa. Ela é ecumênica. Ecumênica em todos os sentidos.
E quando ela entra justamente em temas religiosos, qual a importância que você acha que têm esses livros para a criançada?
Mauricio de Sousa. Olha, eu acredito muito na força da religião. E a maioria das religiões do mundo, elas pregam o bem, um sistema comportamental positivo, pregam família… É muito próximo. As religiões são muito próximas na sua essência. Então, nós falarmos de diversos tipos de religiões sem falar que tal personagem ou é católico, ou é evangélico, ou é espírita, eu acho que estamos no bojo de uma tendência que está em estudo, que virá por aí, de passar para os religiosos e para o povo em geral que as religiões quase que têm a mesma origem filosófica. Eu não tenho nada contra os personagens circularem para mostrarem alguns tipos de crenças diferenciadas, mas o básico das religiões é a mesma coisa.
 
Outro tema em que a turminha sempre toca é o folclore. E nós, no Brasil, apesar de termos lendas e mitos muito ricos, sofremos um pouco de invasão do folclore de outros países, apresentado por meio de livros e também por desenhos animados. Você acha que saímos perdendo um pouco nisso?
Mauricio de Sousa. Quando o folclore começa a se misturar e virar universal, vira mais folclore. Fica mais forte. E isso atende a uma ansiedade, curiosidade ou a algum momento em que a pessoa precisa fantasiar um pouco. Então, se aqui não tem múmia, mas no folclore, por aí, tem múmia… Tem lobisomem aqui, então porque que a gente não vai “exportar” lobisomem? Então, como conhecimento humano, a comunicação está derrubando fronteiras, daqui a algum tempo o folclore será universal. Nós vamos ter conhecimento com diversos tipos de contos, figuras, lendas que estarão correndo no mundo todo. Já está começando a acontecer isso. E isso não é negativo. Precisa haver mais conhecimento das lendas, do momento de fantasia que o ser humano às vezes precisa. E se nós quisermos reagir, criemos também mais. Joguemos. Na comunicação, nos livros, nos desenhos, nos filmes. Vamos criar mais.
 
Em 2009, na revista voltada para o público mais adolescente, a Tina, surgiu um personagem muito polêmico…
Mauricio de Sousa. O que foi aquilo? Provocação? Experimentação? Ousadia? Foi tudo isso.
 
E você acha que a sociedade está pronta para aceitar um personagem homossexual?
Mauricio de Sousa. No bojo de comunicações infantojuvenis, ainda não. Ocorrem três coisas: uma minoria bate palmas, diz que “tudo bem”, outra acha que de jeito nenhum pode-se fazer isso e outra que tem que fazer de outra maneira. Ou seja, nós não achamos um Norte, no tipo de publicação infantojuvenil, para tratarmos de assuntos como esse, de uma minoria ou de assuntos de minoria. Nós temos que esperar o momento quando não só as minhas revistas, mas as outras revistas, mais ou menos da mesma linha, comecem a ir para outras propostas, ver o que vai acontecer e, daí, a gente ir em frente. É como eu sempre falo: a Turma da Mônica não deve levantar uma bandeira, ela deve olhar a bandeira que está passando e, daí, sim, a gente pega.
Houve algum protesto de religiosos?
Mauricio de Sousa. Não chegou a haver porque o que nós fizemos aqui foi muito suave. Tem vários tipos de interpretações, mas, como havia a possibilidade de um determinado sentido, houve muito protesto e algumas ameaçazinhas.
 
E ele já apareceu em outra revista? Vai continuar como personagem da Tina?
Mauricio de Sousa. Vai continuar. E a Tina vai virar uma revista para adulto mesmo, inclusive com desenho diferenciado. Ela vem com 22, 23 anos, falando de todos os assuntos. Talvez… não venha em papel! A internet é mais acessível… Ou melhor, ela é mais permeável para introduzir algumas mudanças.
 
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