Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 04.02.2010 04.02.2010

Mas que puxa, Charlie Brown!!!

Por Bruno Dorigatti
Arte de Charles Schulz

 
 
Mas que puxa, Charlie Brown! Assim bem poderia ser a reação da turma reunida em Peanuts, não esquecendo do beagle Snoopy e do passarinho Woodstock, ao saberem que todas as tiras – isso mesmo, todas as 17.897 tiras – sairiam em uma coleção completa, com edição caprichada, capa dura, todos os volumes acompanhados de uma introdução especial e inédita, além de material exclusivo, como a entrevista do próprio criador, Charles Schulz que acompanha o primeiro volume. 

A iniciativa da editora norte-americana Fantagraphics Books começou em 2004, com a edição de The complete Peanuts 1950-1952 (Volume 1) e ainda está longe da acabar. Em março de 2010 sai, lá nos Estados Unidos, o volume 13, que trazem as tiras de 1975 e 1976. Seguindo a lógica de dois volumes por ano, ainda faltam 12 para completar as quase 18 mil tiras que Schulz criava diariamente, sem interrupções, não ficando um dia sequer sem publicar, até o fim de sua vida, em 2000. A última tira, da série que hoje é publicada em mais de 2.600 jornais ao redor do planeta, saiu no dia seguinte à morte de Schulz, depois de 50 anos ininterruptos. 

É a versão integral da coleção que a L&PM começou a lançar por aqui no final de 2009. E pretende fazê-la na íntegra, com o mesmo esmero da edição original. O segundo e o terceiro volumes estão previstos para 2010, e cobrem os anos de 1953-1954 e 1955-1956. 

Mas, afinal, do que tratam os quadrinhos insólitos que por meio século abalaram, comoveram e divertiram os fãs das tirinhas desenhadas assiduamente por Schulz? Produzido a partir do pós-guerra, Charlie Brown e o resto da turma, que vai aparecendo aos poucos, retrata a infância nada idealizada, um pouco até realista demais, e perpassada pela melancolia e inadequação, mas também pelo riso leve e sublime, a amizade e a descoberta do amor, presentes na tragicomédia diária que é a vida, a nossa vida, a vida de todo e qualquer ser humano, sobretudo ocidental, cujos códigos compreendemos bem. 

Como afirmou Umberto Eco, “o mundo de Peanuts é um microcosmo, uma pequena comédia humana, tanto para o leitor inocente como para o sofisticado”. Na facilidade de comunicar, transmitir sensações e sentimentos comuns a todos, de qualquer idade e origem, mora uma das razões do estrondoso sucesso que as tiras alcançaram. Não à toa, viraram desenho animado – com trilha sonora jazzística e de música clássica -, o que alavancou a popularidade da turma, sobretudo de Snoopy, tranquilamente alçado à condição de astro da cultura pop ocidental. Os primeiros a virem dos quadrinhos, diga-se. Uma indústria multinacional envolvendo, além dos quadrinhos e da animação, teatro, cinema, televisão, literatura e música, vendendo, além de livros, camisetas, bonecos e um sem número de artigos com a imagem e a forma dos personagens imaginados por Schulz.

O primeiro volume, que cobre um pouco mais de dois anos da tira – a primeira saiu em 2 de outubro de 1950 –, é uma deliciosa viagem às origens de Charlie Brown, Lucy, Linus e Snoopy, em traços um tanto distantes do que eles viriam a se tornar alguns anos depois e, por isso mesmo, uma interessante descoberta saber como cada um deles começou, acompanhar o desenvolvimento, as alegrias e derrotas, as leves sacanagens e a complacência, o riso sublime e uma tristeza que por vezes invadem suas vidas. Podem guardar boas horas, caros leitores, para passar ao lado de Minduim, Snoopy e companhia. A satisfação é mais que garantida, além de um conhecimento e mergulho em nós mesmos. Não se sai dali com soluções e respostas, mas um pouco menos descrente na falha que é o ser humano.
 

 
 
 
 
> Confira as dez primeira páginas do primeiro volume, lançado no Brasil pela L&PM
 
 
 
 
 
 
 

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