Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Livros 01.02.2021 01.02.2021

Mary Shelley, a criadora de Frankenstein o Prometeu Moderno

Deus criou a vida e a Humanidade. E Mary Shelley criou Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, um dos romances seminais de ficção científica e terror gótico.

Independentemente de quais sejam as suas crenças sobre a origem da vida e da espécie humana, leve em consideração esses dois conceitos  para entender porque a obra-prima de Mary Shelley tem esse nome, e porque, mesmo passados mais de 200 anos do lançamento desse clássico da literatura, ele permanece tão atual que poderia ter sido escrito nos dias de hoje.

Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, é uma história de amor, horror e tragédia, que alerta ao perigo do Homem brincar de Deus, ou com forças que não é capaz de compreender totalmente E uma leitura obrigatória para quem busca um excelente entretenimento, acompanhado de muita reflexão.

Para entender a importância da obra prima de Mary Shelley, que elas escreveu com apenas 17 anos, é preciso entender porque ela tem o título de O Prometeu Moderno, lembrando do Prometeu original, o titã da mitologia grega.

O Mito de Prometeu

De acordo com o mito, Prometeu roubou o fogo de Zeus para dá-lo de presente à Humanidade. Por sua transgressão contra o rei dos deuses, foi condenado a ser acorrentado a uma montanha, aonde um abutre vinha todos os dias devorar seu fígado, que se regenerava no dia seguinte, para ser novamente devorado, em um castigo cruel e interminável, que só terminou quando ele foi libertado por Hércules.

No mito original, o castigo de Zeus contra Prometeu parece o de uma divindade mesquinha e cruel. Uma punição desproporcional contra um ato que só buscou o bem comum, e poderia ser visto até como uma brincadeira. Mas que também pode ser encarado como de vaidade e inconsequência.

Se o fogo antes pertencia apenas aos deuses, é porque seu poder permitia controlar e moldar a natureza. Mas quando saia do controle, era fonte de grande destruição e sofrimento, com o  qual o ser humano não tinha sabedoria para lidar.

Porque Victor Frankenstein é o Prometeu Moderno

O doutor Victor Frankenstein criou seu monstro porque queria criar vida, se igualando assim a Deus, ou á natureza. Um ato que se explicava pela busca do conhecimento, que elevaria a espécie Humana. Mas também, de vaidade e imprudência.

Mas ao se deparar com a aparência de sua criatura, o doutor Frankenstein se descontrola e foge, abandonando sua criação. A criatura de Frankenstein é inteligente e embora tenha o tamanho e a força física muito maiores aos de um ser humano adulto, emocionalmente, é como um bebê, que requer carinho, atenção e orientação.

Como vingança pelo abandono, consequências da incapacidade do cientista de lidar com as consequências de seus atos, o monstro persegue o doutor Frankenstein e causa a morte de todos os que ele ama, infligindo um sofrimento interminável, como o do Prometeu original, acorrentado à montanha.

Porque Mary Shelley estava à frente do seu tempo e Frankenstein é sempre atual

Frankenstein, ou o Prometeu moderno, foi escrito em uma época em que a ciência começava a ter seus grandes avanços, e muitos acreditavam que não haveria limites para as maravilhas que poderiam ser geradas. E ao mesmo tempo, surgiram os primeiros questionamentos éticos e morais sobre os limites que ela poderia ter, pelos perigos que poderia criar.

Passados mais de 200 anos, o dilema permanece atual. É atribuída ao físico alemão Albert Einstein, maior cientista do Século XX a seguinte frase, ao ponderar sobre os avanços da Era Nuclear. A libertação do poder do átomo mudou tudo, exceto a nossa maneira de pensar…a solução para este problema reside no coração da Humanidade.

Não conseguimos confirmar quando e onde Einstein disse isso. Muito menos, se ele teria lido Frankenstein. Mas a ponderação poderia ser feita por qualquer cientista, em qualquer tempo,  no limiar de uma grande descoberta científica, comprovando que o questionamento de Mary Shelley continua sempre atual.

Mary Shelley e a ciência

Uma mulher tão à frente de seu tempo, como Mary Shelley , não poderia de maneira nenhuma ser considerada uma defensora do obscurantismo, que acreditava que a ignorância fosse uma benção. Ou que a humanidade deveria abrir mão da pesquisa e do progresso científico com medo do que esse progresso pudesse trazer, iludida pela falsa sensação de segurança de nunca ter de lidar com o novo.

Ela sem dúvida percebia os grandes benefícios trazidos pelo progresso científico. O que Mary Shelley fez ao escrever Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, foi lembrar não somente aos cientistas, mas à toda a Humanidade da necessidade de responsabilidade por nossas decisões, porque nem sempre todas as consequências são previsíveis. Ou controláveis.

Influência de Mary Shelley e Frankenstein na cultura pop

Desde seu lançamento, em 1 de janeiro de 1818, há mais de 200 anos , Frankenstein que apesar de todos os conceitos que carrega não é uma leitura difícil, muito pelo contrário, prende o leitor do início ao fim, se tornou um dos personagens mais conhecidos e amados da cultura pop, especialmente quando chegou às telas de cinema.

A primeira versão é de 1910, em um filme do cinema mudo produzido por Thomas Edison (sim, ele mesmo ! O inventor da lâmpada elétrica), que  era uma adaptação livre do romance de Shelley, com menos de 40 minutos de duração, com apenas 3 atores: Charles Ogle, como o Monstro, Augustus Philips, como o Doutor Frankenstein e Mary Fuller, como a noiva do cientista.

Mas a versão que ganhou os corações do público no mundo inteiro e serve de referência até hoje sobre a aparência do Monstro de Frankenstein é de 1931, com o doutor Henry Frankenstein (sim, o nome foi mudado! )vivido por Collin Clive, e o monstro vivido pelo lendário ator Boris Karloff.

Não é uma versão tão fiel ao livro de Mary Shelley, sendo na verdade adaptado de uma peça teatral da década de 1920.  É nesse clássico dos filmes de terror que o  doutor Frankenstein, após levantar o monstro em uma plataforma, durante uma tempestade, para receber a descarga elétrica de um relâmpago grita it´s moving! It´s alive! It´s Alive! Está se movendo! Está vivo! Está vivo!

Esse filme também definiu a aparência pela qual o monstro de Frankenstein se tornou conhecido no mundo inteiro desde então, verde e com dois parafusos no pescoço. Essa não foi a concepção original de Mary Shelley, que o imaginou com a pele amarelada, mal cobrindo os músculos dos pedaços de cadáveres com os quais ele havia sido montado.

A cabeça quadrada e cheia de cicatrizes do monstro foi uma adaptação livre do maquiador Jack Pierce, e diz a lenda que os parafusos no pescoço ajudavam de alguma maneira a fixar a máscara e as próteses no corpo de corpo de Boris Karloff, que ainda usava os enormes, e indefectíveis,  sapatos recheados de asfalto, para criar o caminhar lento e pesado pelo qual o monstro de Frankenstein entrou na imaginação do mundo inteiro.

A maneira como criador e criatura foram retratados influenciou as adaptações posteriores. Algumas obscuras, como Horror de Frankenstein, com David Prowse, antes de ser escolhido para viver Darth Vader em Star Wars, no papel de monstro. Outras absolutamente escrachadas, como a comédia O Jovem Frankenstein, de Mel Brooks, com o cientista louco vivido pelo impagável Gene Wilder, o monstro por Peter Boyle e o assistente, Igor, por Marty Feldman.

A curiosidade é que Igor, o assistente corcunda do Dr. Frankenstein, não existe no livro, e na maioria das adaptações, serve como um alívio cômico. Mas acabou virando uma espécie de ícone pop. Em Victor Frankenstein, uma adaptação de 2015 que passou despercebida nos cinemas, Igor é vivido pelo eterno Harry Potter Daniel Radcliffe e o cientista por James McAvoy, famoso pelo papel de Professor Xavier em X-Men.

Em 1994 foi lançada a adaptação mais fiel ao livro para as telas, Frankenstein de Mary Shelley, com Robert de Niro no papel de monstro e Kenneth Branagh, que também dirigiu, como o Dr. Frankenstein. De Niro caprichou em uma interpretação e um visual muito fiéis aos conceitos de Mary Shelley, mas nem isso foi suficiente para mudar a imagem de cabeça quadrada e 2 parafusos no pescoço que todos têm do monstro de Frankenstein.

A vida de Mary Shelley poderia dar um filme. Ou vários. Mas o único até o momento é de 2018, como comemoração dos 200 anos de lançamento de Frankenstein, que conta a história da jovem feminista Mary Wollstonecraft Goodwin, que saiu de casa aos 16 anos e conheceu o poeta Percy Shelley, com quem viria a se casar. Na cinebiografia, Mary Shelley foi interpretada por Elle Fanning.

Está vivo! Frankenstein está vivo. E Mary Shelley também, nos corações de milhões de leitores no mundo inteiro. Celebre lendo, ou relendo, o livro.

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