Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 25.11.2014 25.11.2014

Marjorie Estiano lança ‘Oito’, que mistura canções inéditas e regravações

Por André Bernardo
Havia sete anos que a atriz, cantora e compositora Marjorie Estiano não lançava um álbum novo. Também, pudera. Desde 2007, essa curitibana de 32 anos não faz outra coisa a não ser emendar um trabalho no outro.
Foram cinco novelas: Páginas da Vida, de Manoel Carlos; Duas Caras, de Aguinaldo Silva; Caminho das Índias, de Glória Perez; A Vida da Gente, de Lícia Manzo; e Lado a Lado, de João Ximenes Braga e Cláudia Lage. E três filmes: Malu de Bicicleta, de Flávio Tambellini; O Tempo e o Vento, de Jayme Monjardim; e Apneia, de Maurício Eça.
E por pouco, muito pouco mesmo, um espetáculo: Elis, A Musical. “Fiquei lisonjeada com o convite, mas não daria para fazer a peça e o CD ao mesmo tempo”, diz, justificando a recusa.
De volta à rotina de ensaios, shows e afins, Marjorie Estiano resolveu apostar num repertório mais autoral. Em vez de simplesmente cantar a música composta por outros artistas – como aconteceu nos dois primeiros álbuns, Marjorie Estiano (2005) e Flores, Amores e Blablablá (2007) –, decidiu, ela mesma, escrever suas canções.
Das 11 músicas que integram o álbum Oito, oito são de sua autoria. Destaque para “Donde Estás”, composta em espanhol por Marjorie e André Aquino, e “Driving Seat”, escrita em inglês e a oito mãos, com Aquino, Daniel Lopes e Alexandre Castilho. “Tento respeitar o caminho próprio de cada canção. No caso de ‘Donde Estás’, por exemplo, a latinidade da harmonia me levou a escrever a letra em espanhol”, detalha.
Dona de um gosto musical eclético, Marjorie já flertou com os mais variados gêneros e estilos. No DVD Marjorie Estiano e Banda (2005), aventurou-se por “Até o Fim”, de Chico Buarque; “Cherish”, de Madonna; e “This Love”, do Maroon 5. Em Flores, Amores e Blablablá (2007), atacou de “Oh, Darling!”, dos Beatles.
No DVD Casa da Bossa (2006), revisitou a antológica “Wave”, de Tom Jobim. Em seu novo trabalho, Marjorie resgatou uma das pérolas do repertório de Carmen Miranda: a marchinha “Ta-Hí”, composta por Joubert de Carvalho em 1930 com o título provisório de “Pra Você Gostar de Mim”. “Gostei da versão que fizemos para o show ‘Combinação Sobre Todas as Coisas’ (2010) e resolvi incluí-la no CD”, explica.
Seu álbum anterior, Flores, Amores e Blablablá (2007), trazia apenas uma canção de sua autoria, “Desencanto”, composta com Alexandre Castilho e André Aquino. Já Oito, seu mais novo trabalho, reúne oito músicas suas, sozinha ou em parceria. Você diria que essa é uma das principais diferenças entre um trabalho e outro?
Marjorie Estiano. A diferença está, antes de qualquer coisa, na origem. Nos outros dois trabalhos, eu fazia parte de um projeto, era um dos elementos. Era a interlocutora do repertório da personagem que fazia em Malhação no primeiro, Marjorie Estiano (2005), e o segundo, Flores, Amores e Blablablá (2007), de certa forma, continuou em torno disso. Já o novo álbum foi concebido a partir de mim. Era minha necessidade de me expressar musicalmente.
Em Oito, seu terceiro álbum, a atriz, cantora e compositora de 32 anos aposta em repertório autoral
Do que mais gosta: escrever letra ou compor melodia? Apesar da pouca experiência, já conseguiu estabelecer um método na hora de compor?
Marjorie Estiano. Acho que, até o momento, tenho mais facilidade para fazer a música, justamente porque sou bastante racional. A minha “metodologia” se fez a partir da percepção das canções. Tento respeitar o caminho próprio de cada uma delas. Isso se tornou um padrão, e todas tiveram suas particularidades. O processo não se repetia, nunca era igual. Talvez essa relação já faça parte de uma metodologia. Só vou conseguir teorizar sobre a arte de compor depois de um tempo maior exercendo essa função.
Já houve letra ou música de sua autoria que não tivesse coragem de gravar?
Marjorie Estiano. Tem algumas que não estão prontas e, por isso, ainda não as gravei. Mas repertório é um organismo vivo. Talvez a que fiz hoje já não compartilhe da mesma essência do período em que estiver gravando um próximo CD. É o retrato de um momento.
Das oito canções que você compôs, uma delas, “Driving Seat”, é em inglês, e a outra, “Dónde Estás”, em espanhol. Tentar a carreira no exterior é algo que você almeja?
Marjorie Estiano. Não necessariamente. Não foi pensando nisso que essas músicas tomaram essa forma. O processo de criação foi livre. As canções impunham suas características e nós tentamos potencializá-las. Cada uma teve um processo particular e independente. Sentíamos essa latinidade na harmonia e na melodia de “Donde Estás”, o que nos levou a escrever a letra em espanhol. Com “Driving Seat”, aconteceu a mesma coisa. A métrica e a melodia nos induziram a uma letra aberta, com muitas vogais, mais redonda, e, então, escrevemos em inglês, em parceria com o Daniel Lopes. A minha vontade e a do meu parceiro e empresário, Jeff Neale, é explorar esse trabalho na sua totalidade, seja lá onde for.
Você levou sete anos para gravar seu novo álbum. Esse tempo foi proposital para o público dissociar sua imagem da Natasha, de Malhação? A frequente alusão à baixista da fictícia Vagabanda é algo que chega a incomodá-la?
Marjorie Estiano. Não, não foi planejado. Foi o tempo que levou para o projeto ter a sua estreia. Além do CD, eu tinha vários outros projetos e desejos nesses sete anos. Ele estava em gestação durante a execução dos outros. Até que chegou a vez de ele aparecer. Hoje em dia, não é tão frequente a associação da minha imagem à da personagem de Malhação. Quando me abordam na rua, as pessoas tendem a se referir ao trabalho mais recente e a recordar de um ou outro, que, por alguma razão, foram marcantes para elas. A associação se faz mais neste momento, em que estou lançando um novo disco. Mas isso é absolutamente natural. Os CDs anteriores foram em parceria com ela. Era o repertório da personagem. Acho eficiente a comparação, porque emparelhar os dois momentos ajuda a distingui-los também.
Você já gravou de Chico Buarque a Beatles, de Maroon 5 a Tom Jobim, de Lô Borges a Madonna. O que mais gosta de ouvir? Em quem busca inspiração quando entra no estúdio ou sobe no palco?
Marjorie Estiano. Sempre ouvi de tudo. A minha família é muito brasileira, sabe? Minha mãe é baiana, meu pai é paranaense, minha irmã é paulista e minha avó, mineira. Temos uma grande variedade de sotaques lá em casa. O meu interesse por gêneros tão diferentes talvez tenha se dado a partir dessa mistura musical. Hoje em dia, o acesso ilimitado, sem fronteiras, à informação e à cultura permite que você seja influenciado, não só musicalmente falando, de uma maneira que talvez nem passe pelo racional. Ainda hoje, continuo ouvindo de tudo.
“A rotina de gravação de uma novela consome bastante e tem muitas variáveis. Para conseguir conciliar teatro ou shows durante o período de gravação de uma novela, depende de muita coisa. E nem sempre é possível”
A marchinha “Ta-Hí”, de Joubert de Carvalho, já foi gravada por Carmen Miranda, Maria Bethânia, Eduardo Dussek, Fernanda Takai e Roberta Miranda. Você ainda se lembra da primeira vez que ouviu “Ta-Hí”? Por que decidiu gravá-la?
Marjorie Estiano. Nem lembro mais quando conheci a música, me parece que desde sempre. Faz parte do inconsciente coletivo. Foi um resgate do “Combinação Sobre Todas as Coisas”, show em que reuni as músicas que, independentemente de gênero ou discurso, mais gostava de cantar…. Gostei tanto da versão que fizemos para “Ta-Hí” que resolvemos gravá-la no CD.
O álbum Oito traz duas participações especiais: Gilberto Gil, na faixa “Luz do Sol”, e Mart’nália, em “A Não Ser o Perdão”. No caso do Gil, vocês já tinham gravado juntos “Chiclete com Banana”, em 2007, para o DVD Cidade do Samba. Na hora de escolher os convidados, por que optou pela Mart’nália? Algum motivo especial?
Marjorie Estiano. Quando terminamos de gravar “Luz do Sol”, sentimos que a música pedia um contraponto, um peso na leveza em que ela tinha se estabelecido, e, então, pensamos no Gil. Já nutria uma admiração enorme por ele. Fiz o convite, admito, sem muita expectativa, mas tive um retorno imediato. Ao lado de todos os seus outros atributos, Gil é um homem extremamente generoso, interessado, comprometido… Foi uma experiência linda, que me serve de inspiração como artista e pessoa. Já “A Não Ser o Perdão” é a canção mais bem-humorada do repertório. Quando estávamos fazendo a letra, criamos uma ficção. Imaginamos os lugares que os protagonistas frequentavam, como se vestiam, o que falavam, etc. Mart’nália e seu enorme carisma se encaixaram perfeitamente nesse elenco. Então, fizemos o convite e ela aceitou. Embora nosso encontro tenha sido breve, Mart’nália me parece uma pessoa muito autêntica, bem-humorada, popular… É fácil se identificar com ela, seja em que aspecto for.
Já sabe quando será seu próximo trabalho na TV? Pode-se dizer que, pelo menos por enquanto, a carreira de cantora ainda está em segundo plano em relação à de atriz? Quando está no ar, consegue conciliar a rotina de gravações com a agenda de shows?
Marjorie Estiano. A rotina de gravação de uma novela consome bastante e tem muitas variáveis. Para conseguir conciliar teatro ou shows durante o período de gravação de uma novela, depende de muita coisa. E nem sempre é possível. Mas, quando a possibilidade tem a generosidade da equipe como aliada, acontece. É bastante desgastante, mas existe. Já fiz teatro e novela ao mesmo tempo. Dennis (Carvalho, diretor) foi extremamente generoso quando topou isso comigo. Eu me realizo imensamente nos shows. E pretendo, como antes, conciliar meus desejos com a oportunidade.
É verdade que, durante a gravação do Oito, você chegou a ser convidada para estrelar Elis, A Musical? Por que declinou do convite?
Marjorie Estiano. Dennis me falou do projeto e fiquei lisonjeada com o convite, não só por ter a oportunidade de interpretar essa personalidade mais que intensa e com uma história de vida arrebatadora, mas porque era um projeto bastante emocionante, que envolvia muito afeto por parte de todos os envolvidos. Era uma homenagem para uma amiga. Fiquei angustiada ao perceber que não conseguiria estar com eles. Mas o fato é que não dava para gravar o CD e fazer a peça ao mesmo tempo. As coisas vão encontrando os seus caminhos e a peça encontrou a Laila Garin, que brilhou imensamente.
“Repertório é um organismo vivo. Talvez a música que fiz hoje já não compartilhe da mesma essência do período em que estiver gravando um próximo CD”
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