Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.07.2009 24.07.2009

Mario Bellatin e os silêncios eloqüentes

Por Bruno Dorigatti

Fotos de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Mario Bellatin ao SaraivaConteúdo 

A talidomida, substância usada como sedativo e antiinflamatório, teve uma infeliz aplicação ao ser utilizada em mulheres grávidas para combater os enjôos matinais, nos anos 1960. Logo seria proibida, talvez um pouco tarde, já que o rigor médico estava longe de ser o que é agora (embora continue ainda muito falho, respondendo a interesses escusos), o que ocasionou o nascimento de dezenas de milhares de crianças com má-formação dos membros em todo o planeta. Entre elas, o mexicano Mario Bellatin, nascido em 1960 sem o braço direito. Ele se tornaria escritor, publicando seus primeiros livros nos anos 1980, e, em um livro lançado em 2001, traria para o universo de seus personagens essa questão e condição dos deformados de nascença. Entre as historietas do fragmentário Flores (CosacNaify), lançado no Brasil durante a Flip 2009, onde o autor participou de uma mesa ao lado de Cristovão Tezza, a má-formação de fetos e suas conseqüências é um tema recorrente. Um médico e sua enfermeira, que avaliam se as pessoas que buscam a indenização do laboratório que desenvolveu o medicamento são, de fato, vítimas do remédio, ou estão atrás de ganho financeiro; um escritor que não tem uma perna, vítima da talidomida, e sua errante trajetória; bebês gêmeos, sem os quatro membros; um pai que inocula o vírus da AIDS no próprio filho. Estes são alguns dos personagens que povoam as pequenas narrativas de Bellatin, todas elas permeadas pela discreta presença de flores, que nomeiam os capítulos/contos, daí o título do livro.

Por mais que possam indicar um aspecto sombrio e autobiográfico, as narrativas de Flores provocam outras impressões. É uma inadequação, um estado de incompreensão que permeiam o livro. E sobre a característica autobiográfica, é mera coincidência, afirma o autor. Em Paraty, durante a conversa com Tezza, mediada pelo escritor Joca Reiners Terron, Bellatin – que foi censurado por conta do falo que usava como prótese; o mediador foi aconselhado a não tocar no assunto [foto abaixo] – disse: “O texto deve se sustentar por si mesmo. Tudo o que quero é desaparecer”. Questionado sobre os limites entre ficção e verdade, retrucou: “Não se separa uma da outra. Sinto que não tenho nada a dizer, a não ser o que tenho a escrever. Não tenho menor idéia do que seria [a verdade]. Segundo o leitor, o escritor deveria estar presente em cada linha”. Sabemos que não é assim, porém, e graças, senão a literatura seria um rame-rame tedioso, muito parecido com essa urgência por “realidade” e “verdade” nos dias de hoje, vide os reality shows e similares que se utilizam dessa verdade construída. Como bem pontuou Tezza na mesma mesa, “a percepção estética da vida não pode ser a própria vida”.
Bellatin – autor de Canon perpetuo (1993), Salón de belleza (1994, lançado no Brasil pela editora Leitura XXI em 2007), e El jardin de la señora Murakami (2000) – se sente escritor quando busca – e alcança – o caminho que tentou seguir. São textos fragmentados, mas não feitos a partir de fragmentos, onde há silêncios, vazios construídos, que compõem igualmente a(s) história(s) junto com o que está narrado. Segundo ele, é um ponto neutro da linguagem, a busca pela prosa seca, transparente, o que pode parecer simples, mas é dificílimo. “O ideal era o livro sem autor, que o texto possa ser fiel às regras que o próprio texto se propõe. E com os fragmentos, a tarefa de encontrar a lógica de dentro. Que o texto se defina por si mesmo, consiga voltar-se à própria realidade, de uma maneira que só o texto pode fazer, com sua lógica interna”, tentou explicar Bellatin, a quem interessava muito mais ser um calígrafo do que um escritor propriamente. “Não me dava conta que, para esse exercício de prazer obscuro, era necessário o leitor para que eu possa continuar escrevendo. Por isso inventei o escritor Bellatin.”
A invenção parece ter agradado e, embora hoje integrando certo “cânone na literatura mexicana” – e reforcem as aspas aí –, Bellatin tem uma atuação controversa para alguns, no mínimo curiosa para outros. Uma, que o cânone perdeu aquela aura e aquela coisa obsoleta de outrora, de seguir um caminho, uma bula trilhada a priori, como ele mesmo fala na conversa abaixo. Outra, que mexer com essa personificação e aura exacerbada do autor como algo fundamental pode ser revelador do que se deseja neste início de século com a literatura. Dois casos ajudam a entender. 
Acadêmicos franceses organizaram um congresso em Paris sobre e com os principais autores mexicanos. Bellatin preparou, durante seis meses, atores, que se tornaram especialistas, cada um em um autor mexicano. Aprenderam como o escritor pensava, falava, escrevia, agia, memorizaram as 40 idéias mais importantes dos respectivos autores. Ao chegarem a Paris para o congresso, os especialistas/atores foram destratados e mandados de volta. Afinal, o que se busca em um evento literário? Um show, a presença corpórea, como aparentam ser, como falam, ou suas idéias, o que pensam, como fazem e encaram a arte literária? Uma das possíveis respostas é que a espetacularização da vida, que foi sendo preparada ao longo do século XX, chegou enfim à literatura.
Convidado para participar de um evento sobre “O escritor preferido”, Bellatin ficou dez dias pensando em um autor, ao mesmo tempo em que descartava outros 100. Resolveu então falar de Shiki Nagaoka, “personagem insólito da literatura, escritor de nariz descomunal, impossível, nascido na península de Ikeno, em princípios do século XX, cuja obra foi fundamental para escritores como Rulfo e Arguedas, e a vida, um interminável diálogo entre monstruosidade e beleza, oriente e ocidente, imagem e palavra, espelho e verdade”. A curiosidade dos leitores e espectadores foi a pista para escrever então a história e estórias (Shiki Nagaoka: una nariz de ficción) deste escritor de nariz impossível, que não passa de uma invencionice de Bellatin, apesar das pistas falsas deixadas pelo caminho.
A seguir, Bellatin fala sobre o processo de construção de Flores – que na belíssima edição brasileira da CosacNaify, de Elaine Ramos e Maria Fernanda Álvares, se parece muito com um remédio, tal a talidomida, o livro somente com o miolo (sem capa e contracapa), embalado em um plástico transparente e prateado, não concluído, como a obra, que evoca, pede conclusões próprias dos leitores –; sobre as oficinas literárias que ministra na Escola Dinâmica de Escritores, e que já passou por São Paulo, quando foi feito, em 20 horas, o livro Circunvago (Demônio Negro); e da distância cultural que nos separa aqui na América Latina. 

> Assista à entrevista exclusiva de Mario Bellatin ao SaraivaConteúdo


 

> Leia a íntegra da conversa com o escritor mexicano

Flores (CosacNaify) acabou de sair aqui no Brasil. Como é essa escrita, ao mesmo tempo tão concentrada e fragmentada? E isso já vem de antes, quando você senta para escrever, ou também é desenvolvido na escrita?
 
Mario Bellatin. Bem, foi um trabalho de edição, basicamente, já quando decidi fazer o livro Flores. Eu fui convidado para uma residência de escritores, e supostamente era um lugar para inspirar-se, para poder trabalhar, mas eu não necessitava de um lugar para inspirar-me, porque, creio eu, necessito de um lugar para “desinspirar-me”, pois quero estar escrevendo o tempo inteiro. E então, como eu queria ir a esta residência, saber como era conviver com outros autores, viver esta experiência etc., levei muitos textos escritos por diferentes motivos, por diferentes circunstâncias, em tempos distintos. E aproveitei esse lugar, esse espaço, para construir – a partir desses textos tão dessemelhantes, que haviam sido escritos em diferentes situações, por diferentes motivos –, para buscar qual era a escrita que poderia uni-las, já que haviam sido feitas por mim, e onde estava a minha verdadeira escrita.
 
Este foi um trabalho muito delicado, intelectual, já não literário, criativo, mas de construção. E foi nesse momento que surgiu a idéia das flores para criar essa estrutura, a idéia das técnicas sumérias, de como está escrito o Gilgamesh, todo esse tipo de idéia, para conseguir que muito desses textos, que não tinham nenhum vínculo, tivessem alguma ligação, e pudesse formar um corpo fechado, o que, creio, é o que ocorre com Flores.

Quando li Flores, duas coisas que me chamaram atenção: um certo silêncio, que fala muito também, os momentos de silêncio no livro, que, para mim, dizia muita coisa; e uma inadequação, não sei, de alguns personagens, não por eles mesmos, mas algo que transmitem. Foi a impressão que eu tive. 
 

Bellatin. Sim, é um silêncio construído. Não é o silêncio do nada. Creio que é o silêncio da paisagem depois da batalha, onde tu encontras um silêncio, um silêncio eloqüente. Em um primeiro momento, em que começo a escrever, eu encho demasiadamente as coisas, transbordo, do que se supõe ser a excelência, a prerrogativa ou a qualidade que pode ter um escritor, de criar muitos personagens, de ter uma linguagem muito florida etc. Então onde me dedico realmente, e quando me sinto um escritor é quando faço o trabalho inverso. Quando destruo, faço silêncios onde digo algo, para construir um silêncio. Não é um silêncio porque não há nada, ou que nunca houve nada, que, creio, sentimos em algumas cidades que foram bombardeadas, ou em cidades que tenham tido um passado determinado. Este é um vazio muito eloqüente e creio que foi isso que te ocorreu. Oxalá era essa a intenção que eu tinha e, bom, me alegra muito que tenhas sentido.

Sobre as oficinas literárias, como e porque tu começaste a fazer? E tu chegaste a passar também por estas oficinas?
 

Bellatin. São oficinas literárias um tanto estranhas, não são oficinas tradicionais, onde se reúnem as pessoas, que levam, discutem e comentam seus textos. Nessas oficinas eu não creio tanto. Me parece que está bem que existam, porque qualquer espaço que tenha a ver com literatura é um avanço, porque todos estão contra, creio eu. Então eu faço parte do sistema de criadores do México, um programa no qual o país reconhece seus escritores, lhes dá bolsas de trabalho para poder escrever etc. e como complemento disto, temos que fazer visitas, oficinas em lugares remotos do México, para levar o conhecimento, o que me parece muito interessante. E eu tinha problemas quando tratava de fazer a oficina tradicional, porque vinha de mim, era eu que estava dando sozinho. E eu buscava uma retroalimentação. Então me ocorreu fazer com as pessoas que participavam das oficinas construíssem um livro. E um pouco do que tratam essas oficinas é reunir 15 pessoas durante 20 horas para que, do nada, apareça depois desse tempo, de cinco dias de trabalho, um livro terminado.
 
O livro terá as características, a qualidade de acordo com as pessoas que estão ali reunidas. E eu tenho um trabalho bastante extenuante, porque não posso participar realmente, sou somente uma espécie de espelho, de advogado do diabo, faço perguntas, e trato de dirigir, como um maestro de orquestra, mas não posso intervir nos instrumentos. Creio que mais se aproxima de um maestro de orquestra, estando sem estar, para que cada grupo logre realmente dizer o que deve dizer.
 
Fiz uma oficina aqui em São Paulo, faz dois anos [na verdade, foi no ano passado], e tive um final feliz, porque saiu um livro, que se chama Circunvago (Demônio Negro, 2008), teve um lançamento, onde se vendeu toda a edição, porque era algo como 15 autores, uma edição belíssima. E o que sinto que ocorre nessas experiências é que surge como espécie de um imaginário coletivo de cada lugar onde realizo as oficinas. Não sei, fiz alguns em Tijuana, na fronteira com os Estados Unidos, e lá apareceu o tema da imigração, da violência; lá há uma violência muito grande. No Brasil, a princípio apareceram temas muito óbvios. Me lembro que a primeira idéia foi trabalhar com o tráfico em São Paulo. E saiu um texto poético, muito bonito, uma prosa poética muito parecida a Clarice Lispector, havia uma influência ali, sobre uma reflexão de uma pessoa, a partir da semelhança entre os patos selvagens, os patos silvestres, e se construía um espaço narrativo fantástico, maravilhoso. Estou muito contente com isso.
 
Agora vou começar outras oficinas. Faço uma no próximo mês em Buenos Aires, que vai ser uma oficina a partir do meu trabalho. Vou trabalhar com todo o grupo. Porque, a mim, o que me desespera, de toda a parafernália literária das apresentações, dos encontros, das conferências, das palestras etc. é que não há trabalho, é uma espécie de ornamento. Então esta próxima oficina, por exemplo, não é um ornamento. Não apenas eu chegar e dizer o que penso, mas fazer, trabalhar e criar um livro como testemunho. E a próxima oficina vai se chamar “Leu Bellatin, pode perguntar”. Vamos fazer um curso com as perguntas, vou gravar, registrar, e de acordo com o que acontecer – vão ser três horas seguidas de perguntas – vou armar, com este material, um livro, que vai ser uma espécie de ars poética do meu próprio trabalho, que eu, sozinho, não poderia fazer. Eu, sozinho, talvez não pudesse refletir sobre minha própria escrita e, por isso, eles vão me ajudar, não sei, talvez 40 pessoas que vão estar presentes, com as perguntas. Para eu poder pensar e ordenar uma teia de idéias que tenho, não tenho, ou inventarei no momento, não sei. Mas vão me ajudar, creio eu, a organizar um livro. E é igualmente com esta finalidade, de que os livros podem ser feitos a partir da determinação de alguém, não dependem de ninguém mais, nem de circunstâncias, de um editor, nem da conjuntura para serem feitos. É o desejo de alguém fazer um livro, e vou demonstrar que, em quatro horas, se pode fazer um. Do meio-dia às cinco da tarde haverá um livro. 
 
Igualmente como em vinte horas, com um grupo de gente, se fez um. Porque alguns crêem que eu traga chaves, elementos que em algum momento vou tirar da manga e dizer “não se escreve assim, se escreve assado”. Eu não sei nada, não tenho idéia. Estou ali, mas vê-se milagrosamente como uma radiografia de todo o processo criativo e vê-se como se pode conseguir uma criação. E isso é dirigido a tantas pessoas que dizem “eu escreveria, se tivesse tempo, eu escreveria se tivesse feito uma investigação, estou buscando o tema, a página em branco, eu não sei o que dizer”.
Sobre esta cama [aponta para uma pequena cama de maternidade ou hospital, que havia na casa em Paraty onde aconteceu a conversa] que estou vendo aqui, creio que poderíamos escrever histórias maravilhosas, não?

Vamos falar um pouco sobre o México e o que é a literatura no México. Porque, ao mesmo tempo, a gente faz parte de algo, que é a América Latina, mas somos muito distantes. Aqui no Brasil chega muito pouca coisa. Qual a importância que ela tem lá e como tu vês isso de dentro?
 

Bellatin. Creio que essa distância, mais acentuada com o Brasil, por razões geográficas, do idioma e de cultura, se dá também entre os demais países latino-americanos. O México está também afastado da Colômbia, do Equador, do Chile. Cada país é como que atomizado totalmente, mesmo os países latino-americanos de língua espanhola. E há que se recorrer, lamentavelmente, à Espanha para que de lá volte para cá. Um livro tem que ser publicado lá. Para eu poder ler um escritor argentino tem que ter passado pela Espanha. Ou tomar o avião, e por isso me interessa muito trabalhar em distintos países, com pequenas editoras – e não com grandes editoras, com editoras muito refinadas, como a Cosac Naify, que é… waaall, o sumo do refinamento, do requinte, do particular e do concreto –, para que me permita, com essas edições, eu conhecer o que está se passando com os livros, para romper um pouco com estes monopólios que nos separam. 
Sinto que a literatura mexicana está passando por um momento de liberdade, por um momento grandíssimo de liberdade. E a literatura latino-americana em geral, coisa que não ocorria quando eu comecei a escrever. Havia linhas sumamente definidas de trabalho, que havia de continuar com determinadas formas de escrever, porque se alguém não as respeitava, não era considerado dentro do cânone. Era algo que escapara a uma tendência já preconcebida, e não era considerado como sério, literário. Então, por isso, agora a diferença é que há muitos projetos pessoais, muitos caminhos próprios, e todos esses caminhos são válidos, sempre que coerentes e lógicos em si mesmo.

Estamos aqui em Paraty, queria que falasses um pouco essa impressão de que vem de fora e cai aqui em Paraty nessa roda viva de leitores e entrevistas e mesas e debates…
 

Bellatin. Todavia, não estou seguro se existe ou é um sonho. Porque, felizmente, quando cheguei, eu vi toda a transformação que sofreu Paraty. Quando cheguei, não havia nada e dizia “como aqui, que vai acontecer a feira mais importante deste país tão grande, com milhares de pessoas? Como vai ocorrer isso?”. E hora após hora vi a transformação. E, bom, vi as mesas, o interesse das pessoas. Realmente, fica-se boquiaberto, já estava muito agradecido pelo convite, mas uma vez que tenho vivido isto, realmente penso que sorte eu tive. Feliz, muito feliz. E penso que é algo que vai crescer mais ainda. Então não sei se vão construir uma Paraty em paralelo para poder receber tanta quantidade de pessoas com um interesse tão real, honesto pelos livros. Na palestra, foi impressionante, a resposta do público, mas depois, caminhar pela rua, é verdadeiramente uma festa que não vi em nenhuma outra parte do mundo, não vi nada assim.

> Leia o pequeno texto que abre Flores

> Mario Bellatin na Saraiva.com.br

Flores (CosacNaify, 2009)
# Livros em espanhol

 
 

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