Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.09.2009 16.09.2009

Marina Colasanti, tintas, papéis e canetas

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel

 > Assista à entrevista exclusiva de Marina Colasanti ao SaraivaConteúdo


“”Marinanão queria ser escritora, Marina queria ser artista plástica; era o meu projetode vida. Eu nunca pensei que eu fosse ser escritora. Embora eu escrevessequando era criança, fazia poema – mas isso todo mundo faz””, declara a escritorae jornalista ítalo-brasileira, que nasceu na Eritréia – então colônia italianano norte da África, que se tornou uma província da Etiópia nos anos 1960 atéconseguir a independência, em 1993 – e imigrou para o Brasil ainda criança comsurgimento da II Guerra Mundial.

Como artistaplástica, estudou Belas-Artes e vem realizando desde a década de 1950exposições, individuais ou coletivas. A arte plástica foi primordial para construçãoda trajetória da escritora, que até hoje ilustra as capas dos livros queescreve, e, na adolescência, viveu no mítico casarão do Parque Lage, no bairrodo Jardim Botânico, Rio de Janeiro, que na época pertencia a sua tia, a famosacantora lírica Laura Besonini. 

No entanto,Marina considera o trabalho com as tintas muito diferente do trabalho com aspalavras. “”Eu acho que é diferente, muito diferente da escrita. Primeiroporque tem o prazer físico, sensual, que não tem na escrita. Para pintar eu trabalhocom óleo. Fazer um empasto da tinta, casar a construção da cor que você querexatamente, aqui, ali, acolá…””  

A escritora,que conta hoje com mais de 40 obras publicadas – entre crônicas, contos, poesiae literatura infanto-juvenil – também distingue o processo de criação para cadagênero que exerce na escrita. “”O processo de criação é diferente para cadaproduto, chamemos produto ao invés de gênero. É diferente o processo decriação, sobretudo em relação à poesia e aos contos de fada.””

E o que estáfazendo a escritora que lançou seu primeiro livro, Eusozinha, em 1968? “”Agora estou fazendo um livro estupendo.Sabe o que é um livro estupendo? É um livro de poesia para crianças, sãopoesias alucinadinhas, muito curtas: ‘Nem de brincadeira fale a queima-roupacom a passadeira’, ‘Alguém me responda quem colocou na piscina essa anaconda’.São 80 poeminhas assim. O título é Classificadose nem tanto“”, confidencia sem modéstia, e com a certeza que não vaiilustrar o livro que sai pela Record. “”Eu sempre soube que eu não iria ilustraresse livro. Fiquei procurando na minha cabeça quem poderia ser. Já no meiolivro eu tinha certeza quem seria meu ilustrador ideal. É Rubem Grillo.”

 

Você escreve romance, contos, literaturainfanto-juvenil, poesia e crônicas. Como é o trabalho com diferentes gêneros?

MarinaColasanti. Eu tenho um projeto. Como diz a Luana Piovani, a fila anda. Eutenho uma fila de projetos que vou completando, realizando, numa ordem quepré-estabeleço. Eu não pipoco pra cá e pra lá. Não estou aqui, saio e pinto umconto infantil, chego em casa e pinto um poema… Não é assim.

O processo de criação é diferente?

Colasanti. O processo de criaçãoé diferente para cada produto, chamemos produto invés de gênero. É diferente oprocesso de criação, sobretudo em relação à poesia e aos contos de fada. Porqueos contos de fada não são um gênero infanto-juvenil, há um equívocogeneralizado em volta disso. O que faz com que um conto seja um conto de fada éexatamente a sua possibilidade múltipla, infinitas leituras, servindo,portanto, para qualquer idade. Esse é um dos elementos que constituem o contode fada. O conto de fada e a poesia são gêneros que têm outro tipo deexigência, são bastante próximos, mas ainda assim diferem do resto da produção.Porque trabalho também com ensaio, trabalhei muitos anos com comportamento,trabalho com crônica… Se você vai fazer crônica, um pé tem que estar narealidade, um pé tem que estar no cotidiano, ele está dentro de um veículo deimprensa. Então, é uma coisa que você tem que manter um link com o que está acontecendoporque você trabalha com o que está no ar.

A produção de crônicas em jornais influenciou emseu trabalho literário?

Colasanti. É o contrário. Ouseja, a minha escrita literária surge da crônica. Eu era cronista do Jornal do Brasil e não era escritora. Apartir da crônica, ou seja, do meu envolvimento com uma escrita que, emboraseja jornalística, é literária – e percebendo que meu interesse era maisintenso para o lado literário – comecei a escrever o meu primeiro livro. Apartir daí, eu sempre trabalhei a crônica como uma questão muito literária. Masnão foi o contrário, não sou uma escritora que foi chamada para escrevercrônicas…

Compreendo. Mas pergunto se a produção em jornalde alguma forma influencia na produção de textos literários.

Colasanti. Não influencia emnada. Ela constitui um tipo de escrita, de que eu gosto muito, que funcionasozinha. A crônica funciona com a crônica. Mas ela não influencia…

De maneira nenhuma?

Colasanti. De maneira nenhuma.

Você também é artista plástica. Fale um poucosobre esse trabalho.

Colasanti. É muito bom. Eulamento ter parado de fazer isso, por falta de mercado. Porque eu gostava…Durante um tempo interessante eu trabalhei com as duas atividades juntas, eutinha um marchand – que vendia para mim, eu não tinha com o que me preocupar.Eu não posso incluir na minha vida sair com quadro debaixo do braço paragaleria, fazer essa parte. Isso não cabe na minha vida, não cabe no meutemperamento. Mas pintar é muito bom. É muito desafiante no meio do quadro tercerteza que perdi o quadro: “Perdi esse quadro! Perdi, perdi…” E aí você vai,no detalhe, na construção. É um trabalho de construção. Dá aquela pinceladinhaali e pronto: salvei o quadro. Recuperei, vou recuperar ele todo… Tem ummomento de parar, você diz: “Agora está bom!” Está bom no sentido de “é hora deparar”, não que esteja. Não sou Michelangelo. Mas é muito bom para alma, para ocorpo e a alma.

É muito diferente do prazer da escrita?

Colasanti. Eu acho que édiferente da escrita, muito diferente da escrita. Primeiro porque tem o prazerfísico, sensual, que não tem na escrita. Para pintar eu trabalho com óleo.Fazer um empasto da tinta, casar a construção da cor que você quer exatamente –aqui, ali, acolá… Eu trabalho com terras, minha paleta é franciscana. Eutrabalho com terras, um azul e um verde; e acabou… Vermelho, só vermelho deVeneza, não trabalho com tintas químicas. Nada. Então, é uma coisa milimétrica,sabe? Tem uma alquimia que se dá muito bem com minha personalidade. Sou umapessoa que gosta de cozinhar, que gosta de costurar… Eu gosto dessa coisa depegar pequenos elementos que não são nada. Uma cebola sozinha não é nada, né?Aí você junta o alecrim… Uma terra de Siena sozinha não é nada. Você junta umvermelho de Veneza, uma terra verde… Pega cores simples e transforma numatranscendente. É muito bom.

Você ainda faz a ilustração dos seus livros?

Colasanti. As capas dos meuslivro na editora Record o [Victor] Burton criou um tipo de capa, um projetofixo, que é feito a partir de quadros meus, que foram fotografados. É umalinha. Os livros infantis, só eu ilustro. Há exceções, uma delas foi um livroilustrado pelas irmãs Drummond. Elas me pediram um conto, escolheram um contopara fazer um livro. As irmãs Drummond bordam as ilustrações, são bordados quedepois são fotografados. É tão próxima da minha sensibilidade, do que gosto defazer, achei ótimo. O livro ficou deslumbrante. E os originais são deliciosos.O livro ficou lindo! Agora estou fazendo um livro estupendo. Sabe o que é umlivro estupendo? É um livro de poesia para crianças, são poesias alucinadinhas,muito curtas: “Nem de brincadeira fale a queima-roupa com a passadeira”, “Alguémme responda quem colocou na piscina essa anaconda”. São 80 poeminhas assim. Otítulo é Classificados e nem tanto.Por que tem também “Procura-se e Vende-se”.

Eu sempre soubeque eu não iria ilustrar esse livro. Porque eu não tenho um traço irreverente,não está em mim fazer um traço irreverente. Se eu fosse forçar a minha mão parafazer um traço irreverente ficaria uma porcaria, fake. Fiquei procurando na minha cabeça que poderia ser. á no meiolivro eu tinha certeza quem seria meu ilustrador ideal. É Rubem Grillo. O Rubemé o maior gravador em madeira no Brasil, ele é um gênio da xilogravura. Sempreamei a gravura dele. Eu não sabia se ele ia querer fazer. Falei com ele: “Olha,Rubem, você pensa, vou mandar o texto. Não precisa gravar nada, a gente faz umaseleção suas gravuras para você não ter trabalho”.  E ele gravou tudo! Fez mais de cem gravuras,cada poema uma gravura, interagiu com a tipografia… O título ele gravou letrapor letra no sentimento a imprimerie –que é a alma da gravura em madeira, da xilogravura. Fez um trabalho tãodeslumbrante. Esse livro vai ser estupendo. E não é por mim, mas pela junçãoque permite um objeto livro perfeito, sabe? De junção de uma coisa com a outra.É tão raro isso. Mesmo quando ilustro não tenho esse resultado. Certamente nãotenho porque não sou tão boa quanto o Rubem Grillo.

Como é avaliar a sua trajetória de escritora?

Colasanti. Marina não queria serescritora, Marina queria ser artista plástica – era o meu projeto de vida. Eununca pensei que eu fosse ser escritora. Embora eu escrevesse quando eracriança, fazia poema – mas isso todo mundo faz. Eu não tinha um projeto deescrita, eu tinha um projeto de arte visual. Tanto que fiz Belas-Artes. Comoera linda aquela faculdade, que agora é a Funarte. Era um deleite, o centro dacidade era muito bonito. Depois trabalhei no Jornal do Brasil, um prédio histórico que foi derrubado…

A partir domomento que comecei a escrever eu quis ser escritora. Eu não jogo para aarquibancada. Por isso vou lhe dar a resposta que você me perguntou. É muitoelegante a pessoa dizer que tem dúvidas e questionamentos sobre sua obra… Euadoro. Eu gosto muito do percurso que eu fiz, consigo me surpreender com essepercurso. De repente eu pego um texto: “Que é isso, Marina, de onde você tirouessa história?” Consigo me comover. Leio, às vezes, contos meus e me arrepiointeira. Não acredito em escritor que diz nunca se reler. Não é verdade. Poruma razão muito simples, você é obrigado a se reler. Porque, de repente, alguémpede um texto, você tem que reeditar uma coisa, fazer uma coletânea…Portanto, selecionar o seu trabalho. Eu gosto do que releio. Veja bem, nãoestou dizendo que acho que o que eu faço o “Nobel da escrita”. O que eu querodizer é que aquilo que eu fiz continua em sintonia comigo. O início é gêmeo, nosentido da mesma genética, do “quase final”. Porque com 71 anos eu posso dizer “quasefinal”. Tudo sai da mesma matriz e é visível isso.

Gosto que sejaassim porque é um atestado de sinceridade, que nenhuma crítica, que nenhumaanálise poderia me dar melhor. É essa genética mantida que me diz dasinceridade do meu trabalho – isso para mim é muito importante. E, além domais, como faço um trabalho aparentemente fragmentado, porque me divido emmuitos gêneros, a coesão é muito importante para mim. Eu só estou fazendo umtrabalho fragmentado para os outros, para mim estou fazendo um trabalho só. Éimportante que ele seja coeso, não só do princípio até agora como o conjunto.Quero que qualquer gênero possa encaixar com cada peça de qualquer outrogênero. Isso é importante porque sei o que estou fazendo com o todo. Quero quefique isso no final, um painel muito harmonioso.

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