Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.07.2013 10.07.2013

Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli emocionam o público da Flip com leitura de poemas de Fernando Pessoa

Por Carolina Cunha
 
Numa noite fria, com 12 graus, um inusitado encontro fechou a programação desta última sexta-feira na Tenda dos Autores da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Uma das mesas mais aguardadas desta edição, “Lendo Pessoa”, reuniu a cantora Maria Bethânia e a professora Cleonice Berardinelli para a leitura de trechos da obra de um dos maiores poetas da literatura portuguesa, Fernando Pessoa. “Esta é uma daquelas noites que quem não viu vai morrer de inveja”, disse o professor e crítico Júlio César Diniz, que mediou o encontro.
 
A ligação de ambas com Pessoa vem de longa data. Bethânia insere desde 1967 os versos das poesias do português em seus discos e shows, e Cleonice, aos 96 anos, é considerada a maior estudiosa da obra de Fernando Pessoa.
 
Para homenagear o escritor português, as duas realizaram, por quase uma hora, a leitura ininterrupta de dezenas de poemas selecionados por elas a partir da obra do poeta e seus três heterônimos principais: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
 
Poemas como “Guardador de Rebanhos”, “O Infante”, “O Monstrengo”, “Aniversário” e o soneto “O Rei”, descoberto recentemente por um aluno de Cleonice nos arquivos da família de Fernando Pessoa, foram lidos para uma plateia lotada, na Tenda dos Autores e na Tenda do Telão.
 
Cleonice foi a primeira a entrar no palco, andando devagar e com o apoio de uma bengala. Reverenciada pela plateia, a professora logo avisou que quem escolheu o primeiro poema foi a cantora, que invocou “Dois excertos de odes”, de Álvaro de Campos, para a companheira de palco recitar. Um soneto do mesmo heterônimo também fechou a noite.
 
Maria Bethânia, vestida de branco, como de costume, declamou com emoção e força dramática. As duas se revezavam na leitura, e a plateia ficou em silêncio, quebrado por aplausos calorosos ao fim de cada poema. Após a professora ler um poema com desenvoltura, Maria Bethânia rasgou um elogio à parceira de mesa: “Que espetáculo!”.
 
Ao ser questionada pelo mediador sobre qual heterônimo Cleonice gosta mais, a professora disse que essa era uma pergunta difícil. “É como perguntar para uma mãe qual dos seus filhos você gosta mais. Fernando Pessoa para mim é grande desde o primeiro momento que conheci sua poesia”. Já Maria Bethânia respondeu que “depende da hora. Fernando é bom porque dá para qualquer hora”.
 
Ao longo de tantos anos em contato com a obra de Fernando Pessoa, Cleonice comentou que nunca se considerou um heterônimo. “Eu acho que Pessoa foi um homem que sofreu, e não sei se queria todas aquelas reflexões e afirmações que ele fez. Eu acho que é incômodo ser Fernando Pessoa”.
 
Cleonice lembra a quantidade imensa de textos pessoanos que ainda permanecem no espólio da família do autor e que ainda não foram revelados para o mundo. “Quando se descobre, é sempre bom”.
 
A intimidade com a obra do poeta permite que Bethânia o chame de “poeta da minha vida”, e, durante a leitura, ela não escondeu a vontade de um dia gravar as poesias de Pessoa em um CD. “Fernando foi o poeta da minha vida. Ele sustenta a minha respiração e segura o ritmo desassossegado do meu coração. Eu leio seus poemas como se fosse a autora, de tanto que ele me traduz”.
 
 
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