Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.03.2010 10.03.2010

Marcus Vinícius Faustini, realidade inventada

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Marcus Vinícius Faustini ao SaraivaConteúdo 

O Guia afetivo da periferia (Aeroplano, 2009), de Marcus Vinicius Faustini, é um romance protagonizado por um autor andarilho, que constrói a narrativa através de afetos com o universo ao redor, a cidade. Neste caso, é o Rio de Janeiro da periferia. Um álbum de suas memórias, com retratos de vivências nas ruas, de Santa Cruz a Ipanema.

O narrador passeia pela infância, convidando o leitor a conhecer seu trajeto, nem sempre de fácil travessia. Na caminhada, descobre-se outra periferia – poderia ser também uma cidade de interior – onde mesmo à margem o passante pode estar no centro. Aprende-se a noção de “território” através dos afetos relembrados pelo protagonista: ventilador Faet, balinhas de tamarindo, sacolé, dragão chinês, sardinhas 88, Coca-cola, jabuticaba…

Podemos fazer um paralelo da obra de Faustini com o Guia sentimental da cidade do Recife, de Gilberto Freyre; o Guia da cidade de Lisboa, de Fernando Pessoa. E também, com as Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade. Além de João do Rio, com a Alma encantadora das ruas. Todos esses autores andam pelas ruas, falam de suas cidades, e fazem da narrativa a referência de uma época.

“Quando estou na cidade prefiro buscar a ficção para reiventar a realidade. Digo isso baseado em João do Rio e Joaquim Manoel de Macedo, essa é uma cidade onde a literatura se debruçou sobre suas ruas, sobre os encontros. Esse espólio é meu! Eu quero o espólio desses escritores, não vou deixar por aí, solto.”

Na apresentação do livro, entre tantas definições, o sociólogo Luiz Eduardo Soares utilizou a expressão "Fragmentos de um discurso amoroso sobre o Rio de Janeiro" para nomear o livro Guia afetivo da periferia. Faz sentido a referência à obra do escritor e semiólogo francês Roland Barthes.

“Esse livro é uma voz de articulações, sensações, da rua, da vida nas cidades. É uma voz, uma tentativa de construir uma voz, que se relaciona com o leitor. Gosto de trabalhar com elementos externos para poder criar. Como tem a tentativa de uma profundidade dessa voz, dessa percepção interior, eu sabia que, desde o primeiro momento, que eu tinha que ter um método de escrever que me trouxesse questões exteriores.”

Na apresentação do Guia afetivo da periferia, o sociólogo Luiz Eduardo Soares relaciona expressões na tentativa de definir seu livro, entre elas: romance de formação, etnografia urbana, história social do subúrbio carioca, flagrante das idiossincrasias da baixada fluminense, memórias, confissões, biografia precoce… Como você definiria seu livro?

Marcus Vinicius Faustini – Meu livro é uma tentativa de um exercício de literatura, de buscar uma voz. Acho que a literatura é a busca de uma voz, que pode ser um fluxo de pensamento ou uma forma de olhar o mundo. Esse livro é uma voz de articulações, sensações, da rua, da vida nas cidades. É uma voz, uma tentativa de construir uma voz, que se relaciona com o leitor. Gosto de trabalhar com elementos externos para poder criar. Como tem a tentativa de uma profundidade dessa voz, dessa percepção interior, eu sabia que, desde o primeiro momento, que eu tinha que ter um método de escrever que me trouxesse questões exteriores. Fui ler o Guia sentimental da cidade do Recife, de Gilberto Freyre, e Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade. Os dois [livros] são picotados, são memórias irônicas, trajetos pela cidade. Esses dois livros me ajudaram, não foi uma tentativa de copiar. Eles me ajudaram a criar um dispositivo de criação, um elemento externo onde eu pudesse colocar essa voz. Eu gosto de me sentir aprisionado, de criar janelas muito claras para não poder escapar dali.Fernando Pessoa fala uma coisa que gosto muito: “É preciso dar organismo à loucura.” O organismo é a poesia, a métrica que você cria, são os teus enquadramentos. Ali dentro, como tinha uma voz interior, tentei colocar. Esse livro é um exercício estético. Mas, ao mesmo tempo, ele traduz essa tentativa de mostrar essa experiência, de mostrar a cidade do Rio de Janeiro, que percebo contemporânea onde as pessoas acham que não é civilizado – principalmente na periferia do Rio. Lugares onde eu acho que se está experimentando a contemporaneidade com signos, sensações, relações econômicas, sociais e estéticas. Eu queria demonstrar através dessa voz o quanto de potência contemporânea tem esse lado da cidade. Para além dos banheiros da Bunker [boate que existia em Copacabana], dos banheiros da Pista 3 [em Botafogo], há uma experiência, uma sensação de contemporaneidade, por essa cidade inteira. Queria demonstrar que essa circulação, que essa circulação foi da minha vivência: venho de uma família de paraibanos, muito numerosa, que se espalharam pelos conjuntos habitacionais da cidade, pelas favelas. Desde moleque, fui encorajado a ir da casa de uma tia para outra para economizar comida em casa. Então, sempre circulei muito. E a idéia de circulação é necessária para a literatura para a criação, necessária para a política, necessária para a estética. Eu queria tentar criar algo que fosse estético e não discursivo ou ideológico sobre essa experiência da cidade.

 

Quando leio seu livro, tenho a impressão que está falando de qualquer outra cidade de interior ou numa periferia. O que me causa essa sensação de igualdade entre a cidade de interior e a periferia?

Faustini – Na verdade, acho que a igualdade está em você. Você viveu coisas que o livro tem. Ali tem o registro de uma infância, de relações que se constroem, das primeiras percepções, das bússolas que nos movem. Todos nós somos centro, é o que tenta demonstrar esse livro. Mesmo estando excluída de processos sociais e econômicos, a nossa construção subjetiva pode existir. A tentativa que tem aqui [no livro] é de demonstrar que não precisa mais ninguém falar pela gente, dominamos os processos de expressão contemporânea. E vivemos dimensões estéticas familiares, para além daquele melodrama, das linguagens que são destinadas para a representação de pobre nesse país. Quer ver história de pobre como superação de sobrevivência, eu quis demonstrar o quanto essa vida interior existe no mundo de um moleque que viveu na rua, e como ele pode expressar isso de maneira subjetiva. É evidente, a questão é a família. Eu já trato da questão da família desde o teatro, quando montei a peça Eles não usam black-tie [peça de Gianfrancesco Guarnieri] eu não estava discutindo só a questão do operariado, política. Eu estava tratando da relação pai e filho. Elas me interessam muito, essas relações subjetivas da família, porque são as primeiras que a gente trava. Entender como um indivíduo se relaciona me interessa muito. Entre você me olhar e a gente conversar, e o que se passa aqui entre o olhar da gente é a literatura. É disso que quero dar conta.

Você diz no livro: “Todo carioca deveria ter direito a um lote imaginário no Centro da cidade para pensar o sentido de ser carioca”. O que é ser carioca?

Faustini – Viver a cidade. Andar pela cidade, se relacionar, pensar nas coisas, experimentá-la. Andar realmente, se deslocar na cidade em todos os seus eixos. Pegar a bússola e um dia ir para o norte, outro dia ir para o sul, para o oeste. Propor ao seu corpo entrar em circulação, seu corpo e seus sentidos. Não adianta dar uma pedalada na Lagoa, você não estará andando na cidade. Está na maneira de deslocamento e relação. É ir para Santa Cruz numa pelada, ao mesmo tempo em que você está no Baixo Gávea. É experimentar a potencialidade que tem o Rio de Janeiro. Um conjunto de estratégia, de expressividades estéticas, que foram construídas pelos cidadãos dessa cidade que é incrível. Do samba ao funk, as relações contemporâneas de criação: a poesia, a militância poética, o futebol… É uma cidade absolutamente multicultural, um lote no Centro da cidade é porque essa mistura começou ali, perto do [Palácio] Gustavo Capanema, perto da [Avenida] Rio Branco. Ali começou essa mistura entre pessoas, entre grupos, e todas as suas contradições. A gente precisa pisar ali para sentir a energia que essa cidade tem.

Em minha avaliação, há um distanciamento maior das camadas mais populares em relação à literatura. Você é formado como ator e agora se dedica a literatura. Por que a literatura veio depois?

Faustini – Sempre li, sempre tive relações com livros. Embora meus pais nunca tivessem relações. Eu nunca fui encorajado a escrever, fui encorajado a ter profissões do campo da fala. A fala estava presente perto da minha casa, com o camelô. O diretor de teatro é uma pessoa que se relaciona através da fala. O tipo de filme que fiz, um documentário, é da fala. O som nesse país ficou com as camadas populares, a imagem agora que começa a vir. As camadas populares produziram funk, a buzina de Kombi que diz Cezarão – Santa Cruz. A fala sempre estava muito colocada para mim, e eu sempre escrevi. Um dia desses, eu estava lembrando que, aos 16 anos, escrevi uma poesia que foi premiada no Jornal do Brasil. E nunca me encorajei a acreditar que eu poderia escolher aquela expressão para me relacionar esteticamente com o mundo. A metodologia de apresentação da leitura nas camadas populares é disciplinadora: “Aprenda a ler menino, porque senão você não tem futuro!” Você se assusta. Então, junto com o livro, estou fazendo uma série de oficinas na comunidade, onde se começa a construir a memória do moleque: do dia de apagão, da brincadeira da bola de gude… Estou lançando um site chamado Guias Afetivos, onde vamos recontar a história das comunidades do Rio. A molecada está escrevendo em cima de mapas porque descobri que escrever é um processo de artes plásticas. É ilusão burguesa achar que “baixa Pentecostes” para escrever. Comigo nunca funcionou assim, anotei em papelzinho, anotei em quadro, eu gravei…

Fui pegando plasticamente essa relação com a palavra. Foi o método que criei. E peguei dois livros como referência estrutural, objetos externos. A questão da arte contemporânea, relacionar a sua subjetividade com os elementos externos plásticos que se colocam. Esse livro sem essas figuras não existe – é também uma relação com essas figuras, um diálogo com quem fez a diagramação. Eu quero encorajar a molecada a escrever de maneira plástica e não de maneira disciplinadora. Um livro que dispara uma ação na cidade. O [escritor italiano Ítalo] Calvino diz que a gente tem que buscar a precisão, a precisão do afeto, da linguagem. Acho que é a primeira vez, como artista, que consegui alguma precisão. Todos os trabalhos anteriores foram de negociação, com o que eu queria dizer. Aqui está estética com que eu quis me relacionar, a voz, o exercício… São três personagens no livro: o ator; um menino que quer escrever, mas tem que trabalhar coisas da fala; e o outro são os contos que ele inventa. O livro é um jogo. É um afeto estético, é possível criar um afeto para demonstrar esses lugares da cidade.

Você diz buscar a ficção por não gostar do excesso de realidade…

Faustini – O excesso de realidade é um discurso muito presente na mídia sobre o Rio de Janeiro. Apesar de dizer que a cidade é uma alegoria maravilhosa, há um discurso cotidiano: Cidade do Perigo, Cidade do Medo, Cidade do Futuro… Esse discurso disciplina as pessoas, faz elas terem medo de andar na rua, se relacionar, circularem. Quando estou na cidade prefiro buscar a ficção para reiventar a realidade. Digo isso baseado em João do Rio e Joaquim Manoel de Macedo, essa é uma cidade onde a literatura se debruçou sobre suas ruas, sobre os encontros. Esse espólio é meu! Eu quero o espólio desses escritores, não vou deixar por aí, solto. Esse espólio de quem escreveu sobre as ruas, essa cidade produz ficção, ela não produz só realidade. A ficção é um discurso necessário para a construção simbólica, para as relações com os indivíduos. Os indivíduos se encontram através das palavras, que são objetos, que são objetos de ficção. Eu precisei criar um objeto de ficção para me relacionar melhor com as pessoas.

O que ficou do garoto que cresceu em Santa Cruz, se formou como ator e se tornou escritor e secretário de Cultura de Nova Iguaçu?

Faustini – Eu gosto da idéia que o Deleuze propõe, da vida ser uma produção de significado. Nós estamos aqui para produzir o nosso significado, não vai ter outra pessoa que vai fazer isso pela gente. Eu estou disposto a experimentar o tempo todo, desde moleque. Temos que inventar nossa vida na ação. A ação promove encontros, conflitos… Eu quero experimentar, agora quero fazer artes plásticas, quero sair fazendo coisas, quero descobrir, quero aprender. O que continua é essa vontade de se jogar em ação com o mundo, com a cidade, essa descoberta. Fisicamente, só os olhos continuam iguais, só os olhos permanecem. Continuo com a vontade de conhecer pessoas. Não admito, numa cidade como essa, não se relacionar com as mais diversas pessoas. Gosto dessa possibilidade, desse mar de possibilidades, que é: estar em Santa Cruz, gestor em Nova Iguaçu, criando, tendo relações afetivas, relações de embate estético, estar numa conferência de cultura, estar com evangélicos, estar na [Favela da] Maré… Essa é a possibilidade que a cidade deu pra gente. Ficou a curiosidade de querer aprender. Quero aprender, conhecer pessoas, quero dialogar… Não gosto como as pessoas criam grupos e formatam. Isso não me interessa muito, vou embora.

Qual foi a importância da Escola Estadual de Teatro Martins Pena na sua vida?

Faustini – No livro tem um capítulo sobre isso, o "Beco da Luxúria". Na Martins Pena, eu comecei a ter uma viagem. Antes da Martins Pena, comecei a ter uns espasmos criativos. Gosto de perceber a técnica como organização da sensibilidade. Quando entrei para a escola de teatro, comecei a me deparar com o prazer de buscar a técnica. Esse livro é técnica, pequenos pensamentos encontrados. Sem essa idéia de pequenos pensamentos, não teria encontrado esse discurso interior, de percepção. A Martins Pena me deu o prazer da técnica, o prazer de formular a experiência criadora através da técnica. Isso é muito bom quando se percebe que essa é uma escola no Centro da cidade, gratuita, que promove encontros, deslocamentos, vivência. Tem algo de anárquico ali naquela escola. Não é dizer no quadro “técnica é isso”… Tem algo de capacidade que se aprende ali, de se criar uma expressão de linguagem ou de forma de estar na vida. A vida precisa de técnica tanto quanto a arte. E isso a Martins Pena trabalha, ajuda a pensar como se vive. A Martins Pena deveria ser um dos patrimônios dessa cidade. Ela está numa rua que se chamava Beco da Luxúria. Nada melhor do que esse nome para representar a sina que essa escola tem.

O que é ser escritor? O que você diria a um jovem que deseja se tornar escritor?

Faustini – O que é criar como escritor? Ser escritor depende de legitimação e de um monte de coisas… O ato criativo do escritor é encontrar uma voz. Encontre a voz daquele livro e use, copie e cole tudo que está a sua volta. Se apodere de discursos, copie para enfiar a sua voz. Escreva todo dia, num caderninho, grave. Essa vontade repetir, treinar essa voz. Copiando formatos, imitando, mudando, jogando fora. É um exercício diário. O que eu diria para um moleque de periferia que quer escrever? Crie caminhos para escrever que não seja somente o caminho de publicar um livro. Isso depende de várias outras circunstâncias. Escreva em blog, escreva no seu Orkut, na sua rua, na pedra, na calçada… Escreva jogando dedanha. Recebi um e-mail de uma menina que pegou o mapa do Google e escreveu: "De onde vêm os homens que beijei na vida". Ela nomeou o mapa do Google e escreveu sobre cada homem. Se apodere do que está aí e coloque a sua voz, aproveite as técnicas do mundo. Não fique preso à idéia de publicar um livro. Publicar um livro é o resultado de um conjunto de estratégias que você vai ter. E, às vezes, isso inibe. Publicar um livro vai ser resultado desse conjunto de estratégias, e você pode ter outras.

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