Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.08.2012 28.08.2012

Marcelo Rubens Paiva fala de sua carreira e adianta para o SaraivaConteúdo, detalhes de seu novo livro

Por Marcos Fidalgo
 
Em uma quinta-feira de tempo seco na cidade de São Paulo, me encontrei com Marcelo Rubens Paiva em um café da Vila Madalena – bairro em que vive – para falarmos de seus 30 anos de carreira como escritor – iniciados com o lançamento de Feliz Ano Velho.
 
Nessas três décadas de atividade, ele também atuou como jornalista e roteirista de teatro e cinema. “Tudo, tudo o que eu faço é com tesão”, afirma Paiva.
 
O mais recente trabalho é o livro As Verdades que Ela Não Diz, título que o SaraivaConteúdo adianta com exclusividade, assim como a imagem da capa dessa reunião de contos e crônicas que chega às livrarias a partir de outubro.
 
As Verdades que Ela Não Diz traz histórias sobre relacionamentos, tema que passou a ser mais aprofundado por Marcelo a partir do lançamento de Malu de Bicicleta, em 2003. Abaixo,os destaques da conversa de quase duas horas que tivemos.
 
 
Capa de 'As Verdades que Ela Não Diz'
 
O que representou o lançamento de Feliz Ano Velho para você, para a literatura brasileira e para a geração dos anos 80?
 
Marcelo Rubens Paiva. Eu falei de coisas em Feliz Ano Velho que hoje eu não falaria. Eu abri o peito, e esse foi o segredo do livro. Foi uma dissecação de alma, que dificilmente eu teria coragem hoje de refazer. Foi um livro importante pra mim, para os deficientes e para a literatura brasileira naquele momento, já que ele foi escrito em uma linguagem totalmente coloquial, que rompia com a norma culta e que mostrava que estava pra nascer uma nova literatura urbana, mais conectada com os temas contemporâneos, como a revolução sexual, a busca de autoconhecimento pelas drogas e as frustrações de viver em um país pobre e desigual. Nesse período, o Caio Graco, editor da Brasiliense, também buscava uma nova leva de autores. E nós tivemos a sorte de encontrar esse cara.
 
Hoje o livro te incomoda?
 
Marcelo Rubens Paiva. Me incomodou no começo. Não entendia por que o livro havia feito sucesso, não sabia o que havia nele para ser o símbolo de uma geração. E eu não queria ser símbolo de nada. Eu era muito tímido, muito perdido.
 
Recentemente, você disse no Twitter que começou a escrever porque sofria bullying na escola. Como foi isso?
 

Marcelo Rubens Paiva. Eu tive a felicidade e a infelicidade de só ter irmã dentro de casa. Eram quatro irmãs mulheres e nenhum irmão mais velho para me defender na escola. E sempre fui o baixinho da classe, e apanhava bastante por causa disso, tomava muito tapa na cara. E o baixinho, para sobreviver, tem duas saídas: ou ficar amigo dos fortões ou escrever. E ao invés de ter uma vida atlética e de ficar jogando bola, eu ficava no centro acadêmico da escola, escrevendo artigos para o jornal do colégio. De uma maneira ou de outra, todo escritor sofreu bullying, todo escritor quis, por meio da literatura, se vingar de tudo o que sofreu. E eu não fujo à regra.

E sobre quais assuntos eram esses artigos que você escrevia?
 
Marcelo Rubens Paiva. Eu lembro que eu tinha 14 anos, era década de 60, e meus primeiros artigos eram sobre o fim da guerra do Vietnã. Depois foram textos sobre a ditadura.
 
Você nunca mais teve vontade de escrever um romance autobiográfico?
 
Marcelo Rubens Paiva. Não, por que eu aprendi a traduzir para a ficção os elementos que estão em minha vida. Hoje sei colocar na voz de outros personagens aquilo que acontecia comigo ou com outras pessoas. Eu acho que é muito mais interessante. Não me exponho tanto, posso me libertar, exagerar mais.
 
O que mudou em sua escrita ao longo desses 30 anos de carreira?
 
Marcelo Rubens Paiva. Eu acho que amadureci como homem, e naturalmente minha escrita amadureceu também. Um exemplo é o Malu de Bicicleta. No livro, há um mal-entendido entre um casal, e a mulher vai embora. Na adaptação que fiz para o filme, quase dez anos depois, o cara vai atrás dela, tentar pelo menos uma conversa. Isso é um sintoma de maturidade. O livro foi escrito por um homem aos 40 anos, o filme foi escrito por um homem entrando nos 50, que é o homem que diz: ‘Vamos se acertar, vamos conversar sobre isso’. Ou seja, fui aprendendo, como autor, a lidar com os conflitos de um jeito muito mais maduro.
 
E como é a sua relação com a literatura?
 
Marcelo Rubens Paiva. Procuro não levar a literatura a sério, nem a vida a sério, o que ajuda na própria literatura. É bobagem você achar que vai fazer uma revolução por meio da literatura. Também não busco nenhuma inovação literária ou teatral naquilo que eu faço. Escrevo só aquilo que me dá vontade.
 
Seus textos quase sempre se referem aos relacionamentos entre homens e mulheres, e incluem traições, sexo e divórcios. Por que esses temas te fascinam tanto?
 
Marcelo Rubens Paiva. Eu sou um privilegiado por nascer na época da emancipação feminina. Sou de um tempo em que as mulheres dão em cima, tomam atitudes e, se precisar, vão embora de um relacionamento se ele não estiver bom. As mulheres hoje trabalham, têm amantes e direito ao orgasmo. E, meio sem querer, minha escrita foi relatando essas mudanças de comportamento da mulher, tanto que tenho livros intitulados As Fêmeas, Malu de Bicicleta e O Homem que Conhecia as Mulheres. No meu livro novo, inclusive, tem um conto chamado “Traição”, em que uma mulher narra o dia em que traiu o marido. A mulher virou protagonista de minhas histórias por que hoje a mulher é a protagonista do mundo.
 
Então, o livro que você lançará em outubro também aborda esses temas?
 
Marcelo Rubens Paiva. Sim, são contos e crônicas só sobre relacionamentos: ciúmes, traição, casamento, separação…
 
De qual obra sua você gosta mais?
 
Marcelo Rubens Paiva. Cada hora de uma. Já gostei do A Segunda Vez que te Conheci, do Não És Tu, Brasil, que foi um livro que demorei seis anos escrevendo… Agora gosto mais de No Retrovisor, que é uma peça que escrevi e que vai virar filme agora, com o Marcelo Cerrado. Também gosto muito do Malu de Bicicleta, livro que marca o início dessa minha literatura focada mais nas relações.
 
Seus livros têm, em média, um intervalo de uns três anos entre uma publicação e outra. Você acha que esse é o tempo ideal para a construção de uma obra?
 
Marcelo Rubens Paiva. Depende da fase da vida em que você está. O Não És Tu, Brasil, por exemplo, eu demorei seis anos pra escrever, tive que conciliar com um mestrado que fazia na época. Já o Malu de Bicicleta eu escrevi em quatro meses. Eu tirei um mês de férias da Folha de S. Paulo e juntei com mais três meses sabáticos que pedi.
 
Falando nisso, você trabalhou por muitos anos na redação da Folha de S. Paulo. Sair desse ambiente de redação foi uma escolha sua?
 
Marcelo Rubens Paiva. Foi sim, tomei a decisão durante uma reunião de pauta, em que estavam pessoas com a metade da minha idade. Eu olhava pra elas e via aquela sede pelo furo jornalístico, e eu não concordava mais com aquilo. Achava uma besteira essa coisa de ser o primeiro a dar uma crítica, até porque o furo no jornalismo cultural é algo totalmente secundário. O que importa é a qualidade da notícia, a profundidade do texto. Aí, fui me cansando dessas coisas e quis fazer algo mais interessante. Então, preferi sair e voltar a ser colunista. E não sinto saudades. Amo meus amigos jornalistas, amo o jornalismo, respeito muito o ambiente da redação, mas sei o quanto ele é estressante. Prefiro trabalhar de casa, vendo o inferno de longe. 
 
Marcelo Rubens Paiva
 
Você disse que o jornalismo é uma profissão manca e em extinção. O que te levou a essa percepção?
 

Marcelo Rubens Paiva. A internet tá matando o jornalismo. É ridículo hoje alguém querer dar o furo de algo, se no Twitter aquilo já virou passado. O jornalismo não vai acabar, mas ele precisa se reinventar.

E do programa Fanzine, que apresentou na Cultura no início dos anos 90, você sente falta?
 
Marcelo Rubens Paiva. Também não sinto falta nenhuma. Televisão é algo que eu passo ao largo hoje em dia. É muita tensão, muita ansiedade, muita vaidade, muito chefe. Eu tinha seis chefes na TV Cultura, e nem sabia mais a quem me reportar. Cada um falava uma coisa. Recentemente, eu encontrei o Roberto Muylaert, antigo chefe dos chefes da Cultura, do tempo que a emissora dava 10 pontos no IBOPE; e ele disse: ”Que loucura foi a nossa de colocar um cadeirante pra apresentar um programa. A gente não fazia ideia da revolução televisiva que a gente estava fazendo”. E foi por causa do programa que eu ganhei uma bolsa da Reuters pra estudar nos EUA. Eles ficaram malucos quando viram a fita de um deficiente apresentando um programa com banda. Aquilo era inédito no mundo todo. Mas eu sempre chegava exausto em casa. Nessa época eu trabalhava na Folha, e ainda fazia mestrado e escrevia um romance, o Bala na Agulha.
 
E o que representou essa sua ida aos EUA?
 

Marcelo Rubens Paiva. Foi justamente a ruptura com tudo isso. Eu estava muito infeliz na minha vida, ficava muito doente, tinha muita pressão baixa. Por três vezes, quase desmaiei durante o Fanzine. E então, vi que não dava pra fazer tudo e decidi dar um tempo. Fiquei um ano fora estudando história, filosofia e literatura, morando no meio do campo, em uma casinha cercada por esquilos e árvores, lendo pra caramba e dormindo às dez da noite, porque lá não tinha o que fazer. Aí, voltei e larguei o mestrado, vi que não tinha nenhuma vocação pra ser professor, larguei também a TV, comprei uma mesinha e me assumi como escritor. E claro, fiquei pobre, porque o que dá dinheiro mesmo é a televisão. Mas por outro lado, fiquei mais saudável, pelo menos.   

Certa vez, você revelou que uma analista sua tomou como base suas obras para te analisar melhor. O que seus livros te permitiram enxergar em você?
 
Marcelo Rubens Paiva. Foi fantástico. Eu pude entender o que significava aquilo que havia escrito. Acho que um escritor deve entender (ou não deve entender?) aquilo que escreve. Não sei mais se ele precisa desse entendimento. Mas quando você sabe, é muito melhor, porque você organiza todo seu pensamento. Ter os fundamentos daquilo que você escreve facilita bastante, é muito legal saber as razões do seu inconsciente.
 
Você tem alguma rotina pra escrever?
 

Marcelo Rubens Paiva. Minha rotina é a pura anarquia. Só sei que, na terça, tenho que escrever minha coluna pro Estadão e entregar na quarta. Eu também blogo, geralmente um dia sim um dia não, e quando tenho que escrever um livro, eu vou e escrevo.

Você se arrepende de algo em sua carreira?
 
Marcelo Rubens Paiva. Sim, de inúmeras coisas. Me arrependo, por exemplo, de ter largado o roteiro do Bicho de Sete Cabeças, da Laís Bodanzky. Eu iria aprender muito com ela. Também desisti do projeto do Meu Nome não é Johnny. Em todas às vezes acabei priorizando outros planos e me arrependendo depois.
 
Mas o sucesso com o E aí, Comeu? recompensou essas outras frustrações, não?
 
Marcelo Rubens Paiva. Sim, valeu à pena sacrificar outros projetos pra trabalhar no
E aí,Comeu?
 
Além do filme E aí, Comeu?, baseado em uma peça sua, os livros Feliz Ano Velho e Malu de Bicicleta também foram para as telas. Qual a sensação de ver uma obra sua adaptada para o cinema?
 
Marcelo Rubens Paiva. É muito tenso também. Primeiro a gente se pergunta se aquilo vale a pena virar filme, e se compensa pegar um patrocínio de isenção pra filmar um delírio. É um jogo muito complexo. Depois vêm aquelas perguntas: “Será que eu poderia ter feito melhor?”. E eu também sou um cara muito exigente comigo mesmo e com meus amigos. Uma música errada em um filme já me incomoda.
 
Você agora também é diretor teatral. Como é essa experiência?
 
Marcelo Rubens Paiva. É muito tenso. Tudo estressa: uma música errada, uma porta aberta, um zunido, um barulho de chuva vazando pra dentro do teatro. São dois, três meses malucos que a gente passa. Mas dá muito prazer dirigir, seja uma peça minha ou de outra pessoa.
 
Literatura, teatro e cinema. Como você consegue conciliar tantos projetos?
 
Marcelo Rubens Paiva. A gente vai encaixando. Agora, por exemplo, que eu terminei meu livro novo, eu aproveitei para pegar o roteiro de No Retrovisor e fazer uma releitura. Também já estou pensando em escrever um novo romance, o que sempre dá muito trabalho. Tenho muita pena de não ser duas pessoas. Eu adoraria fazer tudo o que me convidam.
 
 
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