Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.01.2012 24.01.2012

Marcelo Duarte – Garimpeiro de lugares curiosos

Por Carolina Cunha
O escritor Marcelo Duarte
Existe um grupo de pessoas que sempre enfrenta um dilema ao viajar: com quem deixar os bonsais?
 
Essas pequenas árvores orientais exigem cuidados especiais, e qualquer negligência pode ser fatal.
 
Em São Paulo, os donos de bonsais encontram um hotel que oferece sombra, água fresca e abrigo temporário para essas delicadas plantinhas.
Essa foi mais uma descoberta do jornalista Marcelo Duarte, 47, considerado um verdadeiro caçador de curiosidades.
 
Desde 1999, o jornalista publica o guia Endereços Curiosos de São Paulo, que revela o lado mais pitoresco da cidade, desconhecido até por seus moradores. Cultura inútil? Imagine.
 
Ele mesmo já precisou do tal hotel após voltar de férias e levar um susto com o seu bonsai morto. “Tem muita gente carente de um monte de coisas na cidade ou que queria dar um presente diferente e não sabe por onde começar”, acredita ele.
Lançada este mês pela editora Panda Books, a quarta edição do livro traz as coordenadas de mil endereços atualizados de São Paulo, onde se compra e vende de tudo. “Um dos critérios para entrar no livro é ser alguma coisa surpreendente, que não exista em qualquer lugar”, diz o jornalista, que meteu o nariz em cada uma das experiências e lugares do guia.
Quer alugar bigodes postiços ou comprar réplicas das orelhas do Dr. Spock? Precisa fazer um casting de anões? Sabe onde encomendar uma gaita de fole? Que tal um crupiê que atende em domicílio ou um paparazzi de mentirinha para dar um toque de glamour à sua festa? O leitor que se aventurar nas páginas do guia encontrará essas e muitas outras dicas curiosas.
A ligação de Marcelo com serviços curiosos começou em 1992, e a grande culpada é a atriz Sharon Stone.
 
Naquela época, ele era repórter da revista Veja São Paulo e o filme Instinto Selvagem tinha acabado de estrear nas telonas, com a americana interpretando uma loira fatal, suspeita de matar seus amantes com um furador de gelo.
 
Para aproveitar o gancho, o editor da revista escalou a equipe para uma missão inusitada: encontrar um exemplar do picador de gelo em qualquer loja paulistana.
Durante a pesquisa, Marcelo topou com todo tipo de produto, menos o tal “objeto assassino”. A solução foi fazer uma capa contando as curiosidades das dezenas de artigos e serviços inusitados que foram descobertos pela equipe.
 
A matéria foi um sucesso e, desde então, o jornalista tomou gosto pelo tema e nunca mais parou de garimpar lugares curiosos.
 
Em 1999, Marcelo lançou a primeira edição do livro Os Endereços Curiosos de São Paulo, que trazia 500 nomes. “Depois fui atualizando o arquivo com coisas novas, tirando os serviços que ficaram sem graça, aqueles nomes de pessoas que já morreram ou os que deixaram de chamar atenção”.
Com o tempo, o jornalista fez da curiosidade o tema central do seu trabalho. Além dos livros que publica, ele é dono da Panda Books, assina a coluna “Curiocidade”, publicada no jornal O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, e ainda apresenta o quadro “É São Paulo que Não Acaba Mais”, na BandNews FM.
O dia a dia de Marcelo é repleto de pequenas descobertas. Ele se acostumou a andar pela metrópole com um bom par de sapatos (não aqueles com sola de avião, à venda no bairro da Consolação) e com olhos bem abertos, atento a detalhes, pistas e conversas curiosas.
 
Foi assim que, andando de táxi, descobriu um motorista que produzia castanholas e bengalas feitas à mão.
Nascido e criado em São Paulo, Marcelo é um eterno apaixonado pela cidade, ou, em suas palavras, um paulistano obsessivo-compulsivo.
 
Toda semana o jornalista percorre cerca de trezentos quilômetros em busca de coisas que passam despercebidas entre os arranha-céus dos bairros paulistanos.
 
Nessa peregrinação, sempre é possível encontrar lugares e coisas novas que, na maioria das vezes, não se acha no Google.
“Gosto de viajar pela cidade. Quando saio de casa, levo papel e caneta para qualquer lugar. Eu até tenho medo de causar algum acidente com o carro”, brinca o jornalista.
 
Aos finais de semana, a família já sabe o que fazer. Sempre tem algum passeio programado por Marcelo. Pode ser um restaurante num bairro distante, uma exposição de arte, uma loja desconhecida. O roteiro é infinito.
Depois de tantos anos coletando curiosidades nas ruas paulistanas, será que Marcelo encontrou o lendário picador de gelo da Sharon Stone? “Nesta última edição, eu procurei o picador de gelo e, de novo, não achei. Engraçado é que acabei comprando um para mim nos Estados Unidos”. 
 
 
 
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