Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.03.2013 22.03.2013

Marcelo Cipis e o absurdo nos livros infantis

Por Rafael Roncato
 
Arquiteto de formação, ilustrador e artista plástico de prática e coração, Marcelo Cipis parece possuir um estilo muito próprio quando o assunto é criação visual. Seja nas ideias ou no traço singular inspirado por seus mestres, Cipis conta com uma produção vasta e bem característica de livros infantis.
Seu estilo vem da atividade contínua por 30 anos, mas a dedicação aos livros infantis foi tardia. Em 1979, ilustrou, junto com seu irmão Milton, um livro chamado O Papudo. Logo em seguida, criou as ilustrações de uma obra do escritor Elias José, Um Pouco de Tudo. Depois disso dedicou-se às ilustrações editoriais para jornais e revistas, passando por diversos veículos, como Playboy, Claudia, Veja, Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde.
2011 foi o ano do retorno aos títulos infantis, quando escreveu e ilustrou sua primeira história, Era Uma Vez Um Livro. A partir daí, continuou ilustrando para livros, como Cores das Cores e Barulho, Barulhinho, Barulhão, ambos de Arthur Nestrovski. "Em 2006 comecei a produzir muitos livros escritos e ilustrados por mim. De 2007 para cá eu publiquei uns 20 livros", revela Cipis.
Por conta de seu estilo único e surrealista, beirando o absurdo, mas sem subestimar seus pequenos leitores, o autor destaca-se entre tantas produções nacionais. "Inspiração é algo ligado ao próprio curso da vida, tanto os prazeres quando os sofrimentos".
Você pode ser considerado um artista de diversos meios, por trabalhar com tudo e de forma bem criativa. Há uma área que você goste mais ou se dedique de forma diferente das outras?
Cipis. Eu comecei como ilustrador e depois me tornei artista plástico. Trabalho nas duas atividades desde 1982. Hoje me sinto mais um artista plástico que um ilustrador, porque eu diminuí minha produção de livros, e é como que se eu estivesse vivendo um ano sabático, querendo dar um tempo da ilustração e me dedicar mais às artes plásticas.
E quem são seus grandes mestres?
Cipis. Eu sempre admirei os brasileiros, J. Carlos, Ziraldo, Millor e Jaguar. Não me influenciei diretamente pelo traço deles, mas sim pelo humor. Dos estrangeiros, tem o Seymour Chwast, um cara que participou do Push Pin [Studios], um escritório americano da década de 70 que desenvolveu um tipo de trabalho muito inovador de ilustração editorial.
Quando vi pela primeira vez Ao Medo Com Carinho e O Canto do Uirapuru, notei, além do seu traço característico – minimalista, surrealista e bem colorido –, um certo modo de tratar a história que não subestima a criança. Estou certo?
Cipis. Meu estilo foi inspirado pelas minhas referências e baseado num estilo gráfico muito claro. Eu criei uma maneira de escrever livro infantil que leva em conta o nonsense, o absurdo. Não tem aquele personagem fofinho com questões muito do dia a dia. São questões mais conceituais; eu falo do medo, em Ao Medo com Carinho, de uma forma bem-humorada, criativa, que deu certo porque as editoras aceitam publicar.
Eu gosto dessa coisa do absurdo e do nonsense que pega a criança diretamente num ponto muito engraçado, porque ela entende o absurdo de uma forma muito mais natural que o adulto. Ela se espanta, acha engraçado e divertido, não censura, enquanto em geral o adulto já estranha qualquer coisa que está fora do padrão estabelecido.
Alguma vez você sentiu medo ou receio que as crianças não entendessem seus livros?
Cipis. Se eu sinto receio? Nenhum. Eu faço os livros mais livres, criativamente falando, possíveis. Faço, às vezes, uma associação de ideia que vai tendo uma coisa atrás da outra, uma narrativa não linear, fragmentada. Às vezes linear, mas é nonsense. Tem outros que são associações de pequenas ideias que vão se colocando e formam o livro. Existe começo, meio e fim, mas nunca é igual.
Como é o seu processo de criação de um livro?
Cipis. Eu tenho uma ideia central que conduz o trabalho. Se eu tive uma ideia gráfica, como no De Passagem, por exemplo, não há texto. O personagem entra num buraco numa página, sai numa outra e vai assim até o fim. Então é uma ideia gráfica que está na frente de uma narrativa. No Ao Medo com Carinho fala-se do medo, mas os personagens usam um escudo protetor, que é uma esfera na qual as pessoas entram e se protegem do medo. É uma coisa bem visual mesmo e com certo simbolismo.
 
Ilustrações presentes nos livros de Marcelo Cipis
E você acredita na moral para as histórias infantis?
Cipis. Não. Eu acredito num fim interessante. Não tenho nada disso de colocar uma moral.
Como você avalia a produção nacional?
Cipis. Eu acho que sim, temos uma quantidade enorme de talentos e a produção literária cresceu em progressão geométrica. Em 15 anos o mercado expandiu, e o livro infantil foi atrás. Eu lembro quando comecei, em 1977, e você tinha o Ziraldo, a Ruth Rocha e o Eliardo França e a Mari França, que faziam livros bem gráficos, mas era pouco. E na minha infância nem isso havia, era Monteiro Lobato e aquela enciclopédia estrangeira O Mundo Da Criança.
Que livro você indicaria para os pais passarem aos filhos?
Cipis. Um livro que marcou muito minha infância e que eu acho que é um trabalho primoroso e criativo é o Flicts, do Ziraldo. É um trabalho muito importante, que fala das cores e ao mesmo tempo da analogia delas com o ser humano. Não é um livro com moral, para mim é um livro revolucionário.
 
 
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