Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 31.10.2013 31.10.2013

Marcelo Cabral: o nome da nova cena musical paulistana

Por Júlia Bezerra
 
Marcelo Cabral é o denominador comum de uma das vertentes da nova cena musical paulistana. É o nome que assina a produção de Nó na Orelha, aclamado segundo disco de estúdio de Criolo. É quem assume o baixo na banda do rapper e se responsabiliza por todos os arranjos do álbum. É também produtor, compositor, baixista e guitarrista do single “Duas de Cinco”, lançado por Criolo em outubro deste ano.
 
Nas bandas MarginalS, Submarinos e Passo Torto, projeto que em 2012 levou o Prêmio da Música Brasileira na categoria MPB, ele compõe, faz arranjos e toca baixo. Em 2013, produziu o segundo trabalho do rapper MC Sombra, lançado pelo selo da Matilha Cultural, e o novo disco da cantora e compositora Verônica Ferriani, que chega às lojas agora em novembro. O músico ainda integra a equipe técnica de Rodrigo Campos e Romulo Fróes, em seus respectivos trabalhos solo.
 
Paulistano de 39 anos, Marcelo foi criado no bairro de Perdizes, na Zona Oeste. Aos 6 anos, descobriu duas paixões: a música e o skate. “Minha mãe me apresentou os Beatles e fui atrás de todos os discos”, lembra.
 
Mas foi no skate que ele decidiu investir primeiro. Profissionalizou-se nos anos 1980, aos 12 anos, competindo em torneios até os 17. No entanto, a crise econômica provocada pelo governo Fernando Collor de Mello esfriou as competições no país. Isso o levou a buscar alternativas e, assim, foi parar numa escola de música.
 
Por volta de 2003, o artista estava tocando na noite paulistana, como baixista substituto. Na época, ele frequentava bares de samba na capital, como o Ó do Borogodó, o Bar Samba e o Traço de União, todos na Vila Madalena. Em um deles conheceu Thiago França, com quem hoje divide o palco na banda MarginalS.
 
Não demorou muito para Cabral ser apresentado a Rodrigo Campos, que tocava cavaco no Ó do Borogodó. “O Rodrigo foi a primeira pessoa que me chamou para fazer parte de uma banda”, lembra. Ele precisou de um novo baixista assim que terminou de gravar o disco São Mateus Não É um Lugar Assim Tão Longe.
 
Então, durante dois anos, Marcelo tocou baixo ao lado de Campos e França na Gafieira Nacional, que se apresentava no Ó do Borogodó todas as segundas-feiras. Lá, foi apresentado a Kiko Dinucci e Juçara Marçal, outros dois importantes músicos da cena paulistana. “O Ó do Borogodó foi, aos poucos, unindo todos nós”.
 
O SaraivaConteúdo conversou com o artista para conhecer mais detalhes sobre esses e outros trabalhos no meio musical.
 
Nó na Orelha é um dos melhores discos brasileiros dos últimos tempos. Mas Criolo já fazia música antes de conhecê-lo. Como você descobriu o músico?
 
Cabral. Começar com um elogio desses, muito obrigado! Já fazia sim, e muito bem. Seu primeiro disco, Ainda Há Tempo, acho excelente. Eu o conheci por meio de um grande amigo meu, o Ricardo Costa, da Matilha Cultural, que me falou dele algumas vezes de uma maneira informal.
 
Nos encontramos e ele cantou "Bogotá", "Freguês da Meia Noite" e várias outras. Curti muito – tanto as músicas quanto ele como pessoa. Liguei para o Ganja [Daniel Ganjaman, músico e produtor de bandas como Mombojó e Nação Zumbi] para produzirmos juntos, organizamos nossas agendas e começamos.
 
O que mudou no Criolo com Marcelo Cabral? E como o Cabral músico mudou depois de Criolo?
 
Cabral. Difícil apontar o que mudou em cada um de nós, mas acho que tanto eu como ele temos essa sede de evoluir e conhecer sons, pessoas e maneiras diferentes de se produzir arte. Com isso, um vai influenciando o outro em tudo: música, poesia e amizades.
 
Além de tocarem juntos, você, Thiago França, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Romulo Fróes, Criolo e Rodrigo Campos são claramente uma turma. Como conciliar trabalho e amizade?
 
Cabral. Nos tornamos amigos por meio da música, e hoje se formou uma amizade independente dela. A gente discute, às vezes de forma mais intensa e outras menos, como em qualquer relacionamento, o que eu acho muito positivo. Não rola briga.
 
Este ano, você produziu o segundo disco do MC Sombra. O que o atraiu nele?
 
Cabral. O Sombra é daqueles que têm o pacote completo de talento. Primeiro de tudo, ele é 100% original. Escreve muito bem dentro de um universo só dele. Tem muito suingue e um timbre de voz único e maluco. Divide tudo de uma maneira diferente e original. E é gente boa também.
 
O que você aprendeu com o MC Sombra? E com o Criolo? O que os dois têm em comum e o que os difere?
 
Cabral. Os dois são muito intensos, originais e verdadeiros no que fazem. Acho que tudo neles acaba me influenciando, e eu vou aprendendo um pouco com cada um. Reparo na maneira como eles compõem, no suingue de cada um e no desprendimento que os dois têm com os formatos tradicionais da música. Acho isso uma das maiores qualidades. O não conhecimento teórico de música às vezes nos leva mais longe por não termos barreiras nem regras. Quando se tem um talento como o deles, o critério é apenas o ouvido.
 
Como você administra seu tempo para conseguir fazer tudo o que faz? Como é sua rotina?
 
Cabral. O mais difícil é administrar ensaios. De resto, fica fácil, pois é uma galera enorme e todos se conhecem. A gente aprende a fazer acontecer. Minha rotina fica entre ensaios, shows e produção. A vida de músico é muito irregular, não existe uma agenda que eu consiga seguir. Cada semana é de um jeito: às vezes mais tranquila e outras completamente insana.
 
Quando não está respirando música, que outras artes você acompanha e aprecia?
 
Cabral. Sempre que posso vou ao cinema ou vejo filmes em casa. Leio irregularmente. Gosto de ir a museus e exposições quando viajo – fora a shows, que vou sempre, em qualquer lugar. Cresci andando de skate, e ainda hoje ele está sempre por perto.
 
Você produz música de estilos muito diferentes. Você se considera uma pessoa eclética? Como definiria seu gosto musical?
 
Cabral. Sempre fui bem eclético. Gosto de Sex Pistols a Bach, passando por Miles e Coltrane, musica eletrônica, hip hop, samba etc. Não há nenhum estilo que eu não goste. O que tem são pessoas boas e ruins. Há jazzistas horríveis, orquestras péssimas, como tem roqueiros excelentes e DJs extremamente criativos. Às vezes, parece que o estilo musical é uma bolha protetora em que tudo que vem dali é bom. Isso não é verdade. Fechando-se em um estilo, quem sai perdendo é só você. Qualquer estilo, por mais puro que pareça, é sempre uma junção de vários. Sempre foi assim.
 
 
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