Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 12.04.2013 12.04.2013

Mangás: quando o Brasil abraça o Japão

Por Marcelo Rafael
 
No final de março, Cassius Medauar, gerente de conteúdo da editora JBC, anunciou algumas novidades, entre lançamentos e cancelamentos. Aproveitando, conversamos com dois especialistas sobre o atual mercado de mangás no Brasil.
Entre as alterações, Medauar anunciou o fim de dois títulos, que encerraram suas histórias em abril. Ao contrário dos super-heróis norte-americanos, histórias de mangá tendem a ser concluídas em coleções fechadas.
Ranma½ nº 38 é a última edição, com capa dupla, assim como a edição nº 37. Bakuman se encerra no nº 20. O nº 19 contou com um minipôster com as 18 capas anteriores, como na edição japonesa.
Futari H, voltado ao público masculino adulto, será cancelado. Após negociações com a editora japonesa, a JBC optou por encerrar a publicação no Brasil no nº 42.
Mas, claro, nem tudo é o fim. Love Hina, grande sucesso de 2002 a 2004, está de volta no mesmo estilo das atuais edições de Sakura e Samurai X: em formato tankobon (mais páginas) e papel offset.
E os fãs de Death Note (de 2007) terão a oportunidade de adicionar à coleção a edição Black Edition. Direcionado a livrarias e lojas especializadas, o mangá tem previsão de lançamento ainda para este semestre e periodicidade mensal.
MANGÁS NO BRASIL
O estilo japonês de quadrinhos estourou no Brasil no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, puxado pelo sucesso de animes como Cavaleiros do Zodíaco, Sakura Card Captors, Shurato, Sailor Moon, Guerreiras Mágicas de Rayearth, Super Campeões, Yu Yu Hakusho, Samurai X e, claro, Pokémon.
Muitos desses animes tiveram sua versão em mangá publicada, mas a invasão japonesa é bem anterior a eles.
 
Death Note Black Edition terá uma média de 450 páginas (oito coloridas) em papel especial e capa envernizada

“Antes mesmo de eu começar minha carreira, já havia tido contato com Akira e Lobo Solitário (dos anos 80)”, comenta J. M. Trevisan, roteirista, letrista e cocriador de Ledd.

“Nem todo mundo sabe, mas na verdade o mangá está vivo no Brasil desde a década de 70, quando Cláudio Seto começou a publicar suas histórias. Desde então, o mangá esteve sempre presente”, conta Caio Yo, ilustrador e professor de desenho em Campinas.
Cláudio (pseudônimo de Chuji Seto Takeguma) nasceu no interior de São Paulo e era leitor de mangás importados por seu avô. Falecido em 2008, o artista nipo-brasileiro foi um dos pioneiros dessa arte no Brasil, com publicações como O Samurai.
Tanto Yo quanto Trevisan acreditam que o sucesso do gênero por aqui se dá pelas diferenças entre o mangá e o gibi de super-heróis.
“Diferentemente das HQs periódicas americanas, existem mangás para públicos diferentes, com temáticas variando desde a pura ação até dramas existenciais, passando por romances e adultos. Tem para todos os gostos”, comenta Yo.
“Tudo isso facilita a identificação do leitor, principalmente dos mais jovens. É mais fácil se identificar com um moleque meio cabeça de vento, mas corajoso e divertido, como o Luffy, de One Piece, do que com o Superman, supostamente infalível, indestrutível e alienígena”, especula Trevisan.
PRODUÇÕES TUPINIQUINS
Entre os nacionais, houve algumas tentativas de produzir quadrinhos no estilo japonês por aqui, como Mangá Tropical. Outras, como Holy Avenger (HA), demandaram esforço e entusiasmo de seus criadores para manterem no mercado uma produção por mais de 40 edições.
HA fez tanto sucesso no início dos anos 2000 que a Jambô resolveu reeditá-lo, em edição de luxo, no ano passado. O Vol. 2 deve sair em maio, e a previsão de chegada do Vol. 3 é o segundo semestre. Em 2014, chega o último encadernado.
“A série mostrou que é possível fazer um mangá brasileiro de longa duração com começo, meio e fim. E isso em uma época pré-redes sociais e divulgação via internet em larga escala”, comenta Trevisan.
Do mesmo universo de HA, surgiu o spin-off Ledd. “Era uma ideia anotada em um arquivo de Word em 1998. Tentei trazer o conceito de volta em 2008, mas não foi para frente”, conta Trevisan.
No final de 2010, empolgado por animes como Full Metal Alchemist, retomou a ideia, com Lobo Borges nos desenhos.
Ledd foi lançado primeiramente na internet, em agosto de 2011 e, em novembro do mesmo ano, saiu em papel.
Esse estilo diferenciado de publicação (virtual e, em seguida, impresso) se mantém, e o Vol. 3 tem previsão de lançamento entre junho e julho.
“É algo que eu espero muito que dê certo não só por mim, mas pelo próprio mercado”, diz Trevisan.
Abaixo, Trevisan e Yo indicam alguns títulos que consideram essenciais:
One PieceMangá de aventura e humor, editado pela Panini. “Além de fazer um sucesso danado há mais de uma década, é um dos mangás juvenis mais bem desenvolvidos que já vi” – Trevisan. “A caracterização dos personagens e as inúmeras referências que o autor faz à cultura pop em geral (filmes, livros, musicais e outros mangás) são incríveis” – Yo.
BerserkIniciado no final dos anos 1980, no Japão, e publicado pela Panini aqui. “Passando-se num universo fantástico, cheio de monstros, tem enredo bastante violento e cruel, retratando os pontos mais baixos da natureza humana” – Yo.
Neon Genesis Evangelion De periodicidade variável, está no mesmo volume tanto no Brasil, pela JBC, quanto no Japão. “A versão em mangá de uma das animações japonesas mais importantes de todos os tempos é quase obrigatória. Uma trama fantasticamente intrincada, é um prato cheio pra quem gosta de ficção científica” – Yo.
Monster Publicado de 2006 a 2008 pela Conrad, voltou a ser editado pela Panini. “Baita obra do Naoki Urasawa, um mestre. Costumo falar que se ele fosse ocidental, seria tão louvado por aqui quanto Alan Moore e Neil Gaiman” – Trevisan.
Bakuman Dos mesmos criadores de Death Note, chega ao fim agora no nº 20, pela JBC. Conta a história de dois garotos que querem ser mangakás (autores de mangá). “É bem legal para ter uma noção de como funciona a indústria no Japão. Só não pode esquecer que é ficção” – Trevisan.
 
De terras mágicas a histórias amorosas, homo ou heterossexuais, passando por cenas do cotidiano, o mangá atinge vários gostos
 
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