Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 19.11.2009 19.11.2009

MANDINGAS DA MULATA VELHA NA CIDADE NOVA

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Depois de duas semanas, bastante enjoada, num navio maltratado e carregado de gente, Honorata vê a outra baía, a de Guanabara. A paisagem fica cada vez mais bonita à medida que o navio chega na entrada da baía, que não é aberta, larga como a outra, mas cercada por altos morros e rochedos. Transposta a passagem estreita, aparece então o “lago” enorme, cercado de matas e montanhas por todos os lados, até muito longe. São, depois Honorata soube, os picos do Corcovado e da Tijuca, e a Pedra da Gávea. E do outro, lá bem longe, já azulada pela distância, a serra dos Órgãos. E aqui, ao lado esquerdo do navio entrando, a grande pedra lisa chamada Pão de Açúcar; à direita, a outra, estranha: Itapuca, a pedra com forma de arpão. Honorata vê como é diferente a cidade. Na sua Bahia, tudo parecia preto: pretos na praia, pretos na cidade, pretos na parte baixa da cidade, pretos na cidade alta. Na Bahia, parecia que tudo o que corria, gritava, trabalhava, carregava, tudo que vivia, enfim… era negro. E lembra mais…

Abandonada por Normando, Honorata não sabe bem o que fazer da vida. Mas uma certeza, ditada pelo próprio instinto, ela tem: precisa ver como alimentar e cuidar da saúde da filha. E é imbuída desse propósito que ela está agora na Santa Casa de Misericórdia, diante do mais misericordioso e santo dos médicos da Bahia. O doutor Salustiano Ferreira Souto, um negro calmo e mui to educado, aparenta bem menos do que os sessenta e alguns anos que tem. Nascido numa família de negros livres, conseguiu cursar a faculdade de Medicina, onde, cinco anos depois de formado, já integrava o corpo de professores. Lente do ensino superior, granjeou logo enorme clientela, não fazendo, entretanto, distinção entre os clientes de posse e aqueles que não têm nem dinheiro para os remédios. A estes, depois de um exame prévio, encaminha sempre a este ambulatório da Santa Casa onde, agora, atende Honorata e sua filha.

Mas além de caridoso médico, o doutor Souto é também um homem de grandes iniciativas na esfera governamental. Foi dele, quando governador do Passeio Público, a ideia da criação do Jardim Botânico da cidade. Por essas e outras ações, chegou também ao parlamento, na condição de deputado provincial.

E, agora, depois de examinar a menina e prescrever-lhe alguns remédios, recomendando à mãe cuidados básicos de higiene e saúde, escreve alguma coisa como um bilhete, põe num envelope timbrado e entrega a Honorata, junto com uma nota de vinte mil réis, discretamente dobrada.

— Tome aqui, minha jovem mãe — diz ele, em tom carinhoso e paternal. A Sociedade Protetora fica no beco dos Aflitos. Você vai lá, procura o senhor Manuel Friandes… Guarde bem: Fri-an-des… e entrega este envelope. Aí dentro estão minhas recomendações para que a Irmandade se encarregue do seu bilhete de passagem e da alimentação sua e de sua filha até o Rio de Janeiro. Não é isso o que você deseja?

Honorata não sabe o que dizer, de tão contente e agradecida. O médico, já de pé, dá as últimas informações:

— Eles vão lhe conseguir a passagem e algum dinheiro. E vão dizer quem você deve procurar na capital, caso não encontre sua tia. Quem vai nos ombros dos outros, não sente a longa distância. Que Deus, clemente e misericordioso, te proteja!


Trecho do romance Mandingas da mulata velha na Cidade Nova,de Nei Lopes. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009.

 

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