Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 01.12.2011 01.12.2011

Máfia na literatura: os ingredientes desse mundo revelado nos livros

Por Andréia Silva
O escritor Gay Talease, que fez amizade com um mafioso para contar sua história
 
Seja na vida real ou na literatura, a máfia já mostrou suas credenciais: a máfia não esquece, a máfia não perdoa. A frase é tida como um verdadeiro ditado popular dentro desse universo particular.
 
Nas relações da organização, a vingança é um prato que mais se come, seja frio ou quente. Ela é o elemento motivador da maioria das tramas. Esse ambiente recheado de suspense, jogos de poder, chantagens, traição e morte já rendeu obras-primas tanto no cinema, como O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros, quanto na TV, com a série Família Soprano.
 
Na literatura não é diferente. Inclusive, a grande obra de Copola foi baseada em um livro homônimo de Mario Puzo.Diversas obras já revelaram detalhes do submundo da máfia, principalmente a italiana, permitindo um olhar mais próximo, que vai além dos crimes cometidos pelas gangues, e explora ingredientes dos bastidores das organizações, como os laços familiares – aqui cabe o respeito máximo ao patriarca –, a solidão do submundo, relações de poder, o envolvimento dos jovens seduzidos pela adrenalina, bem como os rituais das execuções – rápidos, violentos e que não deixam rastros.
 
Entre as obras mais recentes sobre o assunto está a graphic novel brasileira Homem de Honra – Os 10 Mandamentos da Máfia (Panda Books), de Wagner Patti e Edson Leal. Ambientado em São Paulo, o livro conta uma história de traição e vingança, ou melhor, de como essa vingança é meticulosamente preparada pelo protagonista Enzo. Mais uma caraterística do estilo Cosa Nostra.
 
Cenas da HQ Homem de Honra
 
Homem de Honra destaca algumas características dessa organização iniciada na Sicília, na Itália, como o ritual de iniciação de seus membros – somente após “sujar as mãos” – e também os dez mandamentos da máfia. De um lado, quem cumpre o código de conduta à risca, de outro, os que serão eliminados por terem desrespeitado as regras. A HQ também traça um perfil dos principais aliados do grupo, onde se destacam empresários e políticos. A forma como a máfia inverte a noção de quem tem o poder é um detalhe curioso.
 
Outro que entrou nesse universo foi escritor Gay Talese, autor de um dos mais célebres relatos do mundo da máfia ao contar a história de Joe Bonanno e de seu filho mais novo, Bill, no livro Honra Teu Pai (Companhia das Letras), publicado em 1971.
 
A curiosidade de Talese pela vida secreta de Joe partiu de sua própria origem, já que o pai, italiano, não gostava ver nos jornais e na TV os compatriotas sempre tachados de criminosos e suspeitos até que se provasse o contrário.
 
Nesse livro, que estava fora de circulação há 40 anos e foi reeditado este ano, Talese explora as consequências da perda de um líder da Cosa Nostra e a solidão do poder. Bill Bonanno precisa abrir mão de toda uma vida, que inicialmente não havia sido pensada para acontecer no submundo. Mas não se pode escolher o destino quando seu pai é um dos principais gângsteres do movimento em Nova York, como era o caso de Joe. Outra caraterística típica da Cosa Nostra.
 
Yakuza e Camorra
 
Ao contrário de Talese, que contra a história dos Bonnanos com toda a verve literária que marcou sua carreira, outros livros sobre o tema assumem caráter de denúncia. É o caso de Tóquio Proibida – Uma Viagem Perigosa pelo Submundo Japonês (Companhia das Letras, 2010), de Jake Adelsein, Máfia – Padrinhos, Pizzarias e Falsos Padres, de Petra Reski (Tinta Negra, 2010) e Gomorra (Bertrand, 2008), de Roberto Salviano. Todos os autores entenderam ao pé da letra o recado “a máfia não perdoa, a máfia não esquece”. 
 
Quando ainda trabalhava em Tóquio, Adelsein recebeu o seguinte recado: “Ou você apaga essa matéria ou apagamos você. E talvez sua família também. Eles primeiro, que é para você aprender a lição antes de morrer”.
 
O jornalista Jake Adelsein
 
A mensagem era clara. Ele passara 12 anos investigando as relações e atitudes do grupo, material que foi publicado em reportagens e depois reunido no livro, que desvenda as relações obscuras entre polícia, crime organizado e imprensa, mostrando outro retrato dos mafiosos japoneses.
 
Se nos mangás e filmes eles são vistos como desprivilegiados que escolhem esse caminho por falta de opção, na história contada por Adelsein, os membros da Yakuza são homens de negócios, atuam no mercado de ações e têm gosto caro e refinado. É um pouco desse estilo de vida que o leitor conhece nas páginas de Tóquio Proibida.
 

Petra e Salviano sofrem até hoje as consequências das denúncias de seus livros-reportagem da máfia alemã e da Camorra, máfia italiana. Após a publicação do livro, Salviano foi obrigado a andar sempre escoltado e vive exilado no próprio país. Ele mesmo já declarou ódio ao livro por ter lhe tirado a liberdade. Parece que está provado. Quem mexe nesse vespeiro não será perdoado, nem esquecido.

 
Para completar a estante…
 
Para quem gosta do tema, outros livros que também desvendam o universo da máfia são o já clássico Os Últimos Mafiosos (Larousse), de John Follain, sobre um dos mais poderosos clãs da Máfia, os Corleonesi; Mais Escuro que a Meia Noite (Bertrand), de Salvo Bertrand Sottile; McMafia – Crime Sem Fronteiras (Companhia das Letras), de Misha Glenny; Educação Siberiana (Alfaguara), de Nicolai Lilin, sobre a máfia russa; e Mafia Export, de Francesco Forgione, sobre a máfia na visão dos negócios. O livro ajuda a entender porque, crise após crise, a máfia se mantém estável.
 
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