Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 29.09.2014 29.09.2014

Mafalda: há 50 anos contestando o mundo

Por Marcelo Rafael

Ela vem do “fim do mundo”, assim como o atual Papa. Ela é mulher, assim como a atual presidente de seu país. Ela é um símbolo nacional, assim como a nossa Mônica. Ela é conhecida mundo afora, assim como os norte-americanos de Peanuts. Ela tem 50 anos. Ela é Mafalda.
“Mafalda se tornou um ícone cultural argentino, ao lado de Che Guevara, Carlos Gardel e Eva Perón”, analisa Paulo Ramos, jornalista especializado em quadrinhos e autor de Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos.
Ele considera que, aqui no Brasil, o sucesso internacional da personagem fez algo que outras HQs vizinhas não conseguiram. “Trata-se de um dos poucos quadrinhos argentinos publicados no país e, apesar disso, obtém um eco enorme em diferentes campos. Um fenômeno”, afirma.
O PRINCÍPIO
Mafalda surgiu nas páginas de um jornal argentino em 29 de setembro de 1964. Mas sua origem não tem nada a ver com o caráter contestatório do status quo, tão característico da personagem.
Ela foi criada para promover a marca de eletrodomésticos Mansfield, e a única exigência da empresa de publicidade era a de que os personagens começassem seus nomes com a inicial da empresa. “M”, então, para Mafalda.
A intenção era publicar as tirinhas, que terminariam sempre elogiando algum produto Mansfield, nas páginas do Clarín, mas o jornal percebeu a propaganda disfarçada de quadrinhos e o material nunca foi publicado.
Foi assim que Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido como Quino, foi dando a Mafalda a cara que conhecemos hoje. Com algumas pequenas alterações, ele levou as histórias ao semanário Primera Plana, 50 anos atrás.
A ARGENTINA
Ao passar de um jornal semanal para um diário, Quino achou por bem tratar de assuntos cotidianos e, assim, a menininha saiu comentando tudo que se passava dentro e fora da Argentina.
Suas tiras circulavam em jornais questionadores do governo, que acabaram sendo fechados. “A migração das histórias para outros veículos não foi tanto por opção, mas por falta de espaço no veículo anterior”, comenta Ramos.
A turma foi crescendo e apresentando uma visão de mundo a cada novo personagem. Susanita, assim como a mãe de Mafalda, era a mulher dentro do padrão esperado para a época: sonhava em se casar e ter filhos. Ambas eram usadas por Quino para criticar o machismo.
“A irrupção dos movimentos de reivindicação da mulher daquela época influenciaram muitíssimo a Quino”, conta Daniel Divinsky, editor da De La Flor, editora argentina que publica Mafalda atualmente. Este ano, uma nova edição comemorativa de Toda Mafalda foi lançada na Argentina.
Manolito era o “capitalista selvagem” no armazém de seu pai. Miguelito, o inocente. Felipe, o pequeno sonhador. Por fim Liberdade, última da turma, tinha posições mais à esquerda ainda do que Mafalda.
Poucos tiveram inspiração direta na vida de Quino. “Somente o pai de Manolito, inspirado no pai de um amigo dele, e Felipe, inspirado nos traços físicos de Jorge Timossi, grande amigo de Quino”, afirma Divinsky.
O local onde se passam as histórias também é uma referência pessoal: é a rua em frente ao prédio onde Quino morava, no bairro portenho de San Telmo.
Lá foi inaugurada a imagem de Mafalda, sentada num banco de praça. “Na entrada do prédio, foi colocada uma placa comemorativa. As duas iniciativas [placa e estátua] tornaram o local uma atração turística de Buenos Aires”, conta Paulo Ramos.
De 1964 até o fim das tiras, em 1973, Mafalda mudou de jornal algumas vezes, e muita coisa se passou na política interna argentina e no plano internacional.
As reviravoltas no governo, o retorno de Perón (mandado de volta à Espanha pelo recém-instalado governo militar brasileiro quando o político pousou no Rio de Janeiro, em escala para Buenos Aires), a economia, o impacto da televisão dentro de casa, a Guerra Fria, Cuba, o medo da China, tudo era comentado por Quino por meio de seus personagens.
O MUNDO
O sucesso de Mafalda levou à sua primeira publicação fora da Argentina. Mafalda, La Contestatoria foi publicada pela primeira vez na Itália em 1969. Por lá, ganhou elogios de Umberto Eco.
De lá para cá, a menina que gostava de Beatles e queria ser tradutora da ONU para tentar buscar a Paz Mundial já foi publicada em 6 países. No Brasil, a coletânea Toda Mafalda, editada pela Martins Fontes, foi incluída no Programa Nacional Biblioteca da Escola, em 2006.
“Afora alguns casos específicos, como o Vietnã ou o impacto dos Beatles, conclui-se, a partir de Mafalda, que o mundo não mudou muito assim”, diz Ramos
Com o fim das tiras, em 1973, Quino ainda retomou a personagem em campanhas nacionais de saúde e em uma versão infantil da Declaração dos Direitos da Criança, para a ONU.
Essas peças institucionais e as primeiras histórias, que ficaram de fora de Toda Mafalda, foram reunidas no álbum Mafalda Inédita, publicada pela De La Flor lá e pela Martins Fontes aqui.
O TEMPO
Entre 1964 e 1973, Mafalda entrou na escola, tirou férias, sua mãe engravidou e teve outro filho. Os personagens, inclusive, mudavam suas roupas, diferenciando-se de outros como Mônica, Calvin e Charlie Brown.
Para Ramos, isso teria raízes em tiras norte-americanas como Dick Tracy e Ferdinando, que tiveram marcas temporais em suas séries. “Mesmo assim, era algo novo nas tiras cômicas. Foi mais uma inovação trazida por Quino. Não por acaso, Mafalda ditou o rumo das tiras argentinas a partir de então”, acrescenta.
Em 1973, já no jornal Siete Días Ilustrados, Quino resolveu, aos poucos, ir se despedindo do público, até que, em junho, publicou sua última tira. Entre os motivos para o encerramento de Mafalda estavam a intenção de não deixar outros artistas tocarem as histórias, como ocorreu com Peanuts e Mônica, e a vontade de não se repetir.
50 anos depois, Mafalda continua atual, sendo usada constantemente em redes sociais e até em campanhas eleitorais brasileiras, mesmo sendo uma personagem tão datada.
“Quino lamenta essa permanência porque considera que é sinal de que nada mudou no mundo em relação às situações que criticava através de suas personagens. E eu compartilho dessa ideia”, finaliza Divinsky.
Mais de Mafalda:
Mafalda ao lado de Charlie Brown na capa da revista Patota em suas primeiras aparições no Brasil, nos anos 1970
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