Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 26.06.2012 26.06.2012

Madrugada crônica: João Paulo Cuenca lança seu primeiro livro de crônicas

Por Rachel Souza
 
Em seu primeiro livro de crônicas, o escritor João Paulo Cuenca reúne material do período em que escrevia semanalmente para os Jornais O Globo, Tribuna da Imprensa e Jornal do Brasil, em um período que foi de 2003 a 2010.
 
A Última Madrugada, lançado pela Editora Leya, tem como temática central a cidade e as relações que se desencadeiam, ou, pelas palavras do autor, trata-se de “um homem atravessando uma cidade até que ela o atravesse”.
 
Como diz a apresentação de sua editora: “O leitor será transportado para um amanhecer em Copacabana, um bar em Paris que é surpreendido pela entrada do demônio, a praça do Rio que vê a dança de um casal de mendigos, o Baixo Gávea e sua multidão de solitários, o apartamento de um João Gilberto de ficção”.
 
Tendo a cidade como cenário de suas crônicas, Cuenca trabalha assuntos da vida contemporânea com acidez. A situação de sair de um restaurante e hesitar, com culpa, em apertar a mão de um mendigo – pedinte não só de comida e algum trocado, mas também de oração; mulheres extremamente objetuais, cheias de cremes, sabonetes, saltos e outros arsenais básicos de manutenção diária são alguns dos universos por onde transita o cronista.
 
Cenas como a da pizzaria da moda “onde não há privacidade entre as mesas ocupadas por louras calipígias de farmácia e dopados de camisa polo listrada (…), com as portas do banheiro em movimento perpétuo e casais sendo feitos e desfeitos em enorme velocidade" dão o tom do livro.
 
O autor, que lançou três romances – Corpo Presente, O Dia Mastroianni O Único Final Feliz Para Uma História de Amor é Um Acidente – entre peças e seriados de TV, defende a crônica como um gênero essencialmente brasileiro. O SaraivaConteúdo conversou com o escritor sobre a nova publicação.
 
O que essa linguagem te traz como escritor e como imagina o diálogo com o leitor?
 
Cuenca. A crônica surgiu na minha vida como normalmente acontece com a maioria dos escritores, por convite e acidente. Comecei a escrever crônica com 23 anos, na Tribuna da Imprensa, um pouco antes do lançamento do meu primeiro romance. A crônica é um gênero literário essencialmente brasileiro, com caráter e tradição próprios, e eu tento jogar com isso de forma bastante consciente. É literatura de gênero, como, aliás, tudo o que eu fiz até hoje.
Capa do livro Última Madrugada
 
As crônicas reunidas no livro criam, em maioria, um diálogo com as vivências de uma juventude urbana de classe média – Carnaval já Passou, Nunca Mais Casa da Matriz, Depois do Baixo Gávea são exemplos dessa dinâmica. Como essas experiências viram tema e como é o processo?
 
Cuenca. Não creio que isso esteja na maioria das crônicas, mas é certo que muitas pretendem construir esse recorte. O processo é simples: estar nos lugares e não estar nos lugares. O cronista é um alienígena infiltrado. Ele não pertence a nada.
 
A crônica Dinâmica de Grupo sob Luz Estroboscópica parece uma radiografia de tipos de uma tribo social. Como você, como cronista, lida com essas tribos, com a cena atual do Rio de Janeiro?
 
Cuenca. Como cronista, lido com facilidade – é tema rico. Como morador da cidade, lido com extrema impaciência e irritação.
 
Muitos desses textos tematizam a mulher. Como vê a relação da mulher cheia de objetos e trejeitos, como pontua ao longo do livro, com esse 'novo homem'?
 
Cuenca. Os papéis estão mais misturados, com mulheres assumindo atitudes masculinas e vice-versa, como diz o texto da crônica.
 
Quais são os cronistas que considera referência para seu trabalho? Por quê?
 
Cuenca. Lima Barreto, João do Rio, Rubem Braga, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues e um largo etc. São referências porque, além da prosa excepcional, sempre tinham os olhos abertos para a cidade.
 
Como foi o processo de escolha dos textos?
 
Cuenca. Longo, desagradável, tempestuoso. Como é um balanço desses que se faz de dez em dez anos.

 
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