Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 22.01.2015 22.01.2015

Luz, câmera, São Paulo!

Por Bruno Capelas
Diego, Júlia e Micaela são três jovens que moram no mesmo prédio em São Paulo. Entre o final dos 20 e o meio dos 30 anos de idade, o trio tem várias desilusões amorosas e ainda busca um trabalho que os faça felizes – ou menos, deixe-lhes com algum dinheiro no bolso. Poderia ser a história da sua vida ou a de algum amigo seu, não é? Mas trata-se do enredo de SP é uma Festa, primeiro longa-metragem da cineasta Vera Egito, corroteirista de Serra Pelada e À Deriva.
“Cada um dos amigos vive suas questões afetivas e profissionais, e meio que tudo dá errado. Mas não dá mais errado do que na vida de qualquer pessoa. E o cinema é o quê? É a vida”, diz a diretora, que classifica o projeto como uma comédia dramática, no estilo do indie americano Frances Ha. “A principal inspiração é no modelo de produção: um filme feito entre amigos, sem dinheiro nenhum, mas que é muito legal. Por que não tentar o mesmo modelo?”, afirma Vera.
Atualmente em fase de montagem e com previsão de chegada aos cinemas no final de 2015, SP é uma Festa quer colocar São Paulo na mira das lentes e câmeras de cinema. No entanto, apesar de mostrar lugares bacanas da capital paulista, como o restaurante Spot e os bares Mandíbula e B.Bar, a produção não tem a pretensão de criar ou exibir os “pontos turísticos” paulistanos.
“O mais legal da cidade, na verdade, são as pessoas que moram aqui. É assim que ela aparece no filme: na maneira como as pessoas vivem e na liberdade que elas têm para fazer suas escolhas”, explica a cineasta.
                                                                                                             Ilana Lichtenstein

A cineasta Vera Egito fará sua estreia na direção de longas-metragens com o filme sobre São Paulo
O título do filme é uma referência ao romance Paris é uma Festa, do escritor Ernest Hemingway. “O livro mostra uma época bem difícil na vida dele, em uma fase sem grana, contando moedinhas. Ao mesmo tempo, dá para perceber que era uma festa estar em Paris, uma cidade que tinha encontros criativos, de escritores e artistas. São Paulo é um pouco assim hoje também”, diz a diretora.
Para Vera, existem poucos filmes sobre a capital paulista, que completa 461 anos no próximo dia 25. “Gosto muito do São Paulo Sociedade Anônima, do Luiz Sérgio Person, que tem cenas muito fortes, e do Nina, do Heitor Dhalia, que tem uma estética louca e precisa ser visto”. Ela adianta ainda que seu próximo projeto também terá São Paulo como cenário: trata-se de Maria Antônia: A Incrível Batalha dos Estudantes, que vai narrar o confronto entre estudantes da USP e do Mackenzie em 1968, durante a ditadura militar.
Regina Casé vive uma doméstica que deixou um filho para trás e veio morar em SP em Que Horas Ela Volta?,de Anna Muylaert
DOMÉSTICAS
Outra produção que tem a cara de São Paulo e deve chegar aos cinemas em breve é Que Horas Ela Volta?, da diretora Anna Muylaert (É Proibido Fumar, Durval Discos). Estrelado por Regina Casé, o longa-metragem conta a história de uma doméstica que deixa uma filha recém-nascida e vai trabalhar na capital paulista, cuidando de um garoto de uma família de classe média-alta. “A história começa quando esse menino tem 19 anos, e a filha da empregada descobre que a mãe está em São Paulo e vem morar com ela”, explica Muylaert.
“É um filme sobre o social e o jogo dos afetos”, conta a cineasta, que teve a ideia para o projeto ainda nos anos 1990, logo depois de participar da produção da série de TV Castelo Rá-Tim-Bum. Em fevereiro, Que Horas Ela Volta? participa do Festival de Sundance, um dos mais importantes do cinema independente mundial, e deve chegar ao circuito comercial ainda em 2015, segundo a produtora Gullane.
O tema do filme de Anna traz à lembrança outra produção bem paulistana: Domésticas, um dos primeiros trabalhos de Fernando Meirelles como diretor de cinema, em parceria com Nando Olival. Lançado em 2001, o longa-metragem conta a história de cinco empregadas domésticas – Cida, Roxane, Quitéria, Raimunda e Créo – e seus sonhos, embalados por clássicos do repertório brega, como “Não Se Vá”, de Jane & Herondy.
Já consagrado pelo sucesso de Cidade de Deus, Meirelles voltou a usar São Paulo como locação em Ensaio Sobre a Cegueira, de 2008, que mostra, por exemplo, o centro paulistano e a Ponte Estaiada, na zona sul, cobertos com lixo.
Em Não Por Acaso, de 2007, Rodrigo Santoro faz o papel de um jogador de sinuca movido pela racionalidade
BELEZA ESCONDIDA
Para o diretor Philippe Barcinski, “São Paulo tem uma poética que é muito mais difícil de captar que a do Rio. É uma cidade que destrói e constrói coisas belas, é difícil achar fotogenia aqui”. O cineasta fala com conhecimento de causa: em 2007, ele lançou o filme Não Por Acaso, que conta a história de dois paulistanos movidos pela racionalidade e pela exatidão – Rodrigo Santoro é um jogador de sinuca, enquanto Leonardo Medeiro interpreta um engenheiro de tráfego. “Foi difícil achar algo fotogênico no trânsito, sem ser aborrecido. Na época, como não existia a lei da Cidade Limpa, foi ainda mais difícil”, comenta Barcinski.
Já para Vera Egito, o fato de a metrópole paulista ser costumeiramente descrita como “cinza” e “feia” não é um empecilho. “São Paulo é um lugar desordenado, onde muitas vezes a feiúra se impõe. Por outro lado, o que é estranho e caótico às vezes tem uma beleza bem mais interessante”, diz a cineasta, que não acha trabalhoso filmar na cidade. “Nunca morei em outro lugar. São Paulo é a minha área, e, para fazer um filme com o estilo de produção do SP é uma Festa, eu só poderia fazê-lo aqui, com as pessoas que eu acompanho e me acompanham nos últimos 30 anos”.
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