Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.11.2010 24.11.2010

Luiz Antonio de Assis Brasil, Mestre da escrita

Por Ramon Mello

O escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil é um homem generoso. Há 25 anos ele dedica grande parte do seu tempo a ensinar a autores iniciantes as técnicas do ofício da escrita. O reconhecimento por esse trabalho pode ser visto na escrita de autores que estão produzindo a literatura contemporânea brasileira: Daniel Galera, Carol Bensimon, Cíntia Moscovich, Amilcar Bettega… E tantos outros.

O gaúcho Assis Brasil estreou como escritor com o romance Um Quarto de Légua em Quadro (Movimento), lançado na 32.° Feira do Livro de Porto Alegre, em 1976.  Neste mesmo ano iniciou sua trajetória como administrador cultural: como chefe da secção de Atividades Artísticas da prefeitura de Porto Alegre; como diretor do Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre em 1981; e como diretor do Instituto Estadual do Livro em 1983.  Em 1º de janeiro de 2011, Assis Brasil será o novo secretário de Cultura do Rio Grande do Sul do governo Tarso Genro.

O encontro com Luiz Antonio de Assis Brasil ocorreu em sua casa, em julho deste ano, às margens do Guaíba, lago ao qual Porto Alegre está culturalmente ligado. O autor dos premiados livros O pintor de retratos (L&PM) e A margem imóvel do rio (L&PM), conversou com exclusividade ao SaraivaConteúdo sobre seu trabalho frente a Oficina de Criação Literária na PUCRS, as descobertas no exercício literário e seu encantamento com a leitura.

> Assista à entrevista com Luiz Antonio de Assis Brasil ao SaraivaConteúdo

Neste ano sua Oficina de Criação Literária na PUCRS completou 25 anos. Fale sobre essa experiência de ensinar o ofício da escrita.

Luiz Antonio de Assis Brasil – Vinte cinco anos em 12 de agosto, quando dei a primeira aula. Começou por sugestão de um amigo, Jaime Cimenti, sempre muito bem informado falou: “Há aquelas oficinas literárias americanas…” Fiquei com aquela ideia e propus a PUC, eles toparam. Fizemos um semestre para ver como era, mas quando terminou o grupo pediu mais um semestre. E outros também queriam. Sentimos que, de fato, a oficina iria funcionar. No meio das 15 pessoas selecionadas, havia apenas curiosos, inclusive, com pouca leitura. Então, começamos fazer seleção para ingresso. E funcionou. No decorrer desses 25 anos fui notando algumas mudanças. Antes eram pessoas mais maduras que queriam melhorar o texto. Aos poucos, a idade foi baixando muito. Tenho alunos que não eram nem nascidos quando comecei a oficina. E a outra coisa que mudou foi o sentido de profissionalismo: “Eu quero ser escritor! Vou abrir mão de tudo, eu quero ser”. Tem uma geração que sai disso, a Carol [Bensimon] é uma delas. E outros tantos.

Por que esse interesse dos mais jovens pela literatura?

Assis BrasilEu já estive pensando… Até já tinham me encomendado um artigo sobre isso, mas eu não cheguei à conclusão nenhuma. A não ser, talvez, uma certa profissionalização da literatura. Quer dizer, os escritores já podem estabelecer rotinas comerciais com seus editores… Já começam a surgir agentes literários no nosso país. Tudo é muito atrasado, mas vai chegando… Talvez seja isso. Alguns escritores estão mudando para o Sul para fazer a oficina. Um tipo de obsessão assustadora…

Uma responsabilidade.

Assis BrasilExatamente. O que eu posso dizer para essa gente? Me deixa até preocupado. “E se não der certo? O que essas pessoas vão fazer depois?” Minha mulher diz: “Paciência. Isso é assim mesmo. Com oficina ou sem oficina eles teriam que fazer opções na vida”. Na medida em que as pessoas vão terminando vão publicando. Tenho os contos de oficinas, são 40 antologias. [Assis Brasil levanta para mostrar a prateleira com livros dos alunos mais promissores] E os ex-alunos que publicaram, vou guardando aqui: Daniel Galera, Carol Bensimon, Cíntia Moscovich, Amilcar Bettega… A Letícia Wierzchowski, que se notabilizou pela A casa das sete mulheres. Foi uma coisa incrível! Quando terminou a oficina ele tinha três romances prontos, ela escreve de uma maneira espantosa. E têm outros: Clarah Averbuck, Daniel Pellizzari… São jovens. Tem um aluno, Leonel Caldela, que é impressionante. Outros estão publicando em antologias. E também se lançando como editores: Editora Dublinense, por exemplo, tem publicado livros boa qualidade… A Não Editora tem ex-alunos.

A internet pode ser fator um importante para desmitificar o ofício do escritor, aproximando os jovens da literatura…

Assis BrasilSem dúvida. Exato. Todos esses que concorrem à oficina, de certo modo, têm blog e até sites literários. E muitos indicam os blogs como referência. Quando comecei como escritor só tinha um jornal literário aqui [em Porto Alegre], o célebre Caderno Literário do Correio do Povo, que lançou muita gente: Lia [Luft], Moacyr [Scliar]… O [João Gilberto] Noll chegou a publicar por lá. A gente envia os textos, mas não sabia se seria publicado. O editor era um cara genial e muito desorganizado. Às vezes o texto não sai nunca. Até o e-mail está fazendo as pessoas escreverem melhor. Porque no surgimento do e-mail era complicado. Era complicado, hein.

Ao iniciar sua oficina, o que você diz para seus alunos?

Assis BrasilEsse ano, eu disse para eles: “O que aconteceu com o cão?” Eles se puseram a escrever. Depois de meia-hora eu disse: “Vamos ver!” Projetamos o texto e conversamos. Em seguida eles se apresentaram… “Não vou dizer uma coisa óbvia para vocês: Vou dar o melhor de mim… Não sei o que vai dar de vocês. Sigam o que diga. Pode ser que der certo, pode ser que não dê certo… Que o talento é muito importante. Tudo isso vocês sabem que eu teria para dizer. Vamos trabalhar?”. E começamos trabalhar? Felizmente a universidade me deu um laboratório de escrita, com os computadores todos ligados… Qual o grande trabalho? Que ser reduza ao essencial. Porque se escreve demais, demais, demais… Então, colocamos um texto de um voluntário no quadro. E começo a mexer, a tirar, tirar, tirar… E agora? “Ficou muito melhor”. Uma questão de ensinamento para os alunos é a limpeza e essencialidade do texto. Isso é elementar, primário. Mas que tem que ser feito de início para nivelar todo mundo. E no terceiro e quarto encontro o pessoal já está escrevendo de uma maneira mais essencial. Depois vamos trabalhar assuntos mais específicos. Quem é que narra a história? Narrar entre primeira e terceira pessoa, o que dá de diferença? O que é olhar da personagem? O olhar da personagem transforma o mundo. Até faço uma experiência com eles: peguei uma foto de papoulas no vaso e todo mundo descreveu. E eu mostrei a descrição de um vaso de papoulas da Sylvia Plath, que não tinha nada ver com beleza e perfuma. Ao contrário, eram papoulas terríveis, anunciadoras da morte. “É o olhar da personagem, não é o olhar de vocês”. E trabalho o tempo, o espaço, o diálogo… O diálogo também é outra coisa que dá bastante trabalho, depois eles compreendem. É que existe aquela coisa de considerar o diálogo… “Ele tem que ser natural?”. Sim ele tem que ser natural, mas ele é uma criação. Não é deixar rolar o a papo e pronto. Não é. Diálogo é algo que se constrói. E a gente faz as personagens dizerem o que queremos que digam. Nenhum diálogo é inocente, há um sentido. O diálogo se incorpora na narração. Depois a aceleração e desaceleração da narrativa… Estou dizendo alguns exemplos do que a gente trata. E no segundo semestre é um ‘seminário de contos’, alheios e produzidos por eles mesmos.

Há uma escola de criação literária que serve de base para o seu trabalho? Ou você já tem um método próprio?

Assis BrasilÉ mix de tudo. Tenho algumas obras, pode olhar ali ao lado [aponta para a estante de livros], são todas de criação literária. São livros importantes para mim. Experiências americanas, francesas e espanholas. Na Espanha existe uma grande oficina literária que se chama “Fuente Tarra”, algo absolutamente maravilhoso. Já estive com eles por duas vezes, realmente muito boa. Eu vejo o que funciona para mim. Há muito lixo no meio disso tudo, mas há muitas coisas boas. Como o livro da Francine Prose, que foi agora traduzido [por Maria Luiza X. de A. Borges], Para ler como um escritor (Jorge Zahar Editor,2008). É um livro muito bom. Então, digamos, técnica de criação são com os americanos, sem dúvida. O trabalho de oficina, ateliê de escritura, são os franceses. Tento equilibrar uma coisa com a outra, e a minha experiência. Quando comecei não existia bibliografia, em Língua Portuguesa não existia nada, a não ser um livro do Autran Dourado que se chamava Poética do romance, matéria de carpintaria. Praticamente não concordo com nada com que ele diz, mas o livro me despertou para uma coisa que eu nunca tinha pensado antes, que existe uma técnica. Uma coisa elementar. Depois, é claro, fui descobrindo outras fontes.

Nesses 25 anos mais de 600 alunos passaram pela sua oficina. Qual o sentimento em relação a essa trajetória?

Assis BrasilÉ uma coisa um pouco confusa. Eu sinto um orgulho – esperável, qualquer professor sentiria -, mas por outro lado eu desconfio um pouco. Talvez, eles chegassem ao mesmo resultado sem mim. Eu não consigo ser feliz por completo nessa história, sempre fico meio desconfiado. Eles dizem: “Foi legal! Foi importante!”. Alguns são mais sinceros ou mais críticos, não é? E dizem: “No mínimo, só aquilo da gente estar reunido durante o ano, conversando entre a gente, e trocando… Só isso já valeria”. Bom, então já faz algum sentido.

A concisão textual passou a ser uma marca da sua escrita literária. Fale um pouco sobre essa descoberta para os seus livros.

Assis BrasilOs meus primeiros livros tiveram algumas influências muito nítidas do próprio Autran Dourado, realmente muito identificáveis. Alguns autores americanos foram muito importantes para mim.  Mas com um passar do tempo aquilo passou a ficar muito pesado demais para mim, aqueles períodos mais longos conectados por subordinação. Eu estava começando a escrever O pintor de retratos (2001), tinha umas vinte e poucas páginas. Eu estava realmente muito chateado: “Não estou gostando”. Eu já tinha cinqüenta e alguma coisa… “Que chato! Quem sabe não vou escrever mais porque não estou gostando…” Foi daí que fui para estante e encontrei La Chanson de Roland, texto medieval. Eu abri, deu uma explosão dentro de mim. Eu disse: “É isso aí”. Porque no texto medieval é aquela essencialidade: “Saiu a tantas horas. Encontrou tal grupo. Fez tal coisa”. Quase todos de sentença de natureza gramatical declarativa. “Claro!” E fui olhar a Bíblia. A Bíblia é toda assim, ela é toda essencial. Os textos dos Evangelhos são absolutamente essenciais, não dizem uma palavra a mais do que deve dizer. E esses livros transformam o mundo. O Corão também é absolutamente essencial. E transforma o mundo. Ainda era máquina escrever, peguei de novo o texto e comecei a reescrever: “Disso eu to gostando!” Aí, então, foi: O pintor de retratos (2001),A margem imóvel do rio (2003), Música Perdida (2006)… E o romance que estou escrevendo agora.

Qual o nome desse novo livro?

Assis BrasilFigura na sombra. Na verdade são quatro livros que tem o título de Visitante ao sul. O mais interessante é que a partir de O Pintor de Retratoseu passei a ganhar os melhores prêmios da minha trajetória de escritor. Mas o que aconteceu? Passo a vender menos. E assim foi o Jabuti, o Portugal Telecom… Eu fiz uma aposta, tinha risco. Mas, enfim, como não dependo disso para viver, posso me dar o luxo de fazer experiências. Mesmo aos cinqüenta anos. Por enquanto está dando certo. Até, quem sabe um dia, eu dizer: “Não é isso que eu quero”. O [Pablo] Picasso [1912-1973] que dizia: “Podem me acusar de copiar a todos os pintores, não a mim mesmo”.

Como você avalia esse fenômeno das micronarrativas que tem se destacado, por exemplo, com o Twitter?

Assis Brasil – O meio determinando o tamanho do texto não é novo. Eu tenho aqui na parede um texto da Idade Média, do século XIII. Ele está escrito em latim, as letras eram grandes. Um pergaminho, que era muito caro. As pessoas tinham que escrever do tamanho do dinheiro que elas tinham. Quer dizer, o meio determinou o tamanho. O Twitter é uma forma atual de um processo que já tem milênios. Eu acho bom, é evidente. É uma coisa transitória, mas é do nosso momento e está sendo útil. Todo processo cultural é o que é. Não sabemos onde vai dar. O que não pode é pensar que o mundo foi descoberto agora e se escreverá sempre dessa maneira.

O que dizer para um autor iniciante?

Assis BrasilDepende um pouco do gênero. Se for poeta eu digo que não trabalho com poesia. Nunca escrevi um poema na minha vida. Se for poeta eu digo que tem que consultar outro. Se for narrador eu repito o [William] Faulkner [1897-1962]: “Observação e experiência”. Ouvir os outros, ouvir muito os outros. Não é uma questão de humildade, é uma questão de inteligência. Ouvir o outro. Se você confia no outro, tem que se pode dizer alguma coisa. Outra coisa que digo, o que pode parecer surpreendente, é ler algo da teoria literária. Hoje os escritores estão ligados à universidade, de um modo ou de outro. É fenômeno da nossa era. A teoria é importante, não porque vai te deixar mais criativo, porque vai desenvolver o espírito crítico. Podendo freqüentar uma oficina literária… A formação do escritor passa por tudo isso. Não que deva passar por uma oficina literária. Mas, se puder, é caminho a mais concomitante com outros de muita leitura, muita leitura, observar e experiência. Essa questão da experiência, que me refiro, é experiência na tradição literária. Quer dizer, a literatura não começa comigo. A literatura começa lá com a Ilíada, a literatura do Ocidente. Conhecer essa tradição é muito importante, até para renegar a tradição é preciso conhecê-la. Não há outros caminhos. São fundamentalmente esses caminhos. É claro que o caminho principal e fundamental é a leitura. Tem que ler de tudo.

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